Entrevista do Mês

Entrevista do mês: Caio Lira

ENTREVISTA

Caio Lira
O DOM DE GERIR
O ATACAREJO

ELE NASCEU NA PARAÍBA, MAS JÁ SE TORNOU UM LEGÍTIMO CARIOCA. E TROCOU A VIDA DE EXECUTIVO PELA DE EMPRESÁRIO, AO SE TORNAR UM DOS SÓCIOS DA DOM ATACADISTA. CONHEÇA A GARRA DESTE GESTOR QUE ESTÁ AJUDANDO A REDE FLUMINENSE A CRESCER CADA VEZ MAIS.

Em um mercado dominado por grandes redes nacionais, a Dom Atacadista escolheu um caminho diferente: crescer apostando no consumidor fluminense. Em apenas sete anos, a empresa consolidou sua presença em todas as regiões do estado e alcançou a marca de 26 lojas, cerca de 5.700 colaboradores diretos, 700 fornecedores, 12 mil itens comercializados e 1,8 milhão de clientes ao mês. E a expansão está longe de terminar: a meta é inaugurar mais dez unidades nos próximos dois anos.

À frente dessa nova fase está Caio Lira, diretor-executivo e sócio da Dom Atacadista. Depois de construir uma carreira de 23 anos na Ambev, o executivo aceitou o desafio de trocar a indústria pelo atacarejo para profissionalizar a gestão da empresa. Ao lado do fundador Erasmo Gomes da Silva – ex-sócio da rede Supermarket – e de sócios mineiros da bandeira MartMinas, Caio vem ajudando a transformar uma empresa jovem em uma das principais redes atacadistas do estado.

Como nasceu a Dom Atacadista?
A Dom é uma empresa relativamente nova. Em setembro, completaremos sete anos de história no estado do Rio de Janeiro, mas tudo começou muito antes, com o nosso sócio-fundador, Erasmo. Desde menino, ele trabalhava no comércio, no balcão de uma loja montada pelo pai. Sua trajetória foi construída no varejo de periferia, até que começou a abrir lojas no Rio de Janeiro. Depois de acumular muita experiência, Erasmo decidiu encerrar um ciclo no varejo de supermercados e enxergou uma grande oportunidade no atacarejo. O segmento já crescia muito no Brasil, mas o Rio ainda não tinha uma grande empresa regional. Foi com essa visão que ele criou a Dom, em 2018.

Criar uma rede regional para disputar espaço com grandes grupos nacionais era uma aposta ousada. Por que Erasmo acreditou nesse projeto?
Porque seria uma rede exclusiva do Rio, com a identidade do fluminense e do carioca. Havia cadeias nacionais operando no estado, mas não existia uma empresa genuinamente fluminense, que trouxesse os fatores culturais e entendesse bem o consumo das famílias daqui.

Como se formou a atual composição societária da empresa?
Erasmo iniciou o projeto sozinho e seguiu dessa forma até abril de 2022. Com a intenção de acelerar a expansão, trouxe para a sociedade os empresários da bandeira MartMinas, líder do segmento de atacarejo em Minas Gerais. Eu cheguei também em 2022, trazendo uma visão mais ligada à governança corporativa e à gestão, em razão da carreira que construí na indústria. Costumo brincar que formamos um blend perfeito: a cultura do carioca empreendedor, o conhecimento operacional dos sócios mineiros e a minha visão de gestão corporativa. Essa combinação é a Dom Atacadista.

Qual é a sua trajetória profissional?
Sou paraibano, de João Pessoa, e minha formação é na área de gestão. Estudei Administração com ênfase em Engenharia de Produção, na Universidade Federal da Paraíba, e fiz MBA em Gestão no Insper, em São Paulo. No início dos anos 2000, ingressei em uma empresa que passava por um grande movimento de fusão e se tornaria uma das maiores do Brasil: a Ambev. Fiz nove mudanças de domicílio, trabalhei com vendas em várias regiões do país e, por último, liderei o segmento de varejo como vice-presidente, sendo responsável por pouco mais de 50% do faturamento da Ambev no Brasil. Foram 23 anos lá e 27 anos, ao todo, na indústria. Essa trajetória me proporcionou uma visão nacional sobre bens de consumo, diferenças culturais, marketing regionalizado, gestão, formação de equipes e operações logísticas. Depois, recebi o convite para encerrar esse ciclo, mudar de lado da mesa e passar de fornecedor a varejista.

Como encontrou a Dom quando chegou e o que mudou desde então?
Encontrei uma empresa que já ultrapassava seu primeiro bilhão de reais em faturamento e havia chegado a dez lojas. Era uma história muito bonita, construída pelo Erasmo e por colaboradores que estavam com ele desde o começo. A empresa já apresentava um ritmo muito interessante de expansão. O que ainda precisávamos construir eram os processos e o modelo de gestão. Nos últimos quatro anos, trabalhamos para trazer o mundo corporativo para a rotina da empresa. Gestão é muito simples: é preciso ter indicador, processo, ritual e uma disciplina enorme para fazer isso todos os dias. Cultura é um conjunto de hábitos repetidos diariamente, para que o funcionário entenda o que estamos construindo, internalize, acredite e passe a reproduzir esse comportamento.

