ELETRONUCLEAR
Uma visita ao
coração da energia
nuclear brasileira
Você já parou para pensar sobre como a energia nuclear é gerada? Para entender esse processo, a equipe da Manchete visitou a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis (RJ), administrada pela Eletronuclear. Com acesso a áreas restritas das usinas, conhecemos de perto seu funcionamento, os rigorosos sistemas de segurança da operação e a tecnologia responsável por abastecer milhões de brasileiros.
Uma energia limpa, estável e com grande potencial para garantir a segurança energética e a soberania nacional. Esse é o retrato da energia nuclear que, no Brasil, é produzida na Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis (RJ), onde estão instaladas as usinas Angra 1, Angra 2 e Angra 3 – esta última em construção. À frente do complexo está a Eletronuclear, empresa responsável pela geração da energia nuclear no país, que tem a segurança como um dos pilares que orientam todas as suas atividades. Para mostrar como tudo isso acontece na prática, a Revista Manchete Energia esteve no complexo nuclear e acompanhou de perto a operação das usinas.

Criada em 1997 para construir e operar usinas termonucleares, a Eletronuclear, empresa estatal de economia mista, responde hoje por cerca de 2% a 3% da eletricidade consumida no Brasil, que é distribuída aos principais centros do país por meio do Sistema Interligado Nacional (SIN). No estado do Rio de Janeiro, a empresa é responsável por cerca de 45% da energia consumida.
Angra 1 entrou em operação em 1985, com capacidade de 640 megawatts (MW). Já Angra 2 começou a operar em 2001 e conta com capacidade de 1.350 MW. Juntas, elas geram em torno de 15 milhões de megawatts-hora (MWh) por ano, energia suficiente para atender a cerca de 6 milhões de habitantes. Em 2024, a Eletronuclear obteve a renovação da licença de operação da usina Angra 1 por mais 20 anos, garantindo o seu funcionamento até dezembro de 2044.
A terceira usina nuclear brasileira terá potência de 1.405 megawatts, sendo capaz de produzir cerca de 12 milhões de MWh anuais. Com a conclusão de Angra 3, a Central Nuclear de Angra passará a gerar o equivalente a 70% do consumo de energia do estado do Rio de Janeiro. Atualmente, 65% das obras estão concluídas e, segundo Luciano Calixto, superintendente de coordenação do complexo de Angra, o avanço do empreendimento depende da autorização do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). “Já existe todo um estudo de financiamento do BNDES. Então, essa parte está resolvida. É questão da autorização do governo e dos nossos parceiros para seguirmos com a obra”, afirma.
Compromisso
com a segurança
A produção energética das usinas funciona 24 horas por dia e conta com um rigoroso sistema de segurança. Medidores de radiação estão espalhados por todo o ambiente para reduzir ao máximo o risco de contaminação. Na sala de controle, acontece o monitoramento de toda a usina. “Daqui, a gente vê a posição das barras de controle do reator e a instrumentação de fluxo de potência”, exemplifica Fabiano Portugal, superintendente de Angra 2.
No coração da usina, está o reator nuclear, envolto por uma esfera de contenção – uma estrutura projetada para impedir a liberação de material radioativo em caso de acidente. “É como se o reator fosse uma panela de pressão e, em torno dessa panela, você tivesse uma proteção. Em caso de vazamento, o conteúdo dessa panela não atingiria o ambiente externo. Ele ficaria ali dentro dessa estrutura”, ilustra Portugal.
Monitoramento contínuo, constante modernização e o cumprimento de rígidos protocolos tornam a atuação das usinas nucleares altamente seguras, como defende o superintendente de Angra 2. Segundo ele, o risco só existe quando não há controle. “O que não podemos é negligenciar a energia nuclear, tratá-la como se ela fosse uma energia convencional”, afirma. De acordo com dados da Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), a probabilidade estatística de um grave acidente é de 10-8, o que representa, por ano, uma chance em 100 milhões. “É mais fácil ganhar na loteria do que ter um acidente nuclear”, alega Portugal.

