NOVA ETAPA

EM BUSCA DE NOVOS PLACOS

A MANCHETE JUDICIÁRIO ESTÁ COM SEÇÃO NOVA! POR AQUI, VAMOS TRAZER HISTÓRIAS DE PESSOAS QUE, APÓS ANOS DE DEDICAÇÃO AO SERVIÇO PÚBLICO, ENCONTRAM OUTROS CAMINHOS E DESAFIOS DEPOIS DA APOSENTADORIA. A PRIMEIRA É MÁRCIO KLANG, QUE SEGUE SUA TRAJETÓRIA GUIADO POR DUAS GRANDES PAIXÕES: O MINISTÉRIO PÚBLICO E A ARTE.

Foram quase 50 anos de dedicação ao Ministério Público do Rio de Janeiro. Essa história começou em 1977, quando Márcio Klang, que então trabalhava em um escritório de advocacia, assumiu o cargo de Promotor de Justiça. Com a aposentadoria compulsória, ele agora pretende atuar em outros palcos – no sentido literal –, mas mantém vivo o vínculo com a instituição e a missão de aproximar o Ministério Público da sociedade, compartilhando sua importância e seu impacto na vida das pessoas.


Klang ingressou no órgão logo após a fusão dos antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, período marcado pela reestruturação e integração dos Ministérios Públicos das duas unidades federativas. Sua primeira designação foi para Cambuci, no interior do estado do Rio de Janeiro e, depois, para a Baixada Fluminense. “Nesse início, a gente não tinha sala, telefone, banheiro, não tinha nada. Era um desafio, mas eu sempre fui chegado a um desafio”, afirma.

Em 1993, foi promovido a Procurador de Justiça, cargo que exerceu até a aposentadoria, em 2025. Mas se engana quem imagina que ele deixou o Ministério Público para trás. Muito pelo contrário. Klang segue como coordenador do Centro de Memória Procurador de Justiça João Marcello de Araújo Júnior, setor responsável por reunir, preservar e divulgar documentos, objetos e informações que ajudam a contar a história do Ministério Público.


Além de diversos materiais catalogados e disponibilizados ao público na internet, o Centro de Memória promove uma série de exposições, que recebem, inclusive, alunos de escolas e universidades para visitas guiadas. “O Ministério Público é uma instituição essencial à Justiça, com independência funcional, e que fiscaliza, basicamente, o trabalho dos juízes. E uma das nossas metas é tornar o Ministério Público mais conhecido. Qual é a sua função? Para que ele existe? Como ele é estruturado? É isso o que queremos mostrar”, explica.

Ao mesmo tempo em que se dedica ao cuidado e à divulgação do acervo do Ministério Público, Klang se diz pronto para embarcar no mundo das artes cênicas. Mas esse não é um interesse recente. A dublagem, por exemplo, é uma antiga vocação – ele já emprestou a voz a personagens em uma série policial.

O trabalho como ator também faz parte da vida de Klang. Em 2024, ele foi convidado a participar do programa Falas Negras, exibido pela TV Globo. Depois de anos como Promotor de Justiça, na ficção ele trocou de lado, interpretando um juiz. “O trabalho como dublador ou ator é algo que eu gostaria de fazer, se deixarem. Estou à disposição”, brinca. Perguntado sobre o que prefere, a arte ou o direito, ele é taxativo: “Difícil, hein? Eu diria que o direito é uma manifestação de arte”.

ENTREVISTA

Humberto Martins
20 ANOS DE DEDICAÇÃO E AMOR AO STJ

EM SUAS DUAS DÉCADAS DE ATUAÇÃO NO SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, ESTE ALAGOANO REPLETO DE FÉ OCUPOU ALGUNS DOS PRINCIPAIS CARGOS DA MAGISTRATURA BRASILEIRA E PARTICIPOU DE IMPORTANTES TRANSFORMAÇÕES DO JUDICIÁRIO. NESTA CONVERSA, O MINISTRO REVISITA SUA TRAJETÓRIA, REFLETE SOBRE OS DESAFIOS DA CORTE E REAFIRMA OS VALORES QUE NORTEARAM SUA CARREIRA: HUMILDADE, DIÁLOGO, EQUILÍBRIO E COMPROMISSO COM A CIDADANIA.

Fazendo uma retomada da sua trajetória como ministro, qual é a imagem que lhe vem à cabaça sobre o dia em que o senhor chegou ao STJ?
Eu tive um misto de alegria e de responsabilidade. Alegria por representar o estado de Alagoas em Brasília, no maior tribunal federal, e, ao mesmo tempo, conviver com os mais notáveis magistrados brasileiros na Corte, com juristas reconhecidos nacionalmente. Mas, sobretudo, a responsabilidade de defender, de julgar e de distribuir no maior tribunal da cidadania do país.

O senhor não só representa muito bem o seu estado, mas toda a região Nordeste, não é mesmo?
O Nordeste dá exemplo de trabalho, de capacidade e, ao mesmo tempo, de pessoas que vivem e o representam como uma região que também traz grande desenvolvimento para o Brasil. No Nordeste, há vários nomes que fazem muito bem isso. Por exemplo, temos um dos maiores juristas do mundo, o alagoano Ponte de Miranda, e Hermeto Pascoal foi considerado um dos maiores músicos deste país. Temos também Aurelio Buarque de Holanda, Teotônio Vilela e tantos outros nomes que honram o estado de Alagoas. O nordestino, em outras regiões, dá exemplo de trabalho e de competência. É aquele que busca um Brasil de todos para todos, com igualdade, fraternidade, crescimento e desenvolvimento social.

