EM VALENÇA, UM GRÃO CULTIVADO COM PACIÊNCIA E PRECISÃO VEM RECOLOCANDO O RIO DE JANEIRO NO MAPA DOS CAFÉS DE EXCELÊNCIA. CONHEÇA A HISTÓRIA DO CAFÉ FLORENÇA, PREMIADO AQUI E NO EXTERIOR.
Você sabia que, depois da água, a bebida mais consumida no mundo é o café? E o Brasil é o maior produtor e exportador mundial: 40% do café consumido em todo o mundo saem daqui. No século XIX, o Rio de Janeiro foi o maior produtor deste grão, mas, hoje, São Paulo e Minas Gerais assumiram o posto. Ainda assim, em nosso estado, temos um produto premiado: o Café Florença, que já ganhou o primeiro lugar no III Concurso de Cafés Especiais do Estado do Rio de Janeiro e conquistou a Medalha Gourmet, em um prestigiado concurso de cafés especiais na França.
Para conferir de perto este sabor gourmet, fomos à Fazenda Florença, em Conservatória (distrito de Valença), onde ele é produzido. Quem nos conduziu pelo cafezal foi o proprietário Paulo Roberto dos Santos, que nos contou que, antes, a fazenda era um pasto de éguas da raça Percheron, até que o Sebrae promoveu um projeto de reintrodução do plantio do grão no Vale do Café (região do Sul Fluminense, onde havia as grandes fazendas produtoras do século XIX). Paulo abraçou a causa e, em 2017, terminou o plantio, com toda uma preocupação agroflorestal. “Também inserimos árvores nativas da Mata Atlântica e frutíferas, para favorecer a fauna. Hoje, em noite de lua cheia, conseguimos ver os animais passando, já que agora eles têm o que comer aqui”, comenta Paulo.
O sucesso do projeto trouxe desdobramentos, como informa Wanderson Farias, coordenador de turismo do Vale do Café: “Houve a criação da primeira associação dos cafeicultores do estado do Rio de Janeiro, já temos mais de 50 produtores de café na região e conseguimos a primeira identificação geográfica do café do estado. Também unimos o agro com o turismo de experiência, em que muitas pessoas visitam as fazendas históricas”.
DA TERRA AO BULE

Para sabermos como os grãos saem do cafezal e chegam às embalagens com o rótulo Florença, conversamos com João Medeiros, administrador da fazenda. “Um grão de qualidade já começa na seleção. Nós colhemos apenas os frutos bem maduros”, explica. E, para isso, a colheita é feita manualmente e de forma seletiva. Depois, os frutos ainda úmidos seguem para a secagem natural, momento em que o café desenvolve boa parte de sua doçura e complexidade sensorial. “O açúcar se encontra na parte externa do grão e, durante a secagem, ele é absorvido lentamente pela semente. É isso que ajuda a criar a doçura natural e os sabores que encontramos em um café especial”, detalha.
O processo dura entre 25 e 30 dias. Inicialmente, os grãos permanecem em terreiros suspensos, que permitem maior circulação de ar e uma secagem mais uniforme. “Assim, podemos trabalhar com um volume maior de café em um espaço menor. Como o ar circula por baixo da tela, a secagem acontece de forma homogênea”, explica João. Em seguida, os grãos seguem a secagem no terreiro convencional, no solo, método semelhante ao utilizado nas antigas fazendas cafeeiras. Todo esse cuidado tem um único objetivo: preservar ao máximo as características naturais do fruto.

Por fim, chegamos a uma das etapas mais aromáticas de toda a cadeia produtiva: a torra. Enquanto os grãos giram lentamente no equipamento, começam a adquirir a coloração característica que chegará à xícara do consumidor. Na Fazenda Florença, a escolha é pela torra média, considerada o ponto de equilíbrio ideal entre aroma, sabor e aceitação do público. “Uma torra média mantém todas as propriedades aromáticas e gustativas do café. Quando a torra é muito escura, esses atributos acabam sendo mascarados pelo excesso de queima. E a torra mais clara tira as notas sensoriais mais apuradas”, ensina o proprietário Paulo.

Finalizada a torra, chega o momento mais aguardado da visita: o preparo. Paulo revela dois segredos para valorizar ainda mais a bebida. O primeiro é usar uma cafeteira de cerâmica, chamada vandola, previamente aquecida com água quente. “Como a cerâmica é fria, ela pode roubar calor da extração”, explica. O segundo é despejar a água no coador em movimentos circulares, de fora para dentro, para que passe por todo o café de maneira uniforme. “Assim conseguimos extrair melhor todos os aromas e sabores”, ensina.
O resultado aparece imediatamente: o perfume invade o ambiente antes mesmo do primeiro gole. Na xícara, surge o sabor especial, que transformou este café produzido no interior do Rio de Janeiro em referência nacional e internacional.
Paulo Renato Marques é presidente da Pesagro-Rio, engenheiro e cientista político com MBA em marketing pela COPPEAD






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