Museu Vassouras
UM PRESENTE PARA O VALE DO CAFÉ

INSTALADO EM UM IMPONENTE CASARÃO DO SÉCULO XIX, O MUSEU SURGE – DESDE DEZEMBRO DO ANO PASSDO – COMO UM DOS MAIS IMPORTANTES EQUIPAMENTOS CULTURAIS DO INTERIOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. COM ENTRADA GRATUITA, REÚNE A RICA HISTÓRIA CAFEEIRA DO SUL FLUMINENSE, INCLUINDO EXPOSIÇÃO DE OBRAS CONTEMPORÂNEAS, UM MEMORIAL JUDAICO E JARDINS COM PAISAGISMO DE BURLE MARX.

A 120 km da capital do estado está a Princesinha do Café, como é conhecida a charmosa cidade de Vassouras, localizada no centro-sul do estado. Na Praça Barão do Campo Belo, bem ao lado da Igreja Matriz, foi inaugurado, em dezembro de 2025, o Museu Vassouras – e, somente em seu primeiro mês, recebeu cerca de 7 mil visitantes. O espaço devolveu a vitalidade do casarão histórico, construído por barões, tombado pelo patrimônio público em 1986, que permanece na memória afetiva dos moradores da região.

Ronaldo Cezar Coelho, empresário fundador do Museu Vassouras

O prédio, erguido em 1848, abrigou o primeiro hospital do município, a Santa Casa da Misericórdia, e depois, de 1910 a 2007, o Asilo Barão do Amparo. Mas, ao longo dos anos, sem recursos para obras de conservação, entrou em estado de deterioração, agravado por um incêndio em 2008, que provocou o desabamento parcial de sua estrutura. Em 2017, essa história começou a mudar com a aquisição do imóvel pelo Instituto Vassouras Cultural (IVC), organização mantida por Ronaldo Cezar Coelho – empresário incentivador da cultura e da preservação da história do Vale do Café. “Não existe apenas uma cidade, existe toda uma região, um patrimônio cultural valioso a ser destacado e valorizado, com saberes e sabores da nossa história e de toda essa terra aqui”, disse Ronaldo em seu discurso na cerimônia de inauguração do Museu Vassouras.

Muito além da restauração arquitetônica, a proposta é um mergulho profundo na identidade do Vale do Café, território onde indígenas, africanos escravizados e imigrantes europeus se encontraram. A fachada ainda preserva os traços coloniais, que contrastam com um interior moderno e acolhedor. O museu, com entrada gratuita, tem a missão de difundir a cultura e de resgatar a história de uma região que foi central para a formação econômica, social e cultural do Brasil.

“CHEGANÇA” REÚNE OBRAS VALIOSAS

“Chegança” é uma exposição coletiva composta por mais de 60 artistas, reunindo cerca de 130 obras contemporâneas e de acervo histórico. A mostra reflete a relação da arte com a região do Vale, dando protagonismo aos ritos, às pessoas e à cultura local. “Aqui está a paisagem de antes, bem como os fluxos contínuos do rio e da estrada de ferro, as aparições, a vida falada, cantada, orada por quem aqui está e pelos que já se foram”, descreveu o renomado pesquisador e curador dessa exposição inaugural, Marcelo Campos.

As visitas guiadas apresentam aos visitantes os três núcleos temáticos da exposição: Folias, Vapor e Milagre. Algumas obras de valor histórico, como “Folia do Divino”, de Djanira, e “Meu limão”, de Beatriz Milhazes, fazem parte do eixo Folias, que celebra os cortejos e as festas populares. Em tom mais sóbrio, a estação Vapor se coloca como uma costura entre expressões culturais, viajando pelos trilhos de ferro que ligam o Vale do Café à Central do Brasil. Ao longo desse caminho, ecoam a voz de Clementina de Jesus, a percussão do Jongo da Serrinha de Madureira e o samba do Império Serrano.