O que o Humberto atual falaria para aquele Humberto de 20 anos atrás, quando chegou ao STJ?
Que ele nunca esquecesse os ensinamentos que aprendeu, quando pequeno, com sua mãe, que era pedagoga, e com seu pai José Martins, que fez carreira do Ministério Público por mais de 47 anos. Eles diziam: “Meu filho, nunca esqueça das três condições para vencer em qualquer atividade da vida, que são sempre ter humildade, prudência e sabedoria para reconhecer todas as pessoas que muitas vezes não têm o conhecimento dos livros, mas têm os da vida”. E eu levei o que aprendi na infância para a minha carreira. Todos os dias, sempre peço a Deus humildade e sabedoria para distribuir justiça, dando a cada um o que lhe é devido.

Não tive o privilégio de conhecer o doutor José Martins, mas vejo que, nos eventos jurídicos, o senhor sempre está cercado de sua família…
Exatamente! A família é a base, é a construção primeira de uma sociedade. E tenho a minha esposa Rita como meu porto seguro, o meu amparo na minha condição de vida, e meus dois filhos, Eduardo Felipe e Laís Camila, que também são da área jurídica. Agradeço todos os dias a Deus pela família que tenho, pelos meus amigos e pelas oportunidades que Ele me ofereceu. Por isso, não tenho nada a murmurar, só a agradecer.

O ápice da sua carreira no STJ foi em 2020, quando o senhor ocupou a presidência em plena pandemia. Como foi atuar nesse biênio de 2020 a 2022, período tão conturbado para o mundo?
Fazendo uma retrospectiva, quando cheguei no STJ, aprendi e aprendo a cada dia com os ministros da casa, iluminando as minhas decisões. E o tempo faz com que você vá exercendo outros cargos, firmando amizades dentro do tribunal e ganhando respeitabilidade por aquilo que é e transmite pelas suas ações. Nesse período da presidência, pegamos o grande foco que marcou a humanidade, que foi a covid. Mas trabalhamos com muita determinação, com muita efetividade, e sobretudo com muito amor, porque o fruto do crescimento é o amor e o fruto da justiça é a paz. Atuamos com humildade, com reverência, mas ao mesmo tempo com coragem e responsabilidade, comparecendo a esta casa, pedindo a proteção divina. Durante os dois anos, procuramos dar efetividade ao Tribunal da Cidadania, ouvindo os ministros e trabalhando lado a lado com os servidores e com todos, na busca de uma justiça cada vez mais acreditada e uma cidadania cada vez mais respeitada. Esse foi o nosso lema, de mãos dadas, porque, na verdade, somos apenas instrumentos da jurisdição em favor da distribuição do direito de dar a cada um o que lhe é devido. Por isso, agradeço a Deus por ter exercido a presidência. É nas dificuldades que crescemos, que acreditamos que temos sempre algo a fazer de bom em favor das pessoas. Só o amor constrói em prol do trabalho que nós exercemos.

O senhor ainda tem cinco anos pela frente para completar a sua missão no STJ. Por acaso, já tem em mente o que fará depois disso?
Eu ainda tenho cinco anos para trabalhar cada dia mais, no sentido de engrandecer o STJ e aprender sempre para que eu possa distribuir justiça com muito amor, mas sobretudo com muita igualdade e sensibilidade. Hoje, estou com 20 anos nesta casa e com 46 anos de atividade no serviço público, já tendo sido promotor, procurador de estado e desembargador, até ter sido levado, no dia 14 de junho de 2006, ao ministério do STJ. Então, continuo como servidor público, servindo à cidadania, ao público e ao jurisdicionado. Sempre digo que sou apenas um instrumento do poder; o proprietário do poder é o cidadão. E em relação a como será daqui a cinco anos, primeiro peço a Deus saúde, paz e vida, porque só Ele sabe realmente o tempo. Se me conceder mais de cinco anos, quando precisarei deixar de ser ministro da ativa, então é esperar o que Deus pode ter guardado para mim. Eu sou um crente na fé e sei que todas as missões que me forem dadas serão abençoadas. Eu digo apenas nas minhas orações: “Senhor, me ensina o caminho em que eu devo andar; estou em tuas mãos para que eu seja um instrumento em favor do bem”. E em qualquer atividade que eu exerça, que seja com muita humildade e com a sabedoria aprendida pelos meus pais: odiar nunca, amar sempre.

Quais seriam as suas considerações finais, por favor?
Eu finalizo com o grande conceito, que é o da gratidão. Em primeiro lugar, quero agradecer a Deus por tudo o que me deu, pelas oportunidades oferecidas e pelas graças alcançadas. Quero agradecer, em segundo lugar, à minha família e aos meus amigos de coração. E, ainda, aos ministros, pela convivência, amizade e troca de ideias, e pelo apoio nos momentos mais difíceis. Quero agradecer também a todos os servidores e, por que não, a todas as pessoas. À cidadania no sentido mais amplo, do mais importante ao mais humilde, porque, na verdade, todos nós somos importantes. Juntos, somos mais fortes na construção de um Brasil humano, fraterno, solidário, igual, onde todos possam sonhar com o bem-estar e com o bem-querer.