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Sol, vento e uma nova era energética

Com uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta, o Brasil vive uma transformação silenciosa. Enquanto as hidrelétricas seguem liderando a geração, a expansão das energias solar e eólica redesenha o setor e coloca o país em posição estratégica na transição energética mundial.

Poucos países reúnem condições tão favoráveis quanto o Brasil para produzir energia limpa. Com rios caudalosos, uma das maiores incidências solares do planeta e ventos constantes capazes de movimentar turbinas durante boa parte do ano, o país construiu uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo. Mais de 85% da eletricidade gerada em território nacional têm origem em fontes renováveis, um índice raro entre as grandes economias e que nos coloca em posição privilegiada na corrida global pela descarbonização.

O Brasil tem os custos de produção de renováveis entre os mais baratos do mundo, mas uma tarifa final que está entre as mais caras. A inteligência na gestão do portfólio energético, entendendo atributos, riscos e oportunidades de cada fonte, nunca foi tão decisiva.”

DIOGO BUENO, CEO da Liven Energia

Essa liderança, no entanto, deixou de depender exclusivamente das hidrelétricas – embora elas ainda estejam à frente, respondendo por 55% da geração elétrica brasileira. De duas décadas para cá, o cenário energético está passando por uma profunda transformação. A energia eólica se consolidou como protagonista a partir dos primeiros leilões realizados nos anos 2000, enquanto a energia solar viveu uma expansão acelerada na última década, impulsionada pela queda dos custos dos equipamentos e pelo avanço da geração distribuída. Juntas, as duas fontes já representam aproximadamente 30% da capacidade instalada do país e vêm alterando não apenas o perfil da geração de energia, mas também a dinâmica de investimentos e o planejamento do setor elétrico.

No entanto, isso não significa perda de importância das hidrelétricas, mas sim o crescimento acelerado das outras fontes renováveis e as limitações ambientais para a construção de grandes reservatórios. Ao mesmo tempo, a energia solar passou a ocupar praticamente todo o território nacional, tanto por meio de grandes usinas quanto de sistemas instalados em residências, comércios e indústrias, enquanto os parques eólicos transformaram o Nordeste em um dos principais polos mundiais de geração pelo vento. Porém, novos desafios também surgiram. Afinal, produzir energia não significa, necessariamente, conseguir entregá-la exatamente quando ela é necessária.

Muito além do preço
Quando se fala em geração de energia, é comum que a comparação entre diferentes fontes seja feita apenas pelo custo de produção. Mas especialistas alertam que essa visão simplificada pode esconder fatores essenciais para o funcionamento do sistema elétrico. “Analisar fontes apenas pelo custo é como comparar veículos olhando unicamente o preço do anúncio, sem considerar consumo de combustível, manutenção, autonomia ou segurança. No setor elétrico, esses atributos têm impacto direto na confiabilidade do sistema e, em última instância, na conta de luz do consumidor final”, afirma Diogo Bueno, CEO da Liven Energia.
Na prática, cada fonte apresenta características próprias. Algumas conseguem produzir energia sob demanda, sempre que o operador do sistema necessita. Outras dependem diretamente das condições climáticas, como a incidência solar ou a intensidade dos ventos. Há ainda diferenças relacionadas à capacidade de armazenamento, à flexibilidade operacional e à estabilidade que cada tecnologia oferece à rede elétrica.

É justamente essa complementaridade que garante o equilíbrio do sistema brasileiro. Enquanto hidrelétricas com reservatórios podem aumentar ou reduzir rapidamente sua produção, funcionando como verdadeiros reguladores da oferta, fontes como solar e eólica geram eletricidade quando o recurso natural está disponível. Não se trata de uma limitação tecnológica, mas de uma característica inerente a essas fontes renováveis. Esse cenário exige investimentos constantes em transmissão, sistemas de armazenamento e mecanismos capazes de compensar a variabilidade da geração. Sem esse equilíbrio, parte da energia produzida pode simplesmente deixar de ser aproveitada. E esse desafio já começa a aparecer no Brasil: “Quando um sistema tem muita geração não despachável e pouca capacidade de armazenamento ou reserva garantida, ele precisa contratar capacidade de backup (geralmente, termelétrica). Essa capacidade reserva tem custo, e ele aparece na conta de luz. O crescimento acelerado de solar e eólica, sem o correspondente investimento em transmissão e armazenamento, gera ainda o chamado curtailment, ou corte forçado de geração, que representa desperdício econômico e encarece o custo médio da energia contratada para todos”, explica Daniel Mayall, diretor de geração da Liven.
Em outras palavras, quanto mais a matriz cresce baseada em fontes variáveis, maior se torna a necessidade de planejar o sistema como um todo. O desafio deixa de ser apenas gerar energia barata e passa a ser garantir que essa energia esteja disponível no momento certo, com segurança e eficiência. É justamente nesse contexto que as fontes solar e eólica ganham cada vez mais protagonismo. Embora utilizem recursos naturais abundantes e renováveis, cada uma possui características próprias, vantagens específicas e desafios que ajudam a explicar por que elas ocupam hoje posição central na transformação energética brasileira.

