Harmonização
A ARTE DE DESPERTAR SENTIDOS À MESA

DA ENTRADA À SOBREMESA, ESTIVEMOS NO RESTAURANTE SÃO MIGUEL PARA MOSTRAR COMO A COMBINAÇÃO CERTA ENTRE O VINHO E O PRATO PODE TRANSFORMAR CADA UMA DAS ETAPAS DA REFEIÇÃO EM UMA EXPERIÊNCIA GASTRONÔMICA ÚNICA.

Para tornar uma refeição ainda mais especial e realçar o sabor dos alimentos, nada como uma boa taça de vinho. A harmonização correta faz com que a bebida e o prato se complementem, mas ela vai muito além de uma simples escolha de rótulo. É preciso observar as características de cada combinação para alcançar o melhor resultado. Para mostrar essa relação, visitamos o restaurante São Miguel, em Botafogo, onde provamos diferentes pratos acompanhados de vinhos escolhidos para cada proposta.


A harmonização começou de forma natural, a partir do hábito de consumir pratos e vinhos produzidos na mesma região. Onde havia mais frutos do mar, por exemplo, era comum a elaboração de vinhos brancos mais leves. Já em locais onde a caça fazia parte da culinária, a bebida era mais encorpada. Com o tempo, essas combinações foram se desenvolvendo e ganhando novos critérios.


Atualmente, a harmonização mais comum é feita por compatibilidade, em que são analisadas a estrutura do prato e do vinho para que seja possível encontrar um equilíbrio de intensidade. Assim, as carnes brancas são geralmente associadas a vinhos brancos, enquanto as carnes vermelhas costumam ser relacionadas aos tintos.
Outra forma de harmonização é por ambiente, que consiste em adaptar o estilo do vinho ao clima ou à ocasião. Uma das combinações mais clássicas nesse sentido é o espumante apreciado à beira da piscina.

MAIS SABOR E NUANCE
EM CADA ETAPA

Recém-inaugurado, o restaurante São Miguel, que pertence ao Grupo BestFork Experience, está instalado em um casarão preservado e conta com uma decoração marcada pelo verde – a sensação é de estar no meio de um jardim. Na churrasqueira, em vez de carvão, são utilizados diferentes tipos de lenha, como aroeira, nó de pinho e goiabeira. “Temos uma cozinha leve, descomplicada, mas com bastante técnica. Cada tipo de lenha proporciona uma defumação diferente, que pode ser percebida nas proteínas que grelhamos. Esse toque defumado dá um charme à comida”, diz o chef Frederico Xavier, que assina o cardápio e é sócio do restaurante.

Para acompanhar a primeira entrada, um blini de salmão com caviar, foi escolhido o espumante nacional Vitória Geisse Extra Brut Vintage. Ele tem como base as uvas Chardonnay e Pinot Noir e é produzido pelo método champenoise, processo de elaboração de espumantes em que a segunda fermentação ocorre dentro da própria garrafa. Logo no primeiro gole, é possível perceber o casamento entre os elementos. A gordura do salmão e a salinidade do caviar encontram equilíbrio com a estrutura da Chardonnay e a cremosidade que o método champenoise traz ao espumante.


Um steak grelhado na lenha, com molho especial, ovo frito e arroz de amêndoa, dá origem ao Filé São Miguel, prato que leva o nome da casa. “Quisemos traduzir aqui o conceito do restaurante. Então, elaboramos algo leve, simples e delicado, mas extremamente saboroso”, explica Xavier. Para acompanhar esse prato principal, a harmonização ficou por conta do Felino Alfa, um tradicional Malbec argentino de estrutura robusta e intensa. A união dos elementos que compõe o prato com as características do vinho se transforma em uma verdadeira explosão de sabor. Até mesmo a gema do ovo, macia e cremosa, que inicialmente gerava preocupação, sustentou os taninos e a acidez da combinação.

O vinho de sobremesa é considerado um dos acasos do destino na enologia – técnica dedicada ao estudo e à produção da bebida. Isso porque ele foi produzido a partir de uma uva colhida, por uma feliz coincidência, após o momento ideal. Durante a produção, parte do açúcar residual acabou permanecendo no vinho, dando origem a uma bebida doce e alcoólica ao mesmo tempo. O Mancura Late Harvest Sauvignon Blanc, proveniente desse processo de colheita tardia, traduz para a taça acidez e doçura, dois pilares fundamentais na estrutura de um bom vinho de sobremesa. Foi com ele que degustamos a delícia preparada pelo chef Xavier: arroz doce com calda de doce de leite, amêndoas e pipoca doce.


A doçura e a cremosidade do arroz doce, combinadas à crocância das amêndoas e da pipoca, oferecem uma experiência marcante. O vinho de sobremesa chega para renovar o paladar, despertando a vontade de dar mais uma colherada. Este é o charme da harmonização: a união entre a comida, o vinho e o desejo de renovar. Um conceito que combina muito bem com a proposta do restaurante. “O legal é esse! A gente finalizar uma refeição com essa vontade de estar sempre renovando, querendo mais. E a nossa expectativa é essa. Que a pessoa que vem ao São Miguel fique com vontade de voltar”, finaliza o chef.