No último espaço, o Milagre nasce das águas do Rio Paraíba do Sul – condutor de mitos, crenças e ritos do Vale. A arte se encarrega de contar a história da aparição de Nossa Senhora da Conceição, da lenda do Caboclo d’Água e da promessa de fartura de peixes representada pela instalação “Puxada de Rede”, de Nádia Taquary. “É uma obra também para provocar a conscientização sobre a despoluição do Rio Paraíba do Sul, e quem sabe esse milagre também possa vir a acontecer?”, indaga, em tom reflexivo, Dudu Soares, assistente pedagógico do museu. A exposição “Chegança”, em cartaz até maio de 2026, ainda reserva obras valiosas, como “Figura só”, de 1930, de Tarsila do Amaral.

 

SOLTANDO A CRIATIVIDADE


Oficinas de arte e brincadeiras de criança, como pular corda, soprar catavento e correr no pique-pega, fazem parte de uma proposta recreativa e, ao mesmo tempo, educativa, oferecida gratuitamente pelo museu em programações especiais. O espaço dessas oficinas fica no andar inferior ao da exposição, com acesso também por elevador. A psicóloga Mila Pacheco trouxe a filha de 2 anos pela primeira vez e elogia o educativo do museu: “São atividades que minha filha nunca tinha feito e é uma novidade aqui na cidade. As crianças estão muito felizes com esse evento recreativo”. E não são só as crianças, já que os educadores também se divertem ao promover as brincadeiras. “Nós acreditamos que educação e brincar têm tudo a ver. Aqui, a criança vivencia uma escola sem paredes com oficinas educativas”, define o educador Samuel Romano.


Maria Cecília Machado, de 82 anos, presenciou as mudanças que ocorreram no casarão que hoje abriga o Museu Vassouras. Ela lembra em detalhes do passado, inclusive do incêndio que destruiu parte do prédio. Hoje, muito emocionada, ela retorna ao local para conhecer o museu com sua netinha. “Muita lembrança, muita saudade daqui. A capela era uma coisa linda, minha mãe era quem fazia o vestido da santinha. Foi triste demais quando pegou fogo. Mas, hoje, eu vim com a minha neta conhecer o museu, então estou muito feliz, porque a gente não tem muitos lugares para levar as crianças”.

MEMORIAL JUDAICO

Os fundos do casarão ainda reservam uma área externa surpreendente, com café, espaços de convivência e de recreação e um jardim digno de cartão-postal. O projeto paisagístico foi assinado por Roberto Burle Marx, em 1991, em colaboração com Claudia Rosier. A natureza cheia de simbolismos compõe o Memorial Judaico, para lembrar e homenagear Benjamin Benatar e Morluf Levy – dois judeus de origem marroquina, sepultados em 1859 e 1878 no jardim do antigo casarão da Santa Casa de Misericórdia. A coordenadora educativa do museu, Luana Oliveira, resgata a história que deu origem ao Memorial Judaico de Vassouras, em 1992. “Benjamin Benatar vivia aqui na cidade de Vassouras e, quando ele estava no seu leito de morte, disse que queria ser enterrado como um judeu. Mas, nessa época, só havia cemitérios católicos e a alternativa encontrada foi enterrá-lo aqui no jardim da então Santa Casa da Misericórdia, abrindo precedente para enterrar também Morluf Levy”, explica Luana, mostrando as duas pedras tumulares em memória desses dois judeus.

Durante o período em que o casarão era um asilo, o local foi visitado por Egon e Frieda Wolff, um casal de judeus que pesquisava a trajetória judaica no Brasil. Eles publicaram mais de 40 livros baseados em levantamentos feitos em arquivos brasileiros e estrangeiros. Foi assim que descobriram preciosidades, como as lápides judaicas de Vassouras, que passaram a ser monumento histórico do século passado e hoje fazem parte do circuito turístico da cidade.

O paisagismo é composto por nove canteiros em forma octogonal, preenchidos por plantas ornamentais e árvores ciprestes, em formato de cones, que simbolizam a vida eterna. “Os octógonos nos remetem às colmeias, e as abelhas voltam para casa para morrer. Esse ritual tem relação com Benatar, quando desejou voltar às suas origens. São oito canteiros preenchidos e um, ao centro, está vazio, aberto para que cada um possa trazer a sua identidade”, informa Luana, descrevendo o simbolismo da curadoria de Ilana Feldman.
A família do menino João Victor de Oliveira veio de Valença para conhecer o museu. A mãe, Rafaela, elogiou o lugar e disse que o filho é uma criança autista que se interessa muito por arte e história. E ele confirmou essa declaração empolgado: “É muito top aqui, é o melhor lugar que eu já fui na minha vida”, concluiu.

