
entrevista
POR MARCOS SALLES
Luiz Césio Caetano
DEFENDER A INDÚSTRIA ESTÁ EM SEU DNA
DO CHÃO DE FÁBRICA À PRESIDÊNCIA DA FIRJAN: CONHEÇA A TRAJETÓRIA DESTE EMPRESÁRIO E DE SUA VISÃO SOBRE O FUTURO DO SETOR PRODUTIVO. AQUI, ELE FALA SOBRE DESAFIOS, OPORTUNIDADES E CAMINHOS PARA O DESENVOLVIMENTO DO RIO DE JANEIRO.
Há mais de meio século, a indústria faz parte da vida de Luiz Césio Caetano. Ele iniciou sua trajetória como estagiário na Sal Cisne, empresa da qual se tornaria diretor e acionista. O chão de fábrica foi também o ponto de partida para uma longa atuação na representação empresarial. Na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) desde 1995, passou por diferentes funções até assumir, em outubro de 2024, a sua presidência e a do Centro Industrial do Rio de Janeiro (Cirj), para um mandato até 2028.

À frente da Firjan, Caetano leva para a gestão a experiência de quem conhece de perto os desafios de produzir e empreender no estado, e aposta no diálogo com empresários e poder público para enfrentá-los. Nesta entrevista, ele fala sobre inovação, qualificação profissional, reforma tributária e gargalos que ainda comprometem a competitividade fluminense. Mas olha também para o futuro com otimismo, apontando uma janela de oportunidades para o desenvolvimento industrial do estado.
Como foi a sua trajetória no mundo industrial?
Eu comecei em 1970, quando ainda estudante de engenharia fui fazer estágio na Sal Cisne com meu pai, que era diretor industrial lá. Foi um período de aprendizado fantástico. Depois, trabalhei em outras empresas e voltei para a fábrica, em 1984, para assumir o lugar do meu pai, que morreu precocemente num acidente. Tive a grata satisfação de poder seguir os passos dele. Já são 56 anos ligados à indústria, no setor de alimentos.
E como começou o seu desejo de atuar na representação institucional dos outros industriais?
Eu estava em Cabo Frio produzindo na Sal Cisne, quando fui procurado para me filiar ao Centro Industrial do Rio de Janeiro. Em 1995, fui convidado para participar da representação regional da Firjan no Leste Fluminense, e me identifiquei com isso. Na sequência, assumi a presidência do Sindicato da Indústria de Refino do Sal, o que me tornou membro nato da federação. Então, fui convidado a participar da administração da Firjan, onde passei por todos os cargos possíveis, como conselheiro, diretor, diretor-secretário, vice-presidente e, em 2024, assumi a presidência.
Como você avalia esses dois anos da sua gestão na presidência da Firjan?
Tem sido muito prazeroso. Antes de eu assumir, fiz uma escuta ativa com toda a diretoria eleita na Firjan e no Cirj, para compreender as expectativas desses dirigentes empresariais. A partir dali, pude entender melhor as demandas, angústias e preocupações desses empresários, traçando um plano de trabalho para atendê-los. Juntei a minha experiência e as minhas angústias também, como empresário, com a vivência daqueles que estavam ali eleitos como eu, para que pudéssemos trabalhar juntos.
Como é esse relacionamento com a indústria fluminense?
Uma das minhas práticas de gestão é estar perto da indústria para escutar os associados. Também busco dar uma maior atenção às pequenas e médias empresas. Empresas maiores possuem estrutura e conseguem resolver seus problemas, embora a gente sempre esteja ajudando também. Mas as pequenas e médias têm um desafio enorme de sobreviver à dificuldade que é empreender no nosso país.
A principal função da Firjan seria colaborar com as indústrias do interior?
Eu diria que a função como federação é ser a representação desse setor industrial. Hoje, temos 99 sindicatos patronais associados, e nossa missão é representá-los. Uma das minhas práticas é a visita às indústrias, para conhecer suas dificuldades e demandas. Isso passa por achar caminhos junto aos órgãos da administração pública, aos projetos de leis, às necessidades de financiamento… É um trabalho constante. A defesa do interesse da indústria é o DNA da Firjan.
Hoje, vivemos uma revolução tecnológica. Como a Firjan tem contribuído com a inovação?
Um dos papéis da Firjan é conectar o conhecimento, a tecnologia e a inovação. Nosso último lançamento para atender à indústria foi em dezembro do ano passado, quando inauguramos o Centro de Referência em Tecnologia da Informação e Comunicação. É o maior polo de formação tecnológica do Brasil, capacitado à formação de 9 mil profissionais por ano, em 20 cursos em áreas como IA, processamento de dados e cibersegurança. Também temos os Institutos Senai de Inovação, como os de Biossintéticos e Fibras e o de Química Verde, que estão em nossa unidade Firjan Senai Sesi no Parque Tecnológico da UFRJ, na Ilha do Fundão. Hoje, temos uma carteira de R$ 350 milhões em projetos de inovação aplicada à indústria.
Dentro do sistema Firjan, quais são as ações do Sesi e do Senai para ajudar os associados?
