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Energia: muito mais que combustível

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Energia
MUITO MAIS QUE COMBUSTÍVEL

Em um texto reflexivo, Francisco Victer, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), traça um panorama de como era a nossa vida sem a eletricidade, passando pela evolução através dos tempos e antevendo o que está por vir para o nosso país.

Se um brasileiro viajasse no tempo e fosse parar em 1900, o que ele mais estranharia? Não seriam as roupas. Seria algo mais fundo, percebido logo na primeira noite: a escuridão. Anoiteceu, acabou o dia, e a cidade inteira se recolhe à luz fraca de lampiões de gás e velas de sebo. Não há geladeira, então a carne é salgada e o leite precisa ser consumido no dia, comprado do leiteiro que passa de porta em porta. Não há chuveiro elétrico, e o banho quente exige esquentar água no fogão a lenha, balde por balde. Não há ventilador no verão carioca, não há ferro de passar que não vá ao fogo, não há bonde elétrico, elevador, rádio. E não há carros: qualquer distância se vence a pé, a cavalo ou em carroças e bondes puxados por burros, de modo que uma viagem do Rio a São Paulo é uma expedição de dias, e não uma ponte aérea de 50 minutos. O que separa aquele mundo do nosso, mais do que qualquer outra coisa, é a energia. Eletricidade correndo em fios e combustível queimando em motores são as duas invenções que reorganizaram a vida cotidiana por completo, e o setor que cuida delas vive no Brasil um momento que merece ser contado.

Francisco Victer atua no Gabinete da Presidência na Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e é doutorando e mestre em Economia e Finanças, engenheiro de produção e pesquisador associado da FGV Energia

Aliás, quando se trata de Brasil, muito se subestima o peso desse setor na economia. Quando se fala em exportação brasileira, a imagem que vem à cabeça é de soja ou minério. Essa fotografia mudou. Em 2024, o petróleo bruto assumiu o posto de principal produto da pauta exportadora do país e, em 2025, confirmou a liderança pelo segundo ano consecutivo, com vendas externas de cerca de US$ 44,6 bilhões, à frente da soja e do minério de ferro. O motor dessa virada tem nome: o pré-sal, camada de reservatórios gigantes a centenas de quilômetros da costa, sob águas profundas, de onde sai boa parte dos mais de 5 milhões de barris equivalentes que o Brasil produz por dia e que colocam o país entre os maiores produtores do mundo.

Para o Rio de Janeiro, essa história é ainda mais radical, porque é das águas fluminenses, nas bacias de Campos e de Santos, que saem quase 90% de todo o petróleo e gás extraídos no país. Olhando apenas para os impactos diretos, a indústria extrativa responde por mais de metade do PIB industrial do estado, o que significa que o petróleo, sozinho, corresponde a algo em torno de um quinto de tudo o que o Rio produz. Na arrecadação, os royalties e as participações especiais pagos pelas petroleiras injetam dezenas de bilhões de reais por ano nos cofres do estado e de seus municípios, valor que já alcançou a casa dos R$ 50 bilhões em anos recentes.

Quando o assunto é energia, porém, o petróleo é só parte da conversa. O conjunto das fontes que abastecem um país é o que se chama de “matriz energética”, e ela abrange tudo: a gasolina dos carros, o diesel dos caminhões, o gás dos fogões e das indústrias, o bagaço de cana das usinas, a eletricidade. A matriz elétrica considera apenas a parcela que vira eletricidade e as fontes que a geram. A relação entre as duas é a mesma que existe entre o patrimônio completo de um investidor e sua posição em ações: um recorte dentro do todo, e, tanto na energia quanto nas finanças, é a composição que define o risco. Concentrar demais numa única fonte deixa o país exposto quando ela falta ou encarece, como o mundo sentiu nos choques do petróleo dos anos 1970 e o Brasil, no racionamento de 2001, quando a seca esvaziou os reservatórios de um sistema quase inteiramente hidrelétrico. É a partir dessa fotografia que se planeja o que construir nas décadas seguintes.