A Dom tem hoje 26 lojas. Quais são os próximos passos da expansão?
Estamos animados. O ritmo é acelerado e falamos o tempo inteiro sobre crescimento, terrenos e novas cidades. Neste momento, estamos analisando e desenvolvendo projetos em dez novas áreas. Acredito que, nos próximos 18 a 24 meses, alcançaremos esses dez empreendimentos, distribuídos entre a capital e outros municípios do estado. Serão praticamente cinco lojas por ano, uma inauguração a cada dois meses e meio. Somos audaciosos, mas isso exige acordar cedo, dormir tarde, combinar o que precisa ser feito e ter muita disciplina. Com 36 lojas, a Dom deverá superar R$ 5,5 bilhões em faturamento.

Como a estrutura logística está sendo preparada para esse crescimento?
As nossas 26 lojas têm capacidade para armazenar grandes volumes, mas estamos montando o primeiro centro de distribuição da empresa. A operação ficará em Queimados, próxima à Via Dutra, e permitirá centralizar boa parte das compras, gerando eficiência logística para a Dom e facilitando o trabalho dos fornecedores. Esse é um dos grandes projetos da empresa para os próximos meses. Não poderíamos crescer para mais dez lojas sem investir na retaguarda. O nome do jogo para o varejo é ganho de eficiência. É preciso ganhar escala e buscar eficiência 24 horas por dia, com muita gestão e formação de boas equipes.

Uma expansão desse porte exige também grande investimento em pessoas?
Sim. Investimos muito em treinamento. Temos universidade corporativa, capacitação digital e presencial e planos de desenvolvimento para as lideranças. Nosso programa alcança todo o grupo gerencial, desde o entendimento da cultura corporativa até as práticas de gestão necessárias para formar um executivo de ponta. Também acompanhamos a carreira desses profissionais por meio de feedbacks estruturados e os preparamos para avançar desde uma posição de subgerência de loja até uma diretoria.

A presença em diferentes regiões do estado também ajuda a formar profissionais?
Sem dúvida. Estamos em cidades como Itaperuna, Campos dos Goytacazes, Resende, Petrópolis e Teresópolis, e chegaremos em breve a Três Rios. Essa distribuição é importante para a marca e para a construção de um ecossistema de mão de obra. Nossos gerentes fazem o chamado job rotation. O gerente de Macaé pode assumir uma loja em Teresópolis; o de Teresópolis pode ir para Angra dos Reis; e o de Angra pode vir trabalhar em nossa sede. Isso desenvolve uma boa reserva de profissionais preparados. Ao mesmo tempo, os municípios possuem um consumo reprimido muito grande. Procuramos cidades com mais de 70 mil habitantes, onde há massa de consumo e pessoas interessadas em novas experiências, produtos e acesso. Com a chegada da loja, o morador não precisa mais se deslocar aos grandes centros para fazer suas compras. Isso vem gerando uma forte identificação dessas regiões com a marca Dom.

Como a empresa quer ser percebida pelo cliente?
Queremos ser a melhor opção todos os dias. Não trabalhamos com a lógica de ter um preço alto hoje, fazer uma promoção amanhã e retirá-la depois. Nossa estratégia é oferecer um preço justo diariamente. A missão principal de todos os profissionais da empresa é aumentar o poder de compra dos nossos clientes. A nota de R$ 50 dele precisa valer mais dentro da Dom do que no concorrente. Por isso, brigamos muito na compra dos produtos. Na Dom, todos são compradores. Eu atendo fornecedores, os outros sócios também participam das negociações. Gostamos de estar à mesa porque isso mantém o pulso do negócio. Para levar vantagem ao cliente, precisamos comprar bem.

Quais são os principais produtos procurados nas lojas?
Quando perguntamos aos clientes o que eles gostam na empresa, percebemos que reconhecem uma proposta de valor baseada em preço justo e abastecimento. Temos um mix muito bem-posicionado e não perdemos no básico: arroz, óleo, feijão, açúcar, leite, carne e frango. Somos muito fortes nessas categorias e, por isso, a Dom é reconhecida como uma rede abastecedora.

Qual é o espaço do comércio digital em um negócio ainda muito ligado à loja física?
Nosso aplicativo está sendo preparado e também estamos expandindo a presença no delivery com o iFood. O varejo alimentar, porém, ainda está muito relacionado à experiência sensorial de estar na loja. O atacarejo combina muito com o momento econômico do Brasil porque oferece descontos importantes. A família e o empresário que abastece seu restaurante ou sua pizzaria fazem contas. Estamos facilitando a jornada digital, mas acreditamos que o mundo físico continuará coexistindo com o digital pelos próximos cinco ou dez anos. As lojas também estão se transformando. Hoje, elas reúnem farmácias, lotéricas, restaurantes, academias, centros automotivos e espaços para crianças. Realizamos eventos infantis, teatros, feiras de automóveis e de artesanato. A loja virou um grande ponto de convivência e entretenimento. Por isso, investimos em ambientes agradáveis, climatizados e com diferentes serviços.

Quais são as suas considerações finais?
Tenho muito orgulho de estar numa empresa 100% do Rio de Janeiro, que acredita no potencial do estado e abre suas portas todos os dias para atender a quase 1,8 milhão de pessoas por mês. Também temos uma responsabilidade social muito grande. Investimos em obras sociais, empregamos pessoas de toda a diversidade e exercemos um papel relevante nas regiões em que atuamos. É uma satisfação fazer parte da história da Dom e de pertencer a esse movimento de desenvolvimento do estado. Espero que o Rio continue crescendo.

 

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