Cultura

Centenário do Palácio Tiradentes

PALÁCIO TIRADENTES
100 ANOS
ENTRE LEIS E MEMÓRIAS

QUEM PASSA PELA MOVIMENTADA RUA PRIMEIRO DE MARÇO, NO CENTRO DO RIO, ENCANTA-SE COM A ESCADARIA LADEADA POR RAMPAS, DE ONDE SE IMPÕE, EM BRONZE E GRANITO, A ESTÁTUA DE TIRADENTES. O PALÁCIO – QUE LEVA O NOME DO INCONFIDENTE MINEIRO – COMPLETA ESTE ANO SEU CENTENÁRIO E SE CONSAGRA COMO UM MARCO DA ARQUITETURA ECLÉTICA BRASILEIRA, COM FORTE INFLUÊNCIA CLÁSSICA.

Sob um imponente vitral simbolizando a história do Brasil, desde o seu Descobrimento até a Proclamação da República, está o plenário Barbosa Lima Sobrinho, sede histórica das atividades da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), localizado no Palácio Tiradentes – um dos maiores símbolos da vida política brasileira. O local reúne, em sua trajetória, capítulos que vão da colônia à contemporaneidade, convidando o visitante a percorrer os caminhos em que o país foi, e ainda é, construído. E 2026 é um ano muito emblemático para este endereço histórico. “Completamentos 100 anos de Palácio e fizemos uma série de programações ao longo do ano, com visita teatralizada, exposições tempórias e espaços abertos ao público. Então, é um ano muito especial”, celebra Fernanda Figueiredo, diretora de cultura do Palácio Tiradentes.
Onde hoje ele se encontra, no século XVII era um outro prédio, em que funcionava a sede dos primeiros vereadores da cidade. O dinheiro público ficava guardado em um cofre, conhecido como “burra”, aberto apenas com três chaves, cada uma sob responsabilidade de um vereador. Mas é no subsolo que reside um dos episódios mais marcantes do Brasil colonial: nele, ficava a Cadeia Velha, onde ficou preso, por três dias, o alferes Joaquim José da Silva Xavier. Símbolo da Inconfidência Mineira, Tiradentes saiu de lá rumo à sua execução, em 21 de abril de 1792.

PALÁCIO INSPIRADO
NA EUROPA

Já em 1922, a antiga cadeia se encontrava em estado precário e foi demolida para dar lugar a uma nova construção monumental. Inspirado no Grand Palais, de Paris, o projeto arquitetônico, assinado por Archimedes Memória e Francisco Couchet, deu origem ao edifício atual. Inaugurado em 6 de maio de 1926, o Palácio Tiradentes passou a sediar a Câmara dos Deputados. Durante mais de três décadas, foi cenário de momentos decisivos da política nacional, recebendo presidentes como Washington Luís e Juscelino Kubitschek.

Nem sempre, porém, o espaço foi ocupado por debates democráticos. Durante o Estado Novo (1937-1945), o então presidente Getúlio Vargas fechou o Parlamento, e o prédio passou a abrigar o Ministério da Justiça e o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) – órgão responsável pela censura no regime. Com a transferência da capital federal para Brasília em 1960, o Palácio ganhou nova função: sediar a Assembleia Legislativa da Guanabara – anos depois, com a fusão dos estados, torna-se “do Rio de Janeiro”.


Em 2021, a Alerj ganha nova sede no Edifício Lúcio Costa, também no Centro do Rio, marcando um novo tempo no Parlamento. Atualmente, o Palácio Tiradentes ainda é palco de sessões solenes, posses, eventos oficiais e homenagens, como a entrega da Medalha Tiradentes. “Aqui, a gente tem a história do Brasil acontecendo ao vivo e a cores, porque até hoje esse plenário é utilizado. E agora o povo pode assistir a tudo pelo YouTube”, conta a historiadora Heloisa Braga, que nos conduziu por um passeio em meio a mobiliário original de 1926, repleto de curiosidades sobre a época, como cinzeiros fixos em cada mesa dos deputados – num tempo em que fumar em ambientes fechados ainda era permitido.

Visitar o Palácio Tiradentes é caminhar por onde decisões moldaram o Brasil, mas também é reconhecer o valor da memória e da democracia. Entre colunas imponentes, esculturas, pinturas e salões históricos, o visitante descobre que aquele não é apenas um marco arquitetônico, é um símbolo vivo da construção do país.

FAÇA UMA VISITA GUIADA
Agende pelo site palaciotiradentes.rj.gov.br/visitaguiada ou pelo e-mail [email protected]. O Palácio Tiradentes funciona de segunda a sexta, das 10 às 17h.

 

Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band

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