Nosso país como referência


O setor de energia sempre funcionou como uma grande fronteira de engenharia do país. Itaipu, inaugurada nos anos 1980 na fronteira com o Paraguai, foi durante décadas a maior usina hidrelétrica do mundo e, mesmo depois de superada em capacidade instalada pela chinesa Três Gargantas (que visitou o Brasil para aprender a construir), seguiu batendo recordes mundiais de geração anual. Para erguê-la, foi preciso desviar o Rio Paraná, mover volumes de concreto comparáveis aos das maiores obras da humanidade e formar gerações inteiras de engenheiros brasileiros. Diversas obras de hidrelétricas brasileiras foram recordes mundiais.

No setor nuclear, Angra 1 e 2 foram referências. No mar, a façanha se repetiu: extrair petróleo a mais de dois mil metros de profundidade, atravessando ainda quilômetros de rocha e sal, era considerado inviável até a Petrobras transformar o Brasil na referência mundial em produção em águas profundas, conquista reconhecida mais de uma vez pelos principais prêmios internacionais de tecnologia offshore. E há uma proeza silenciosa que costura o território inteiro: o Sistema Interligado Nacional, que conecta o país de Roraima ao Rio Grande do Sul com mais de 192 mil quilômetros de linhas de alta tensão. O passeio completo do bondinho do Pão de Açúcar, da Praia Vermelha ao topo, percorre cerca de 1,4 quilômetro de cabos suspensos, de modo que seriam necessários uns 137 mil trajetos do bondinho enfileirados para cobrir a extensão das nossas linhas, o bastante para dar quase cinco voltas ao redor da Terra.

Na última década, o capítulo da energia que se escreveu foi o da solar e da eólica, cujos custos despencaram nos últimos anos, e que se multiplicaram pelo país. Só em 2025, a geração solar cresceu quase 25%, e vento e sol juntos já respondem por parcela expressiva da nossa eletricidade. A notícia é excelente, mas traz um porém técnico que muda tudo com relação à operação. As hidrelétricas e termelétricas construídas no século passado são o que os engenheiros chamam de despacháveis: ligam, desligam e modulam a geração conforme a necessidade, como uma torneira que abre e fecha. Já o sol e o vento, evidentemente, não aceitam ordens. Geram quando querem, não necessariamente quando precisamos, e aí esbarramos numa verdade física incômoda: o elétron não fica guardado no fio. A eletricidade precisa ser consumida no exato instante em que é gerada, e o sistema inteiro é uma balança que se equilibra segundo a segundo. Falta de energia apaga. E, sim, o excesso de energia apaga a rede também.

A saída para esse quebra-cabeça é o armazenamento. Grandes baterias químicas podem absorver a sobra de geração do meio-dia ensolarado e devolvê-la à rede no fim da tarde, quando todo mundo chega em casa e liga o chuveiro. Existem até baterias d’água, as chamadas usinas reversíveis, que bombeiam água morro acima quando a energia sobra e a deixam descer gerando eletricidade quando falta. O Brasil está prestes a dar o passo inaugural nessa direção: o primeiro leilão de sistemas de armazenamento em baterias da história do país acontece em dezembro de 2026, em duas etapas, nos dias 2 e 4, com contratos de 15 anos e início de operação previsto para 2028.

Há um padrão nessa trajetória: o setor energético brasileiro nunca resolveu um problema sem, no processo, desenvolver algo original. Domar rios gigantes ensinou engenharia de barragens, buscar petróleo onde ninguém alcançava formou uma escola de tecnologia submarina e costurar um continente com linhas de transmissão produziu uma das maiores tradições de engenharia elétrica no mundo. O desafio da vez é guardar sol e vento em escala industrial, mas nada indica que será o último. No fim das contas, aquele viajante de 1900 talvez seja a melhor medida de como esse setor se transforma e de como o país se transforma com ele. Quem viajar no tempo daqui a 150 anos é que vai nos contar o resultado.

Francisco Victer atua no Gabinete da Presidência na Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e é doutorando e mestre em Economia e Finanças, engenheiro de produção e pesquisador associado da FGV Energia

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