SEGURANÇA
Energia nuclear
Entre o potencial e a proteção
Alessandro Facure, diretor-presidente da ANSN, mostra como a regulação, o avanço tecnológico e as lições do passado ajudam a tornar essa fonte de energia cada vez maisA segura.
A energia nuclear faz parte do nosso dia a dia muito mais do que imaginamos. Ela está presente na eletricidade que chega até nossas casas, nas inovações da medicina e até mesmo no processo de conservação de alimentos. Essa tecnologia ganha cada vez mais espaço e a sua evolução abre novas perspectivas para o Brasil e o mundo. Mas esse avanço vem também acompanhado de um questionamento: a energia nuclear é realmente segura?

Quem responde a essa pergunta é o diretor-presidente da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), Alessandro Facure. Vinculada ao Ministério de Minas e Energia, a autarquia monitora, regula e fiscaliza atividades e instalações nucleares no Brasil. “Quando entramos no avião, sabemos que existe um perigo inerente àquele trajeto aéreo. A autoridade reguladora de aviação define mecanismos para que esse deslocamento aconteça em condições seguras. O mesmo ocorre na área nuclear. Há um perigo inerente ao uso da energia nuclear, e a função da ANSN é estabelecer requisitos para que ele esteja dentro de limites aceitáveis, em condições de risco mínimo para a sociedade”, explica.
Nas usinas de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, a segurança é acompanhada de perto por inspetores residentes da ANSN, que permanecem nas instalações para monitorar continuamente a operação. Esse acompanhamento permite que o órgão regulador tenha informações em tempo real sobre qualquer desvio ou ocorrência e possa atuar rapidamente quando necessário.
A ANSN está ainda presente em todas as fases de licenciamento de um empreendimento nuclear, que vão desde a aprovação do local onde ele será instalado até a definição dos requisitos para a sua construção. Facure destaca ainda que diversas fontes radioativas são utilizadas no país – na saúde, na indústria, na pesquisa, na segurança pública –, e a ANSN não apenas mantém informações sobre elas, como realiza o controle periódico por meio de inspeções regulatórias.
Aprendizados para um setor mais seguro
Em 1986, o mundo voltou os olhos para Chernobyl, na antiga União Soviética, onde a combinação de falhas operacionais e problemas no projeto de um reator nuclear deram origem a um grave acidente que entrou para a história. Em Fukushima, no Japão, um terremoto seguido de tsunami provocou uma nova crise nuclear, em 2011, na usina localizada na região.
Segundo Facure, um evento da mesma magnitude de Chernobyl não se repetiria nos dias de hoje, uma vez que não existem reatores em operação com as mesmas características do modelo envolvido no desastre. Mais importante, porém, foi a transformação provocada pelo acidente. “Chernobyl trouxe uma lição enorme para o setor. Os aprendizados foram incorporados a novos projetos nucleares em todo o mundo para evitar que situações como essa voltem a acontecer, e isso também vale para Fukushima. Essa trajetória de aperfeiçoamento torna, cada vez mais, os empreendimentos nucleares seguros e eficientes”, afirma.
No Brasil, Goiânia vivenciou, em 1987, o que é considerado o maior acidente radioativo do mundo fora de uma instalação nuclear, com o Césio-137. O manuseio indevido de um aparelho de radioterapia abandonado espalhou fragmentos da substância, na forma de pó azul brilhante, contaminando pessoas e locais. Esse episódio também desencadeou uma série de ações na área de segurança nuclear. “Novas normas foram estabelecidas, inclusive relacionadas à fabricação de fontes radioativas, que não são mais fabricadas sob a forma de pó. Hoje, se ocorresse um acidente com qualquer fonte radioativa, não teríamos essa dispersão que houve em Goiânia”, diz Facure.
De acordo com o diretor-presidente da ANSN, o Brasil possui conhecimento, tecnologia e recursos para se desenvolver na área nuclear. E se engana quem imagina ser possível prescindir dessa fonte de energia. “Quando falamos em energia nuclear, falamos em soberania. Estamos aqui para garantir a segurança da população nessa área, que pode levar o país a um nível de desenvolvimento que a sociedade brasileira merece”, finaliza.






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