VENHA CONHECER
O Museu Vassouras está de portas abertas, de quinta a domingo, das 10 às 18 horas, com entrada gratuita. Tem visitas mediadas em horários específicos e, para grupos de turistas e escolas, é possível agendar. Confira a programação no Instagram @museuvassouras.

Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band

MOSTEIRO DE SÃO BENTO

ARTE EM OURO NO CORAÇÃO DO RIO

EM MEIO AO RITMO INTENSO DO CENTRO DA CIDADE, EXISTE UM LUGAR ONDE O TEMPO PARECE SUSPENSO. FUNDADO NO SÉCULO XVI, GUARDA UMA IGREJA BANHADA A OURO, CANTOS GREGORIANOS E UM ESPAÇO QUASE NUNCA REVELADO: A CLAUSURA DOS MONGES. CONSEGUIMOS ATRAVESSAR ESSA FRONTEIRA SILENCIOSA — E CONTAMOS TUDO NESTA MATÉRIA.

Do alto do Morro de São Bento, entre a movimentação urbana e o traçado histórico do Centro do Rio, ergue-se um importante monumento da cultura colonial brasileira: o Mosteiro de São Bento. Fundada em 1590, apenas 25 anos após a criação da cidade, a abadia é testemunha viva da formação histórica, religiosa e artística do país. Os monges beneditinos, que entoam cânticos gregorianos nas missas dominicais, vivem em uma clausura, sem permissão de acesso às mulheres, mas me foi concedida uma exceção e eu detalho minhas impressões nesta matéria.

Dom Mauro Fragoso, monge beneditino

A rotina silenciosa dessa comunidade monástica é quebrada aos domingos, quando fiéis e turistas disputam lugar para assistir à missa marcada pela liturgia em forma de canto gregoriano. O coro sacro dos monges sublima ainda mais a imagem de uma igreja banhada a ouro – referências dos estilos barroco e rococó luso-brasileiro. “A missa solene atrai muitos fiéis e turistas do Brasil e do mundo inteiro. É uma cerimônia com incenso, órgão e canto gregoriano, que encanta quem vem assistir”, ressalta o monge beneditino Dom Mauro Fragoso.

A arte colonial da igreja é um verdadeiro tesouro decorado por talhas de madeira e obras de arte, algumas esculpidas pelo Mestre Valentim. O chão em pedra, grande parte original, guarda túmulos de pessoas nobres, como informa Dom Hilário de Siqueira, lembrando que, até o século XIX, era comum o sepultamento no interior das igrejas. Há arte por todos os lados: das folhas de acanto, símbolo de imortalidade, às pinturas de óleo sobre madeira do altar, assinadas por Frei Ricardo do Pilar, um artista alemão radicado no Rio. O nome brasileiro é justificado, segundo a doutrina beneditina: “Quando entramos no mosteiro e iniciamos a vida monástica, recebemos um padroeiro onomástico, temos uma mudança de nome, no sentido de começar uma vida nova”, explica Dom Mauro.


Toda a opulência que vemos no interior da igreja contrasta com a sobriedade da fachada ao estilo maneirismo português – o que chamava a atenção, inclusive, de artistas europeus que passaram pela cidade nos séculos passados. A vista dos adros de igrejas era constantemente retratada por Debret e Rugendas. Durante séculos, templos religiosos formavam eixos estruturantes do crescimento urbano brasileiro, e o Mosteiro de São Bento se destacou como um dos maiores empreendimentos do Rio de Janeiro no século XVII. A vista panorâmica da Baía de Guanabara sempre foi um dos principais atrativos. Além da função defensiva, a posição estratégica transformou o mosteiro em um marco visual da cidade.