Os serviços prestados pelo Sesi e pelo Senai fazem parte da nossa missão. O Sesi na parte de educação, saúde e segurança do trabalho, e o Senai na qualificação profissional para atender à indústria. Tenho um orgulho enorme de dizer que fizemos o maior investimento da história do Sesi e do Senai. Em 2025, investimos R$ 143 milhões – 43% acima de 2024. E, este ano, vamos fazer um investimento de R$ 210 milhões – quase 50% a mais sobre o ano anterior – em novos equipamentos e novas unidades, dando condições para a indústria acompanhar todo esse mundo que se move em uma velocidade incrível.
Vamos falar além da Firjan. Como você vê essa questão do tarifaço norte-americano?
É um problema para o Brasil. Não houve um grande impacto na economia fluminense, porque os nossos principais produtos de exportação, como petróleo e aço, não estão contemplados dentro do tarifaço. Mas, por outro lado, ele é muito perverso para as pequenas e médias empresas, que têm dificuldades em acessar novos mercados. Por isso, estamos atuando para suprir informações e acesso a novos mercados para elas. Este ano, realizamos duas ações de inserção de mercado, levando grupos de empresários para a Colômbia e África, e acho que eles voltaram extremamente satisfeitos com as conexões que fizeram.
O Rio sempre sofreu com a concorrência do ICMS. Agora, com a aplicação da isonomia, você acha que irá contribuir com a indústria fluminense?
Acredito que sim. A reforma tributária faz uma mudança fundamental, que é a cobrança do imposto na base de produção. Como o Rio de Janeiro é um grande consumidor – o terceiro mercado do Brasil –, temos efetivamente uma possibilidade de melhorar muito a nossa arrecadação. Fizemos o mapeamento de investimentos no estado nos próximos três anos, de 2026 a 2028, e identificamos na ordem de R$ 526 bilhões. Temos cerca de dois mil projetos em andamento, com R$ 326 bilhões em execução, e mais 200 projetos potenciais, com mais R$ 200 bilhões de investimentos. Isso abre uma enorme oportunidade para as indústrias do Rio de Janeiro.
E como você vê a discussão sobre a mudança na escala de trabalho para 5×2?
Desde que o assunto veio à tona, no ano passado, temos trabalhado ativamente em mais de 40 ações. Advogamos que não é o momento de se fazer uma alteração dessa magnitude, que causa impacto nas indústrias, principalmente nas essenciais ou de funcionamento contínuo. Vou dar um exemplo muito simples: como uma padaria pode funcionar cinco dias na semana? No sábado e no domingo, como o hospital vai ter o pãozinho francês? Não tem como. Por isso, entendemos que deve haver uma flexibilidade. Mas, para chegar a isso, é importante a negociação fora do ambiente eleitoral. É preciso avaliar de maneira bastante profunda esses impactos, para evitar um reflexo que não é o verdadeiro retorno esperado pelo trabalhador, nem pela sociedade.
Sim, porque isso mexe com os dois lados: com quem trabalha e com quem emprega…
O momento é polarizado. Isso traz discussões de maneira eloquente, de que é muito fácil imaginar que só tem benefício e que não há malefício. Mas o impacto econômico e social é muito grande. E é essa reflexão que temos advogado. Participamos, recentemente, de uma audiência pública no Senado, em que vários aspectos foram levantados e que não eram observados.
Estamos em ano de eleição. Como a Firjan se posiciona nesse momento tão importante da nossa sociedade?
A Firjan é apartidária. Porém, temos uma vertente importante, que é influenciar políticas públicas para o desenvolvimento da indústria e da sociedade. E, nesse sentido, estamos em diálogo com o atual governo do desembargador Ricardo Couto, mas também com os candidatos. Promovemos, em parceria com a Band, um debate com candidatos ao governo do estado, e, ao lado da ACRJ e da Fecomércio, a realização de encontros com candidatos à presidência da República. Buscamos fazer uma rodada de entendimento das suas plataformas e aquilo que melhor atende não só à indústria, mas a toda a sociedade. E entendemos que seja importante esse diálogo com os poderes eleitos.
Até porque é preciso ter uma sinergia grande com eles…
Sim. No final do ano passado, terminamos um estudo muito importante, chamado “Rio de Futuro, vocações e potencialidades econômicas do Rio de Janeiro”. Esse estudo trabalhou não só com banco de dados, mas principalmente com as expectativas de empresários, e identificou nove janelas de oportunidades que podem mudar a dinâmica do estado nos próximos dez anos. São essas oportunidades, e também os gargalos, que temos levado aos candidatos ao governo do estado. Acho que estamos em condições de contribuir para essa discussão e mostrar onde o Rio pode se desenvolver.
Diante de tudo isso, como você vê o futuro do estado?
No “Rio de Futuro”, como já mencionei, identificamos nove janelas de oportunidades que podem mudar a dinâmica do estado nos próximos dez anos. Isso nos deixa muito otimistas, e queremos cada vez mais ser proativos nessa parceria com o estado e com a sociedade, trazendo a indústria para ser protagonista desse desenvolvimento.
Marcos Salles é jornalista e presidente da Revista Manchete






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