As usinas também contam com sistemas preparados para responder a situações extremas, como incêndios, desastres e fenômenos da natureza. Um dos principais recursos é a sala de controle de emergência, instalada em um edifício projetado para resistir a terremotos. A partir dali, é possível assumir o comando da usina e realizar o desligamento seguro e planejado do reator.
Além disso, os funcionários passam por treinamentos para atuar em eventuais ocorrências. Em Angra 1, caso seja necessário evacuar a usina, é emitido primeiro um sinal de alerta e, em seguida, outro sinal para que as pessoas fiquem atentas às instruções, como ressalta o chefe do departamento de operação da usina, Otávio Scarpa: “O alerta é um sinal contínuo, que todos já reconhecem. Preparada a evacuação, é acionado um sinal intermitente e, a partir daí, as pessoas se dirigem para o ponto de reunião e seguem para deixar o local. Estamos preparados para uma eventual necessidade de evacuação para proteger os nossos funcionários”.
Processo de geração de energia
A produção da energia nuclear envolve um sistema complexo. Dentro do reator, a fissão dos átomos de urânio aquece a água a cerca de 325 graus. Como ela é mantida sob alta pressão, não entra em ebulição. Em seguida, esse calor é transferido para um segundo circuito, em que a água se transforma em vapor e movimenta a turbina para gerar energia.
O Brasil possui a sexta maior reserva de urânio do mundo. Antes de ser utilizado na produção de energia nuclear, esse metal passa por uma série de etapas até se transformar em combustível, como explica Calixto. “Depois de extraído, o minério de urânio passa por um processo físico para aumentar a quantidade de urânio 235, que é o que precisamos no combustível. Esse é o chamado enriquecimento de urânio”, detalha. Na etapa seguinte, o material é transformado em pastilhas, que são inseridas em varetas. Ao todo, 236 varetas formam um elemento combustível, que é utilizado no reator para a geração de energia.
Materiais que possam ter sofrido algum tipo de contaminação durante a operação das usinas são acondicionados em tambores e destinados a uma área específica para rejeitos radioativos, seguindo rigorosos protocolos de segurança. “Todos os rejeitos gerados ficam hermeticamente fechados, bem armazenados e sob todo o controle exigido por normas nacionais e internacionais de segurança”, destaca John Wagner, chefe do departamento de proteção radiológica.
A equipe da Manchete teve acesso a áreas restritas das usinas e acompanhou de perto o passo a passo de como elas funcionam, assim como os sistemas que garantem a segurança de toda a operação. Para conhecer esse percurso em detalhes e ver como a energia nuclear é produzida no Brasil, aponte a câmera do celular para o QR Code e assista ao tour completo.

Cuidados com o meio ambiente
A reponsabilidade socioambiental é outra prioridade da Eletronuclear. Para proteger a fauna da região, a empresa mantém um Centro de Reabilitação de Animais Silvestres, que, licenciado junto a órgãos fiscalizadores, recebe e trata animais debilitados. Ela também mantém o Programa Tartaruga Viva, em parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), que resgata, reabilita e devolve tartarugas marinhas ao oceano.
Por meio do Laboratório de Monitoração Ambiental, a empresa executa um amplo programa de acompanhamento que abrange desde o centro da cidade de Paraty até o centro de Angra dos Reis, analisando a presença de radionuclídeos e verificando se existe atividade radiológica decorrente das operações das usinas. “Nós pegamos amostras de ar, de água do mar, de água de rios, de solo e de pasto. Tudo isso para garantir que as usinas estão operando com segurança”, ressalta a bióloga Gabrielle Pierangeli.
Na Praia do Laboratório, a água captada para o resfriamento das usinas é devolvida ao mar alguns graus mais quente. Isso faz com que ela fique bem morninha, tornando o local bastante procurado por moradores, turistas e ilustres visitantes: as tartarugas marinhas. Vale mencionar que a água liberada no oceano não entra em contato com qualquer tipo de material radioativo, como garante Gabrielle. “Esse é um sistema totalmente independente”, assegura. De toda maneira, essa água também é analisada de forma periódica, reforçando o compromisso da Eletronuclear com a preservação do meio ambiente.
ANGRA 2:
Entre as maiores do mundo
A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) reconheceu o desempenho da usina brasileira e a colocou no seleto grupo das unidades de referência, localizadas na China e nos Estados Unidos. Entre aproximadamente 420 reatores nucleares em operação no mundo, Angra 2 está entre as seis maiores geradoras de energia elétrica, com o recorde histórico de geração de 11.212 GWh.
RANKING MUNDIAL DE GERAÇÃO NUCLEAR EM 2025
(ELECTRICITY SUPPLIEDY – FONTE: AIEA)
Posição Usina País Geração líquida (GWh)
1 – Taishan – 2 CHINA 12.235
2 – Grand Gulf – 1 EUA 11.766
3 – Palo Verde – 2 EUA 11.665
4 – South Texas – 1 EUA 11.549
5 – Peach Bottom – 2 EUA 11.469
6 – ANGRA – 2 BRASIL 11.212
ASPAS 01:
“Já existe todo um estudo de financiamento do BNDES. Então, essa parte está resolvida. É questão da autorização do governo e dos nossos parceiros para seguirmos com a obra de Angra 3.”
LUCIANO CALIXTO, superintendente de coordenação do complexo de Angra
ASPAS 02:
“Dados mostram que é mais fácil ganhar na loteria do que ter um acidente nuclear. O que não podemos é negligenciar a energia nuclear, tratá-la como uma energia convencional.”
FABIANO PORTUGAL, superintendente de Angra 2
ASPAS 03:
“Há treinamentos para atuação em possíveis ocorrências. Estamos preparados para uma eventual necessidade de evacuação para proteger os nossos funcionários.”
OTÁVIO SCARPA, chefe do departamento de operação da usina
LEGENDA 01:
Administrada pela Eletronuclear, a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, em Angra dos Reis, abriga as usinas Angra 1, Angra 2 e Angra 3 – esta última em construção
LEGENDA 02:
Rejeitos gerados ficam completamente fechados e bem armazenados de acordo com rigorosos protocolos de segurança, como destaca John Wagner, à esquerda. Acima, o Observatório Nuclear, aberto à visitação gratuita
LEGENDA 03:
Acima, a bióloga Gabrielle Pierangeli trabalha no monitoramento ambiental das usinas. Na Praia do Laboratório, à direita, a água captada para o resfriamento das usinas não entra em contato com material radioativo e é devolvida ao mar alguns graus mais quente, atraindo turistas. Abaixo, nossa editora Mariana Leão visita as instalações da usina






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