HOSPEDAGEM COM EXPERIÊNCIA E HISTÓRIA
ENTRE O REQUINTE DA HOTELARIA CONTEMPORÂNEA E AS MEMÓRIAS DO BRASIL COLONIAL, A FAZENDA SÃO LUIZ DA BOA SORTE PROPÕE UM TURISMO DE EXPERIÊNCIA. EM VASSOURAS, O CASARÃO DO SÉCULO XIX UNE LUXO, CULTURA E HOSPITALIDADE EM UMA IMERSÃO HISTÓRICA NO VALE DO CAFÉ.
Respirar o ar puro, sentir o cheiro do café e da mata e, ao mesmo tempo, estar em um ambiente sofisticado, com requinte imperial, boa gastronomia e toda a infraestrutura. Assim é a Fazenda São Luiz da Boa Sorte, localizada em Vassouras, no Centro-Sul fluminense. O casarão histórico tornou-se um hotel boutique ambientado na era das grandes fazendas do Ciclo do Café. Conhecer este lugar é viver uma experiência imersiva na nossa cultura colonial, sem abrir mão do luxo e da boa hospitalidade.

A fazenda integra um importante conjunto arquitetônico do estado do Rio de Janeiro do século XIX. Tombada pelo patrimônio cultural, já recebeu membros da realeza durante o Segundo Império e hoje abre suas portas para hóspedes em busca de exclusividade, cultura e conforto. Em todos os detalhes, há o toque zeloso da anfitriã Liliana Rodriguez, a Lili, como é conhecida.

Mas, para chegar à concepção atual do hotel, ela e o marido, Nestor Rocha, tiveram que enfrentar um grande desafio. Eles adquiriram a fazenda em 2004, em situação precária, após ter sido saqueada. “Só para reconstituir essa fazenda, nós levamos nove anos, mas conseguimos recriar uma história”, celebra Lili, declarando seu amor ao marido. O casal contou com renomados arquitetos, que promoveram eventos, como o Casa Real – um encontro da arte do século XIX, com peças de antiquários, que acabaram fazendo parte da decoração permanente do casarão.
RELÍQUIAS CURIOSAS
O ranger do piso de tábua, o som dos passos na escada, as pinturas que retratam os costumes da época e os objetos decorativos fazem parte da ambientação e despertam a curiosidade dos visitantes. Na sala nobre, onde antigamente se reuniam os homens para conversar e fumar, encontramos as cuspideiras (peças em porcelana, posicionadas no chão, ao lado de cada sofá).
Na sala de jantar, há uma mesa posta, montada ao estilo aristocrático, com um objeto retangular posicionado na cabeceira: o grande saleiro. O sal era uma mercadoria valiosa, e o tamanho do saleiro e a sua posição à mesa indicavam a hierarquia social. No banheiro comum do casarão, o hóspede se depara com um vaso sanitário de louça inglesa, que até intimida para o uso, de tão chique. E ainda há uma banqueta de madeira, em formato ergonômico, que, nos dias de hoje, ninguém imagina a sua utilidade. Era uma cadeira parideira, para auxiliar as mulheres no parto. Conhecer os cômodos da fazenda é como imergir na história e se sentir em um cenário de novela de época, em que os atores são os próprios visitantes.
O impacto de visitar o século XIX é ainda maior quando entramos nas suítes – no total, são 35 (13 na sede e 22 na vila hípica, todas no estilo colonial brasileiro). Cada uma tem a sua decoração específica, com mobiliário e adornos antigos, mas também com amenities, camas grandes e todo o conforto da hotelaria de luxo. Lili abre as portas da suíte do Conde d’Eu e, neste momento, preciso de uma pausa para absorver tamanha beleza. O nome foi dado em homenagem ao marido da princesa Isabel, que teria passado pela fazenda à época. Justamente ela, que assinou a Lei Áurea, declarando extinta a escravidão no Brasil. E sobre esse capítulo triste da nossa história, Lili criou o Memorial do Negro Escravizado, um espaço de reflexão dedicado à luta e à resistência dessas pessoas submetidas a condições brutais. Nas paredes de uma sala de memórias, livros e quadros com desenhos de Debret retratam o dia a dia do trabalho forçado. Rotina também representada em outras partes da fazenda, exposta nas obras de Rugendas e nas pinturas em grande escala de Dominique Jardy.
Com sua veia de jornalista e escritora, Lili conseguiu traduzir com sentimento esse contexto da nossa história. Ela, que foi a primeira âncora do Jornal da Globo e comandou o programa Sem Censura, deixa seu legado também na preservação da história do Brasil. Lili conta que se sentiu no dever de prestar essa homenagem aos escravizados, e essa missão lhe trouxe um grande propósito: “Muitas vezes, me perguntei o que estava fazendo aqui nessa fazenda. Hoje, sei que foi para entender como viviam as pessoas escravizadas, a mulher do século XIX e a história do Ciclo do Café”.
CAFÉ COM CULTURA

