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O sabor das pancs: PARECE MATO, MAS É ALIMENTO

O sabor das pancs
PARECE MATO, MAS É ALIMENTO

EM CASIMIRO DE ABREU, AS CHAMADAS PLANTAS ALIMENTÍCIAS NÃO CONVENCIONAIS REVELAM NOVAS POSSIBILIDADES: FOLHAS E FLORES GANHAM PROTAGONISMO NA CULINÁRIA E RESSIGNIFICAM A RELAÇÃO COM A NATUREZA.

Em meio ao verde abundante de Casimiro de Abreu, um movimento profundamente transformador para a sustentabilidade começa a ganhar força. São as Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), que deixam de ser vistas como “mato” para assumirem um novo papel: o de alimento nutritivo, acessível e repleto de possibilidades. O termo PANC foi popularizado por pesquisadores, como o botânico Valdely Ferreira Kinupp, e se refere a plantas – ou partes delas – que podem ser consumidas, mas que não compõem o consumo alimentar tradicional da maioria das pessoas. Muitas dessas espécies são facilmente encontradas na natureza, em quintais ou até mesmo em áreas urbanas, mas acabam tendo seu potencial nutricional e gastronômico ignorado.

No terreno da Fundação Municipal de Casimiro de Abreu, as plantas comestíveis se multiplicam, como as belas flores

Para conhecermos de perto este universo, fomos à Fundação Municipal de Casimiro de Abreu, numa visita capitaneada por uma das principais pesquisadoras do tema, a geógrafa e gastróloga Amanda Brasil, idealizadora do projeto PANClândia, no Instagram. “Vou mostrar um pouquinho do potencial alimentício que já existe aqui, tanto espontâneo quanto cultivado”, explica Amanda. E ela se refere a uma diversidade que impressiona. Desde as PANCs mais conhecidas, como capim-limão, taioba e ora-pro-nóbis, até as folhas de chaya, que, refogadas, mais parecem uma deliciosa couve; o fruto da cafeirana, que pode fazer as vezes do molho de tomate; as sementes da moringa oleífera, que parecem pipoca; e a Celosia argentea, que lembra o espinafre.


E isso sem falar nas flores comestíveis, como a azulzinha Clitoria ternatea, que é um corante natural muito usado em coquetelaria, dando cor a drinques sem qualquer atributo artificial; a Celosia cristata, que também tem potencial tintório (corante) e, empanada e frita, remete ao frango; a flor do manjericão, que pode ser salpicado sobre a salada ou ser deixada em infusão no azeite, conferindo sabor e aroma; e as tão comuns ixoras amarelas e vermelhas, que enfeitam jardins, mas podem parar no prato. É como diz Amanda: “As PANCs estão presentes até nos restaurantes renomados. Chefs do mundo todo estão se utilizando dessas plantas e flores comestíveis, que são cada vez mais encontradas nos cardápios por aí”.

Amanda Brasil mostra algumas PANCs.

 

JOVENS DESCOBREM AS PANCS

Mas o projeto desenvolvido no município vai além da experimentação gastronômica, tendo caráter socioeducativo. Na Fundação Municipal de Casimiro de Abreu, iniciativas como o Paisagista Mirim e o Jovem Agricultor Orgânico reúnem 60 jovens, de 14 a 17 anos, da rede pública de ensino. “Eles aprendem práticas de agricultura orgânica e paisagismo no contraturno escolar, e ainda recebem um apoio financeiro de um terço do salário mínimo”, explica a bióloga Jaqueline Sadi. Segundo ela, o aprendizado sobre as PANCs também resgata hábitos alimentares antigos e fortalece a relação com a terra. “Eles voltam a ter contato com alimentos que, muitas vezes, fizeram parte da alimentação dos pais e foram esquecidos”, conta Jaqueline.

A iniciativa também tem um papel estratégico para o município. De acordo com o prefeito Ramon Dias Gidalte, Casimiro de Abreu tem tudo para se destacar nessa área. “Queremos usar a cidade como uma vitrine tecnológica, um laboratório para que outras regiões conheçam esse potencial. Nosso objetivo é que Casimiro seja referência em PANCs no estado do Rio de Janeiro e até no Brasil”, almeja.
Ao incentivar o cultivo e o conhecimento dessas plantas, o projeto também aponta para soluções sustentáveis e acessíveis em um cenário de insegurança alimentar. Afinal, muitas dessas espécies são rústicas, de fácil cultivo e altamente nutritivas. Mas um ponto importante é o preparo. Algumas plantas exigem cuidados específicos antes do consumo. “A taioba, por exemplo, precisa ser cozida. Já a ora-pro-nóbis pode ser consumida crua quando as folhas são mais novas”, explica Jaqueline, destacando a importância da informação para o uso seguro.

SERÁ QUE SÃO
MESMO GOSTOSAS?

Fim da visita, hora da degustação. E é nesse momento que teoria e prática se encontram. Amanda conduz a equipe até o espaço culinário da fundação e transforma o aprendizado em experiência sensorial. No cardápio, ela prepara uma surpreendente caponata de mangará. Sabe o que é isso? É o umbigo da bananeira (também chamado de coração), que normalmente é descartado após a retirada do cacho. “Não só de banana madura vive uma bananeira”, brinca Amanda, enquanto prepara o mangará picadinho junto com azeite, alho, cebola e pimentões (verde, amarelo e vermelho). O aroma é delicioso e o sabor melhor ainda, ao comermos junto com torradas.

Para finalizar, a sobremesa: geleia de pétalas de rosa com morango, harmonizada com queijo brie; bolo de capim-limão finalizado com flores comestíveis; e docinhos de morango servidos dentro de flores, substituindo as tradicionais forminhas. “Aqui, a forminha é comestível, não vai para o lixo”, diz Amanda.
Parece um mundo novo para você? Não se assuste. No site da Pesagro (rj.gov.br/pesagro/node/730), você pode baixar um e-book supercompleto, no qual aprenderá mais sobre as PANCs e as formas de prepará-las em casa. Aproveite e bom apetite!

Paulo Renato Marques é presidente da Pesagro-Rio, engenheiro e cientista político com MBA em marketing pela COPPEAD

 

 

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