 

Michel Sá é sommelier, formado pela Associação Brasileira de Sommeliers desde 1998. Empresário e líder à frente das lojas Grand Cru, no Rio de Janeiro

 

Maturano
O NOVO DESTINO DO VINHO BRASILEIRO

EM TERESÓPOLIS, UM SONHO GANHA FORMA: A VINÍCOLA MATURANO ABRE SUAS PORTAS UNINDO, TECNOLOGIA E TRADIÇÃO FAMILIAR, E MOSTRA QUE NO RIO TAMBÉM PODE HAVER EXCELENTES RÓTULOS.

Em meio às montanhas da Serra Fluminense, a névoa da manhã abre caminho para um projeto que nasceu de um sonho e hoje já se desenha como um marco para o enoturismo nacional. No alto de Teresópolis, a Vinícola Maturano se ergue como símbolo de um novo tempo. Ali, cada parreira representa mais do que uma promessa de bons vinhos – é a tradução do amor de uma família por suas origens, a fusão entre tradição, inovação e respeito à natureza.

“Sou apaixonado por vinhos”, conta Marcelo Maturano, fundador da vinícola. “Todas as vezes que viajava com a minha esposa, Fernanda, nós íamos visitar vinícolas, e esse era o jeito que ele encontrava para conseguir me fazer viajar. Meu avô é ligado à agricultura desde que nasceu. Ele chegou aqui nessa região em 1924”, completa. Inspirado pela memória do avô agricultor, com quem sempre passava as férias na infância, e pelas experiências entre vinhedos mundo afora, Marcelo começou a desenhar o sonho em 2018, enquanto morava nos Estados Unidos: “Eu tinha muito tempo para ler, para conversar… Um dia, falei brincando para a Fernanda: ‘vamos fazer uma vinícola em Teresópolis’. E o projeto começou a vir de uma forma lenta”.


De volta ao Brasil, no final de 2019, ele comprou a área com mais de 200 hectares e começou a fazer a correção do solo e a escolher agrônomo e enólogo. E assim o projeto começou a crescer. “A ideia era iniciar com 150 mil garrafas. Depois, passou para 320 mil. A Maturano nasce como uma vinícola boutique, mas que agrega toda a parte de hotelaria e gastronomia. Queremos que aqui seja um espaço para as pessoas sentirem novas experiências”, planeja. Marcelo fala, com brilho nos olhos, sobre o futuro que quer deixar aos filhos. “A Manuela abraçou o projeto. Ela é a alma disso tudo. Eu costumo dizer que, aqui, fazemos tudo com muito propósito, com muita identidade. Não queremos ser mais uma vinícola, e sim a vinícola de fato”, projeta.

UMA UVA PARA CHAMAR DE SUA

Manuela, filha e sócia na vinícola, cresceu entre taças e livros sobre vinhos. Foi ela quem fez uma descoberta que mudaria a história da família: uma uva autóctone italiana, centenária, chamada Maturano. “Eu perdi o sono uma noite e acabei encontrando, durante uma pesquisa sobre minha família e nossas origens, essa uva”, conta. Ela fica numa pequenina cidade chamada Pitinisco, na região de Lácio, que tem apenas cerca de 800 habitantes. “É um povo com uma hospitalidade absurda. Já tivemos a oportunidade de visitar Pitinisco duas vezes, desde que o projeto da Maturano começou. Foi uma sensação muito interessante, porque as nossas famílias são mais próximas do que a gente podia imaginar. A conexão com aquela terra foi muito profunda”, revela Manuela. Foram três anos de trabalho até conseguir trazer a variedade para o Brasil, em parceria com a Pesagro. “Finalmente conseguimos enxertar a variedade Maturano aqui”, comemora.

Com três terroirs distintos e um rigoroso controle de qualidade, a vinícola aposta em tecnologia de ponta e no método da dupla poda – técnica que permite colher no inverno, com menos chuvas e maior amplitude térmica. “O nosso inverno é realmente parecido com o verão ameno de algumas regiões da Europa”, explica Manuela. “A colheita é 100% manual. Sempre trabalhamos com cachos muito saudáveis e, mesmo tendo feito colheitas no passado, repetimos o treinamento com o pessoal para que todos tenham um senso crítico bem forte para realmente só selecionar as de melhor qualidade”, assegura.


Hoje, a vinícola já tem 40 hectares de vinhedos plantados, com 160 mil mudas, e produção prevista para atingir 320 mil garrafas até 2032. Além dos vinhos, o projeto da Vinícola Maturano aposta no enoturismo, buscando também abrigar restaurante, hospedagem e até uma gelateria artesanal, para agradar os menores de 18 anos que fizerem o passeio com os pais. “Vamos começar com o Origens, nosso restaurante baseado em parrilla, e depois a Dolce Vitis, nosso espaço com café e gelatos. A ideia é oferecer experiências para todos os públicos”, ambiciona Manuela.