Entre o aroma marcante que atravessa séculos, o progresso e a geração de riquezas na Região Sudeste, está o café. A Fazenda São Luiz da Boa Sorte oferece uma visita guiada passando pelo Museu do Café – o primeiro do estado do Rio. O historiador Marcelo Müller conta a trajetória desse produto, que foi considerado o maior suporte financeiro da monarquia no Brasil: “Havia cerca de 600 fazendas nessa região, mas as grandes produtoras estavam em torno de Vassouras, onde o comércio era muito forte. Com o auge do Ciclo do Café, Vassouras passa a ter um poder político e econômico muito grande junto à monarquia de Dom Pedro II. Em 1846, 41% do café tomado no mundo saía dessa região”.
Nossa expedição cafeeira termina com um passeio a cavalo pelo lindo cafezal da fazenda, aliás, esse é um dos vários atrativos dessa hospedagem. E em meio à natureza preservada, o silêncio do campo e o verde das montanhas, os visitantes também podem aproveitar uma praia de água doce, para simplesmente relaxar ou optar por praticar esportes, como stand up paddle e tirolesa sobre a água. Já em dias mais frios, a piscina aquecida é um dos espaços mais procurados pelos hóspedes.

A propriedade ainda oferece amplos espaços para caminhadas, passeios contemplativos e atividades em meio à vegetação. Os jardins bem cuidados e os decks ao redor do lago inspiram os amantes do paisagismo. Já as crianças se sentem livres para brincar e viver uma experiência lúdica e encantadora com a vida rural na fazendinha, onde podem amamentar o porquinho, interagir com os animais e participar de uma recreação ativa. A estadia é ideal para famílias, casais e grupos que desejam desacelerar, mas também cumpre seu papel no sentido de promover conexões e aprendizados nos eventos corporativos. Muitas empresas organizam festas temáticas e promovem workshops, team building ou confraternizações. E vale destacar: de junho a setembro, a fazenda ainda oferece uma belíssima festa junina. “É o grande arraiá na São Luiz”, convida Lili.
Na gastronomia, os pratos da fazenda e da boa culinária brasileira encantam à primeira vista. Em cada receita, a tradição e o afeto se encontram para transformar as refeições em experiências memoráveis. Inspirados pela riqueza cultural do Vale do Café, os pratos são preparados com ingredientes frescos e selecionados, valorizando receitas que atravessam gerações e preservam o sabor da cozinha afetiva do interior fluminense. O aroma que exala do fogão à lenha é parte da vivência no casarão histórico, onde passado, cultura e hospitalidade se encontram à mesa.
A experiência se completa com ambientes acolhedores que valorizam o ritmo tranquilo da vida no interior. Entre um mergulho na piscina, um café apreciado sem pressa e o pôr do sol sobre as montanhas do Vale do Café, a Fazenda São Luiz da Boa Sorte proporciona aos visitantes a oportunidade de viver o luxo da simplicidade, cercado por história, cultura e hospitalidade.
Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band






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