 

 

HISTÓRIA, FÉ E ARTE

O mosteiro foi fundado em 1590 por dois monges vindos da Bahia – Frei Pedro Ferraz e Frei João Porcalho – e integra a Congregação Beneditina do Brasil, que hoje reúne sete mosteiros masculinos e 16 femininos. Inicialmente dedicado à Nossa Senhora da Conceição, passou, em 1602, a ter como padroeira Nossa Senhora do Monserrat, cuja imagem se encontra em destaque no altar-mor.

Em 1596, o mosteiro foi elevado à condição de abadia, consolidando sua importância religiosa e institucional. A atual igreja começou a ser construída em 1633 e foi inaugurada solenemente em 1641. O complexo de 20 mil m2 abriga ainda a faculdade e o Colégio de São Bento, que inicialmente tinha um propósito social, sem cobrança de mensalidades, exclusivamente para meninos.

Os recursos financeiros para a construção do atual prédio do mosteiro vieram da renda obtida pela produção de cana-de-açúcar e pela venda de propriedades que os monges recebiam de doações. O trabalho braçal da construção foi executado pelos escravos, mas os monges também contribuíram com as obras e com a arte. Desde a sua construção, o mosteiro passou por algumas reformas e reconstruções, mas mantém muito da arquitetura original, apesar de ter sofrido um bombardeio durante a invasão francesa em 1711 e, anos depois, passado por um incêndio que destruiu o prédio principal.

 

DEVOÇÃO DE UMA
VIDA NA CLAUSURA

Uma única grande chave abre todas as portas. Sou convidada a entrar em um local proibido para mulheres: a clausura dos monges. O silêncio dos longos corredores feitos de pedra e cal já demonstra o clima de recolhimento. No regime da vida monástica, o contato com o mundo exterior é restrito, com o propósito de evitar distrações que possam prejudicar a profunda união com Deus por meio de orações e estudos.

Dentro da clausura, onde vivem atualmente cerca de 30 monges, há aposentos que se alternam entre a simplicidade e a exuberância. O refeitório, os corredores e ala da enfermaria são espaços funcionais. Já a Capela das Relíquias impressiona por suas paredes em tom verde, esculpidas em relevo revestido a ouro – uma encomenda do Frei Antônio do Desterro, então bispo do Rio de Janeiro. A sacristia também é um lugar que abriga peças de arte, entre elas, ao centro de um majestoso altar, a principal pintura do Frei Ricardo do Pilar, denominada “Senhor dos Martírios”.

A Casa da Livraria é uma biblioteca com seis salas, que guarda cerca de 14 mil volumes, incluindo obras raras e manuscritos antigos, preservados como verdadeiros tesouros da palavra e do conhecimento. Além dos livros, há peças de museu, como gramofones antigos, animais empalhados, balas de canhão, laboratório de restauração e até um cemitério dos livros. “Esse nome é porque são livros muito antigos e danificados. Alguns têm mais de 40% de perda, mas nós não jogamos fora, porque, além de serem raros, são livros que têm a palavra de Deus”, explica Dom João Evangelista Paiva, coordenador da biblioteca.

Sigo a conhecer os ambientes da clausura e, na escada, me deparo com janelas que mais parecem quadros da bela vista do Rio de Janeiro. Algumas paredes chegam a medir quase três metros de espessura, uma verdadeira fortaleza. Da sacada, tenho ampla visão da Baía de Guanabara, da Praça Mauá, do Museu do Amanhã e da Ponte Rio-Niterói. Para finalizar, um passeio pelo jardim emoldurado pelos arcos do mosteiro, um verdadeiro recanto de paz em meio à natureza, em pleno Centro da cidade. O caminho é sobre as lápides sepulcrais em que os monges são enterrados.

Apesar das transformações urbanas ao seu redor, o Mosteiro de São Bento permanece como um refúgio de espiritualidade e contemplação no coração da metrópole. Além de um patrimônio arquitetônico, o espaço é um elo vivo entre passado e presente, onde arte, fé e silêncio continuam a dialogar com a cidade que cresce ao seu redor – sem jamais apagar a força de suas origens.

Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band

 

 

ELA É CONSIDERADA UMA DAS DEZ BIBLIOTECAS MAIS BONITAS DO MUNDO E RECEBE CERCA DE 1.300 VISITANTES POR DIA. NO CENTRO DO RIO, ENCONTRA-SE O MAIOR ACERVO DA LITERATURA LUSITANA FORA DE PORTUGAL, GUARDANDO OBRAS PRECIOSAS, COMO A PRIMEIRA EDIÇÃO DE OS LUSÍADAS, DE LUÍS DE CAMÕES. COM GRANDE SIGNIFICAÇÃO HISTÓRICA, ESTE TEMPLO DA LITERATURA É UM CONVITE AO DELEITE PARA OS AMANTES DA CULTURA.

REAL GABINETE PORTUGUES DE LEITURA
BELEZA QUE ENCANTA O MUNDO

Na chegada ao salão principal, uma sensação de encantamento na medida em que o olhar se ergue, acompanhando o curso das estantes de livros infindáveis, arrematadas por bordados de ferro, que apontam para um misto de luzes dissipadas de uma claraboia e de um lustre suspenso a quase 30 metros de altura. Projetado pelo arquiteto português Rafael da Silva Castro, o prédio em estilo manuelino evoca a Era dos Descobrimentos, com inspiração no Mosteiro dos Jerónimos, em Portugal. Os desavisados chegam a confundir o lugar com uma catedral. Há quem passe pela porta e até se benza. É compreensível, pois o Real Gabinete Português de Leitura mais parece um verdadeiro templo sagrado dos livros. “Diferente de qualquer biblioteca em que já estive, ainda um bocado espantado com tudo que vejo, é algo de outro mundo”, descreve o visitante Afonso Couto, olhando ao redor.

O reconhecimento como a oitava biblioteca mais bonita do mundo faz parte do ranking de 2025, promovido pelo 1000 Libraries Awards, da fundação internacional 1000 Libraries. Tombado pelo Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (Inepac), o Real Gabinete Português de Leitura também foi eleito como a mais bela biblioteca oitocentista do mundo. A inauguração desta sede foi em 1887 e contou com a presença da princesa Isabel. Quem assegura isso é Francisco da Costa, presidente há oito anos do Real Gabinete Português de Leitura: “Em 10 de junho de 1880, época da comemoração dos 300 anos de Camões, D. Pedro II lançou a primeira pedra na construção deste prédio, cuja obra terminou em 1887. Mas quem inaugurou o Real Gabinete Português foi a princesa Isabel”.

No entanto, a história do Real Gabinete começa antes, em 1837, quando cerca de 40 portugueses constituíram um importante acervo de livros com o ideal de ampliar os horizontes intelectuais dos lusitanos que viviam na então capital do Império. Mal sabiam que estavam semeando o que hoje é considerada a mais antiga biblioteca em funcionamento da América Latina.

“Eduardo de Lemos investiu neste imóvel e conseguiu angariar fundos para a sua construção. Na inauguração, ele já não era mais o presidente, mas seus amigos fizerem este álbum com autógrafos e dedicatórias para homenageá-lo.”
Gilda Santos, vice-presidente cultural do Real Gabinete Português de Leitura

Mariana Leão e o presidente do Real Gabinete Português de Leitura, Francisco da Costa, seguram a primeira edição de Os Lusíadas, de Camões.

“Em 10 de junho de 1880, época da comemoração dos 300 anos de Camões, D. Pedro II lançou a primeira pedra na construção deste prédio, cuja obra terminou em 1887. Quem inaugurou o Real Gabinete Português foi a princesa Isabel.”
Francisco da Costa, presidente do Real Gabinete Português de Leitura

 

A HISTÓRIA DESSE RELICÁRIO DA CULTURA

Em 1900, o Gabinete transformou-se em biblioteca pública, abrindo suas portas a todos os leitores gratuitamente – porém, continua sendo de propriedade privada. Poucos anos depois, o rei D. Carlos I concedeu-lhe o título de Real, em reconhecimento à sua importância cultural. O acervo cresceu exponencialmente a partir da década de 30, impulsionado pelo “depósito legal”, garantido por decreto, que assegurou à instituição o recebimento de um exemplar de cada obra publicada em Portugal. Estão catalogados hoje quase 400 mil livros. Só o filólogo Ivanildo Bechara doou aproximadamente 39 mil volumes de sua biblioteca, e cerca de 4 mil livros foram ofertados pela família do escritor João do Rio.