SUSTENTABILIDADE AO LADO DA TECNOLOGIA

A Maturano nasceu com um forte compromisso ambiental e social. “A sustentabilidade é uma das maiores preocupações do nosso projeto”, diz Marcelo. “Hoje, nós fazemos captação de água de chuva para toda a parte de irrigação dos nossos jardins, inclusive a água da indústria também é tratada. E temos a expectativa de gerar 250 empregos diretos dentro da vinícola, além dos indiretos”, antecipa o proprietário.

Mais do que uma vinícola, o projeto visa movimentar a economia e o turismo da Serra Fluminense. “A gente quer mudar essa formatação. Fazer com que o turista venha para Teresópolis e fique mais de dois ou três dias, que traga recurso novo para dentro da nossa cidade. É um fomento que vai de fato acontecer”, diz o fundador.

Com uma arquitetura moderna e tanques projetados sob medida, a Maturano une estética e tecnologia. “Aqui, o nosso desengace da uva é realmente bem tecnológico. A prensa trabalha 100% inertizada com nitrogênio, e essa é a primeira no Brasil”, explica Manuela. “Essas máquinas que temos aqui em Teresópolis também podem ser encontradas nos melhores châteaux da França”, orgulha-se.
A responsável por transformar uvas em obras de arte engarrafadas é a enóloga Mônica Rossetti, com 25 anos de experiência no setor, inclusive nos vinhedos da Itália. “A acidez de nossos vinhos é bem presente. Isso é uma coisa muito interessante do nosso terroir. Por causa da amplitude térmica, conseguimos obter uma boa coloração e um aroma muito elegante”, descreve.


Mônica trabalha com o conceito de viticultura de precisão, que analisa cada parcela do vinhedo individualmente. “Cada vinho é um projeto. A gente começa lá na terra. Escolhemos as parcelas com uma ótima maturação, porque nem todo vinhedo é homogêneo. É importante definir a melhor uva para determinado terreno e o tipo de manejo para um vinho branco, rosé ou tinto”, explica a especialista.

No laboratório da vinícola, máquinas italianas fazem até 60 análises diferentes, permitindo decisões imediatas sobre colheita e fermentação. “Facilita muito a nossa vida, porque conseguimos realizar as pesquisas e vinificações separadamente, medindo os perfis mineral, ácido, de açúcares e de polifenóis. E isso nos dá autonomia total durante todo o processo. Estamos aqui com tecnologia de ponta para fazer um dos melhores vinhos do Brasil”, especula Mônica.

Sobre o futuro, a enóloga é enfática: “Pensamos a vinícola a 360 graus. Que ela fosse muito bonita, como arquitetura, para poder atrair as pessoas a conhecerem como é que nasce um vinho. Mas também com vinhedos de qualidade, tecnologia e conhecimentos aplicados. Quando falamos de excelência, ela está naqueles 5% que podem fazer a diferença. E é exatamente aí que trabalhamos agora.”.

Entre montanhas, modernidade e raízes familiares, a Vinícola Maturano simboliza um novo capítulo da viticultura brasileira. Ali, o vinho nasce do encontro entre ciência e emoção, e cada garrafa carrega o sonho de eternizar o sabor da Serra Fluminense. Como resume Marcelo: “Quem gosta de vinho não pode ter ansiedade. Isso aqui eu faço para a minha família, para os meus filhos, para os meus netos. Ainda temos mais 11 testes nos vinhedos para descobrir o que pode vir de nova variedade para a região. Por isso que eu digo que é um projeto de longuíssimo prazo. Não tem como pensar, como fazem os empresários brasileiros, que vai dar retorno em dois anos”.

Mas, quando o primeiro vinho da uva Maturano chegar às taças, será mais do que uma degustação: será o brinde de um legado. Um sabor que une passado e futuro, Brasil e Itália – e que pode fazer da Serra Fluminense um novo destino do vinho brasileiro. Enquanto isso, já vá se animando: no final de outubro, a Maturano foi aberta oficialmente com uma grande festa para 400 pessoas, com direito a missa, show de George Israel e, claro, degustação. Para conhecê-la, é preciso agendar por meio de link disponível no Instagram oficial da vinícola (@vinicolamaturano). E, embora o hotel – que terá 61 acomodações à beira do lago – só vá ficar pronto no final de 2028, até dezembro o restaurante da vinícola já estará aberto para receber os visitantes. Um brinde ao futuro da Vinícola Maturano!

Michel Sá é sommelier, formado pela Associação Brasileira de Sommeliers desde 1998. Empresário e líder à frente das lojas Grand Cru, no Rio de Janeiro