Energia solar: cada vez mais acessível
Há pouco mais de uma década, enquanto países como Alemanha, Japão e China já investiam pesadamente em tecnologia fotovoltaica, o Brasil permanecia concentrado em seu enorme potencial hidrelétrico. A mudança começou em 2012, quando a fonte passou a integrar os leilões federais de energia, e ganhou velocidade dois anos depois, com a realização do primeiro leilão exclusivo para projetos solares.
Desde então, a expansão foi vertiginosa. A queda expressiva dos preços dos painéis fotovoltaicos no mercado internacional, impulsionada principalmente pela indústria chinesa, somada ao amadurecimento da engenharia nacional e ao aumento da competição entre empreendedores, transformou a energia solar em uma das fontes mais competitivas do setor elétrico brasileiro. Hoje, o país figura entre os dez maiores mercados solares do planeta e lidera com folga a América Latina em capacidade instalada. O cenário é favorecido por uma condição natural privilegiada: a irradiação solar média brasileira está entre as mais elevadas do mundo, especialmente nas regiões Nordeste e Centro-Oeste.
O crescimento da energia solar ocorreu por dois caminhos distintos, mas complementares. O primeiro é a geração centralizada, formada por grandes usinas conectadas ao sistema nacional de transmissão. Desenvolvidas por empresas do setor elétrico, elas abastecem distribuidoras e consumidores do Mercado Livre de Energia, sendo importantes fornecedores para grandes indústrias, redes varejistas, hotéis e outros segmentos intensivos em consumo elétrico.

O segundo é a geração distribuída, responsável por uma verdadeira democratização da produção de energia. Nesse modelo, o consumidor deixa de ser apenas usuário da rede para se tornar também produtor. Painéis instalados em residências, condomínios, supermercados, indústrias e estabelecimentos comerciais permitem que parte da eletricidade consumida seja produzida no próprio local, reduzindo significativamente a conta de luz.

Esse movimento ganhou força após a regulamentação promovida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em 2012. Se nos primeiros anos a adesão ainda era tímida, a partir de 2020 o mercado passou por uma verdadeira corrida de investimentos, impulsionada pelas mudanças regulatórias e pela maior oferta de financiamento. Atualmente, a geração distribuída responde por mais de 30 GW de capacidade instalada, enquanto a soma com as grandes usinas faz a energia solar alcançar cerca de 48 GW – um crescimento extraordinário para uma tecnologia praticamente inexistente no país pouco mais de dez anos atrás.

O outro lado da expansão
Ao contrário das hidrelétricas, capazes de aumentar ou reduzir sua produção conforme a demanda, a energia solar depende da disponibilidade do sol. Durante as horas centrais do dia, quando a geração atinge seu pico, pode haver uma oferta superior à capacidade da rede de transportar ou absorver toda essa eletricidade. No início da noite, por outro lado, a produção cai rapidamente justamente quando o consumo volta a crescer. Isso exige respostas rápidas de outras fontes de geração e investimentos cada vez maiores em transmissão, armazenamento e sistemas de controle da rede elétrica.
Além disso, em determinadas situações, mesmo com condições ideais de produção, usinas solares são obrigadas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a reduzir ou interromper temporariamente sua geração – o já mencionado curtailment. Isso pode ocorrer por conta da limitação das linhas de transmissão disponíveis para transportar toda a energia produzida ou quando simplesmente existe mais eletricidade disponível do que demanda naquele instante. Nos últimos anos, esse fenômeno se tornou mais frequente em regiões de forte concentração de usinas solares e eólicas, como Rio Grande do Norte, Piauí, Bahia e o norte de Minas Gerais. Além de representar desperdício de um recurso renovável, reduz a receita dos empreendimentos e evidencia a necessidade de acelerar os investimentos em infraestrutura elétrica.
Apesar desses desafios, as perspectivas permanecem bastante favoráveis. A crescente eletrificação da economia, a instalação de grandes centros de processamento de dados impulsionados pela inteligência artificial, a busca das empresas por metas de descarbonização e a expansão contínua do Mercado Livre de Energia devem manter a demanda por eletricidade renovável em trajetória ascendente.
Outro fator estratégico é a complementaridade entre a energia solar e a geração hidrelétrica. Os meses de maior incidência solar costumam coincidir justamente com o período em que os reservatórios apresentam níveis mais baixos, permitindo que uma fonte contribua para aliviar a pressão sobre a outra e aumentando a eficiência do sistema elétrico como um todo. Agora, o desafio para garantir seu crescimento é investir em infraestrutura necessária para transformar todo esse potencial em energia efetivamente disponível para consumidores e empresas.

Energia eólica: Brasil em quinto lugar
Se a energia solar transformou telhados em pequenas usinas espalhadas por todo o país, foi o vento que colocou o Brasil entre os protagonistas mundiais da geração renovável. Em pouco mais de duas décadas, a energia eólica deixou de ser uma promessa para se tornar um dos principais pilares da matriz elétrica nacional, incentivando investimentos, fortalecendo a indústria e consolidando o Nordeste como uma das regiões de maior potencial eólico do planeta.