Precisando ampliar seu espaço físico, a instituição recebeu investimentos que proporcionaram a aquisição do prédio anexo, a criação do Centro de Estudos e a implantação do setor de restauração e preservação dos livros antigos.

Além de guardar verdadeiras obras-primas da literatura, que datam desde 1520, o Real Gabinete é considerado uma biblioteca-museu, por abrigar também peças de inestimável valor histórico, como documentos preciosos da colonização portuguesa. É possível agendar uma visita guiada para explorar todos os pavimentos e se encantar com verdadeiros tesouros artísticos. Há telas de grande importância, como as obras do pintor português José Malhoa: O Descobrimento do Brasil e O Sonho do Infante. O busto de Camões é uma peça imponente localizada na Sala de Leitura, assim como o Livro de Ouro – uma homenagem a Eduardo de Lemos, presidente do Real Gabinete entre os anos de 1878 e 1882. A respeito dele, Gilda Santos, vice-presidente cultural do Real Gabinete Português de Leitura, comenta: “Eduardo de Lemos investiu neste imóvel e conseguiu angariar fundos para a sua construção. Na inauguração, ele já não era mais o presidente, mas seus amigos fizerem este álbum com autógrafos e dedicatórias para homenageá-lo”.
No andar superior, muitas obras de arte ajudam a contar a nossa história, com destaque para a peça Altar da Pátria, de 1,60 m de altura, localizada no átrio do Salão dos Brasões. Trata-se de uma escultura de ourivesaria assentada sobre uma base de mármore, que retrata as glórias marítimas portuguesas.

É praticamente impossível relacionar todas as raridades bibliográficas conservadas no Real Gabinete, mas há algumas que merecem destaque: os manuscritos originais do Dicionário da Língua Tupi, de Gonçalves Dias; os autógrafos do Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco; e a peça Tu, Só Tu, Puro Amor, de Machado de Assis, ofertada pelo próprio autor.

EMOÇÃO DIANTE DE UMA RARIDADE
Guardado a sete chaves, o primeiro exemplar de Os Lusíadas, de 1572, foi retirado do cofre exclusivamente para que esta colunista pudesse sentir a emoção de segurar o livro em que Camões colocou suas mãos. Existem relatos sugerindo que o poeta conferiu pessoalmente os primeiros 20 originais – o que torna este momento ainda mais especial!
Além dos célebres autores já citados, o Real Gabinete é constantemente procurado por pesquisadores em busca de obras clássicas. Só para citar algumas: D. Branca e Folhas Caídas, de Almeida Garrett; as primeiras edições de A Harpa do Crente, de Alexandre Herculano; A Viagem à Roda da Parvônia, de Guerra Junqueiro; O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e O Mandarim, de Eça de Queiros. A estas, podem ser acrescentadas muitas outras, não só de autores da língua portuguesa, mas também de estrangeiros, como Voltaire, Victor Hugo, Dante e Cervantes.
Descrever a experiência desta visita é como sentir a força descomunal dos livros, detentores exclusivos do poder de fazer repousar as palavras onde vivem os imortais. Mais do que uma biblioteca, o Real Gabinete preserva a alma de uma nação que se perpetua pela língua, pela arte e pelo conhecimento. Eis aqui um pedacinho de Portugal que floresce, há quase dois séculos, em solo brasileiro, para quem tem a sensibilidade de apreciar. Finalizo com Luís de Camões: “Quem não sabe arte, não na estima”.

O Real Gabinete Português de Leitura fica na rua Luís de Camões, 30, Centro, Rio de Janeiro. Aberto gratuitamente em dias úteis, das 10 às 17 horas. Inscrição para visitas guiadas pelo site: realgabinete.com.br

Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band

 

 

Palácio da Cidade
DA DIPLOMACIA BRITÂNICA
AO PODER MUNICIPAL

Em meio à agitada rua São Clemente, encontra-se este imponente marco histórico do Rio de Janeiro. Entre com a gente por seus jardins e venha conhecer esta verdadeira obra de arte arquitetônica.

