ENTREVISTA
Bento Albuquerque
O Brasil na nova era nuclear
O ex-ministro de Minas e Energia fala sobre a retomada da energia nuclear no mundo, o avanço dos microrreatores, a necessidade de modernização regulatória e o papel que o nosso país pode desempenhar nesse novo ciclo energético.
Almirante de Esquadra da reserva da Marinha do Brasil, Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Júnior – mais conhecido como Bento Albuquerque – construiu uma trajetória de quase cinco décadas dedicadas à defesa nacional, à ciência e tecnologia e ao setor energético. Ao longo da carreira militar, ocupou posições estratégicas, como ser diretor-geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnológico da Marinha. Entre 2019 e 2022, esteve à frente do Ministério de Minas e Energia, período marcado pela atração de investimentos e realização de leilões nos setores de energia elétrica, petróleo, gás e mineração. Atualmente, atua como consultor e liderança na área nuclear da Diamante Energia, sendo um dos principais defensores do desenvolvimento de microrreatores nucleares destinados ao fornecimento de energia limpa, segura e confiável. Nesta entrevista, ele analisa o novo ciclo global da energia nuclear e as oportunidades que se abrem para o Brasil nesse cenário.
A energia nuclear voltou a ganhar protagonismo na agenda internacional. O que explica esse movimento?
O mundo vive uma transformação profunda no setor energético. Estamos assistindo ao crescimento acelerado da demanda por eletricidade impulsionado pela expansão da inteligência artificial, dos data centers, da digitalização da economia, da eletrificação industrial e da mobilidade elétrica. Ao mesmo tempo, há uma pressão crescente pela descarbonização e pela segurança energética. As crises geopolíticas recentes também mostraram a vulnerabilidade de países excessivamente dependentes de combustíveis fósseis ou de fontes intermitentes sem armazenamento adequado. Nesse cenário, a energia nuclear passou a ser vista não apenas como uma fonte limpa, mas como estratégica para garantir fornecimento contínuo, previsível e com baixa emissão de carbono.
Diante dos desafios atuais, quais são os principais diferenciais da energia nuclear?
Ela oferece geração contínua, independente das condições climáticas, possui baixíssima emissão de carbono, elevada densidade energética e grande capacidade de garantir estabilidade aos sistemas elétricos. Além disso, é uma fonte capaz de atender a cargas críticas e atividades que demandam grande quantidade de energia. Por isso, diversos países voltaram a ampliar seus programas nucleares ou revisaram políticas que previam a redução dessa matriz.
Acredita que estamos entrando em um novo ciclo global da energia nuclear?
Sem dúvida. Os investimentos globais já ultrapassam US$ 60 bilhões por ano e as projeções indicam que esse valor poderá dobrar na próxima década. Paralelamente, há uma forte expansão dos investimentos em pequenos reatores modulares, os chamados SMRs, e nos microrreatores nucleares. Estamos diante de uma nova etapa da energia nuclear, associada não apenas à transição energética, mas à reorganização da infraestrutura econômica e industrial do século XXI.
Esse crescimento exigirá novos modelos de investimento?
Sim. O desenvolvimento da nova economia nuclear demandará recursos significativos em mineração, combustível, engenharia, infraestrutura energética, fabricação de equipamentos e inovação tecnológica. Historicamente, a atividade nuclear esteve concentrada sob controle estatal, o que foi fundamental para a consolidação das capacidades nacionais. Mas a expansão desse novo ciclo exigirá uma participação cada vez maior do capital privado em áreas como infraestrutura, tecnologia, cadeia de suprimentos e desenvolvimento industrial.
Qual é o papel da iniciativa privada nesse processo?
Ela amplia a capacidade de investimento, acelera a inovação, aumenta a eficiência industrial e reduz a dependência de recursos públicos. Diversos países já vêm ajustando seus marcos regulatórios para permitir maior atuação do setor privado, sem abrir mão do controle estatal sobre atividades estratégicas. O Brasil também possui uma oportunidade importante de construir um modelo baseado na cooperação entre governo, empresas, centros tecnológicos e investidores.
É nesse contexto que surge a Núcleo Brasil Energia Participações (NBEPar)?
Exatamente. A NBEPar foi criada como uma holding voltada para consolidar investimentos privados em áreas estratégicas da economia nuclear brasileira. Nosso objetivo é conectar tecnologia, capital, infraestrutura energética e desenvolvimento industrial, contribuindo para posicionar o Brasil de forma mais competitiva nesse novo cenário global.
Quais são as principais frentes de atuação da empresa?
Mineração de minerais críticos e estratégicos, desenvolvimento tecnológico, aplicações nucleares industriais, geração nuclear distribuída e projetos relacionados aos microrreatores. Também estamos olhando para áreas de grande potencial, como a irradiação de alimentos, que pode reduzir perdas, aumentar a segurança sanitária e fortalecer a competitividade do agronegócio brasileiro.
Os microrreatores nucleares aparecem cada vez mais nas discussões sobre o futuro da energia. Por quê?
Porque eles representam uma mudança de paradigma. São sistemas menores, modulares, mais flexíveis e capazes de atender a demandas que antes não justificavam economicamente uma usina nuclear convencional. Eles podem ser utilizados em data centers, mineração, plataformas offshore, municípios isolados, instalações militares e diversos setores industriais. Trata-se de uma tecnologia com enorme potencial para ampliar o acesso à energia firme e de baixa emissão de carbono.
O marco regulatório brasileiro está preparado para essa nova realidade?
O Brasil possui uma estrutura regulatória sólida e reconhecida internacionalmente pelo rigor técnico e pelo compromisso com a segurança. No entanto, o surgimento de novas tecnologias e modelos de negócio exige aperfeiçoamentos. Para atrair investimentos, é fundamental oferecer segurança jurídica, previsibilidade regulatória, estabilidade contratual e regras claras para a participação privada.
Qual é o principal desafio para que o Brasil aproveite essa oportunidade?
O Brasil reúne ativos extremamente valiosos: reservas minerais, conhecimento tecnológico, recursos humanos qualificados e uma base institucional consolidada. O desafio agora é criar um ambiente regulatório moderno que permita transformar esse potencial em investimentos, inovação e competitividade. Se conseguirmos avançar nessa direção, o país terá condições de ocupar uma posição relevante no novo ciclo global da energia nuclear.






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