Os primeiros parques comerciais começaram a surgir no início dos anos 2000, impulsionados pelo Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa). O verdadeiro salto, porém, veio a partir de 2009, quando os leilões federais revelaram aquilo que estudos técnicos já indicavam: produzir energia a partir dos ventos brasileiros era não apenas ambientalmente vantajoso, mas também altamente competitivo. Hoje, o Brasil ocupa a quinta posição entre os maiores mercados eólicos do mundo e lidera com folga a América Latina. São mais de 32 GW de capacidade instalada, responsáveis por cerca de 14% de toda a eletricidade produzida no país.
Grande parte desse sucesso se deve ao Nordeste. A região reúne características climáticas praticamente únicas no mundo. Os ventos alísios sopram com intensidade, regularidade e previsibilidade durante boa parte do ano, permitindo que muitos parques eólicos brasileiros alcancem fatores de capacidade superiores a 50% – desempenho bastante acima da média mundial e comparável ao de grandes usinas hidrelétricas.
Outro diferencial importante está na complementaridade natural entre vento e água. Os meses de maior intensidade dos ventos no Nordeste coincidem com o período de estiagem no Sudeste e Centro-Oeste, quando os reservatórios das hidrelétricas costumam registrar níveis mais baixos. Dessa forma, enquanto diminui a disponibilidade hídrica, aumenta a produção eólica, reduzindo a necessidade de acionar usinas termelétricas, que possuem custo operacional mais elevado e maior emissão de gases de efeito estufa.
A consolidação da energia eólica caminhou lado a lado com o crescimento do Mercado Livre de Energia. À medida que mais empresas passaram a escolher seus fornecedores de eletricidade, aumentou também a demanda por contratos baseados em fontes renováveis, capazes de combinar preços competitivos e compromissos ambientais. “Acompanhamos de perto a consolidação das eólicas como uma das principais fontes dos contratos do Mercado Livre de Energia. Com atuação na comercialização e gestão de portfólios energéticos, estruturamos contratos de energia para consumidores dos mais variados setores, de supermercados a complexos hoteleiros, de indústrias à logística”, afirma Nilo Felix Junior, diretor comercial da Liven.
Além da expansão em terra firme, um novo horizonte começa a despertar o interesse do setor: a geração eólica offshore, instalada em alto-mar. O Brasil possui um dos maiores potenciais técnicos do mundo para esse tipo de empreendimento, principalmente ao longo das costas do Norte e Nordeste, onde a plataforma continental favorece a instalação das turbinas e os ventos apresentam excelente qualidade. Apesar desse enorme potencial, Nilo acredita que ainda há muito ceticismo sobre a viabilidade das eólicas offshore: “Indefinições regulatórias e ambientais, como a forma de obtenção das licenças, seguem gerando dúvidas. E os grupos estrangeiros que demonstraram interesse em expandir para essa nova fronteira energética já não têm o mesmo apetite. Nesse cenário, é razoável afirmar que os primeiros projetos offshore ainda demorem pelo menos dez anos para entrar em operação nos mares brasileiros”.

Desafios da próxima década
Assim como acontece com a energia solar, a expansão da fonte eólica também depende da capacidade de modernização da infraestrutura elétrica. Grande parte dos parques está concentrada no Nordeste, região que exporta energia para os principais centros consumidores do país. Em determinados períodos do ano, porém, a capacidade das linhas de transmissão se aproxima do limite, obrigando o Operador Nacional do Sistema Elétrico a restringir parte da geração disponível – mas especialistas acreditam que o curtailment poderá ser reduzido com a ampliação da malha de transmissão, a evolução dos sistemas de armazenamento em baterias e o avanço de novas tecnologias capazes de tornar o sistema elétrico mais flexível.
Outro movimento promissor é a evolução tecnológica das próprias turbinas. Equipamentos mais altos, com rotores maiores e maior eficiência, vêm ampliando as áreas economicamente viáveis para novos empreendimentos, permitindo que estados do Sul do país também passem a integrar esse mapa de expansão.

Mas, afinal, o que é melhor: a energia solar ou a eólica? Mais do que escolher uma tecnologia, o desafio atual está em combinar as diferentes fontes de maneira inteligente, explorando as vantagens de cada uma. Diogo Bueno finaliza, lembrando que o país vive hoje um momento decisivo: “O Brasil passou de uma matriz de basicamente duas fontes (hidrelétricas e térmicas) para uma matriz diversa, aumentando a participação total de renováveis. Mas o modelo que nos trouxe até aqui apresenta sinais de cansaço. O paradoxo é claro: o Brasil tem os custos de produção de renováveis entre os mais baratos do mundo, mas uma tarifa final que está entre as mais caras. Nesse contexto, a inteligência na gestão do portfólio energético, entendendo atributos, riscos e oportunidades de cada fonte, nunca foi tão decisiva”.

 

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