Foto: Beth Santos

 

Localizado no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, o Palácio da Cidade reúne muitas histórias e, também, muita beleza. Erguido entre 1947 e 1949 para abrigar a embaixada do Reino Unido, o palacete guarda uma trajetória curiosa até se tornar sede oficial da Prefeitura do Rio, em 1975. Atualmente, ainda é bastante utilizado pelo prefeito do Rio, não mais como sede administrativa, mas como palco de solenidades oficiais e de grandes eventos culturais.

Salão Nobre de Jantar encanta com seu valioso mobiliário e com suas obras de arte, como a tapeçaria do artista Augusto Ribeiro Degois.

DESTACAM-SE NO SALÃO NOBRE DE JANTAR UM LUSTRE COM 3 METROS DE ALTURA E 66 LÂMPADAS.

O prédio exuberante de quatro andares em estilo neoclássico, com vista para um amplo jardim, possui um valioso mobiliário compondo suas obras de arte. Destacam-se no Salão Nobre de Jantar um lustre com 3 metros de altura e 66 lâmpadas sobre a mesa oval, dois tocheiros em madeira entalhada, revestidos com folhas de ouro, atribuídos ao mestre Valentim, e uma tapeçaria com mais de 5 metros de comprimento do artista mineiro Augusto Ribeiro Degois, representando uma cena pastoral. O palácio reúne também obras dos artistas Mário Agostinelli, Glauco Rodrigues e Roberto Moriconi, além de peças raras do século XVIII. Esse contraste de estilos o refinam e o classificam como uma importante referência de valor cultural, com berço diplomático. O espaço de 60 mil m² tornou-se palco de decisões políticas que influenciaram diretamente os rumos da cidade e até mesmo do país. Ali, encontros importantes moldaram a administração municipal e a imagem do Rio.

Salão Nobre de Recepção, também ornamentado com um lustre da firma brasileira Macrif.

O Palácio da Cidade já recebeu personalidades e autoridades nacionais e internacionais, como a rainha Elizabeth II, o príncipe Philip, a princesa Diana e o príncipe Charles. Em 2013, o papa Francisco também visitou o palácio durante a Jornada Mundial da Juventude. Na ocasião, em um ato simbólico, o pontífice recebeu a chave da cidade das mãos do prefeito Eduardo Paes, abençoou as bandeiras olímpica e paralímpica e saudou a multidão que o aguardava em frente à varanda do palácio.

“O papa veio aqui nesta varanda receber a chave da cidade das mãos do prefeito. Depois, teve uma missa aqui neste gramado. Antigamente, esse espaço era aberto ao público, mas hoje, por uma questão de segurança, o palácio só recebe visitação em ocasiões específicas, por exemplo, quando a bandeira olímpica esteve aqui. Recentemente, também abrimos as portas para um bazar social promovido pela RIOinclui, com a organização da primeira-dama Cristine Paes. A renda foi revertida para a construção de moradias de pessoas com deficiência.”

Paulo Pimenta, administrador do Palácio da Cidade

 

Acima, nos jardins do Palácio da Cidade, o prefeito Eduardo Paes entrega as chaves da cidade ao Rei Momo para abrir oficialmente o carnaval.

UM PREFEITO SEM PREFEITURA?

O livro O Palácio da Cidade 1975-1979, publicado pela Prefeitura do Rio, conta a curiosa história do prefeito Marcos Tamoyo em busca de um espaço físico para trabalhar com seu secretariado. Tamoyo foi o primeiro prefeito carioca após a fusão da Guanabara com o antigo estado do Rio de Janeiro, em 1975, por nomeação do governador Floriano Faria de Lima. Vários imóveis foram cogitados, mas nenhum atendia às necessidades do prefeito – um prato cheio para as críticas da imprensa à época. O cartunista Lan, do Jornal do Brasil, publicou uma caricatura do prefeito Tamoyo despachando em um orelhão (antigo telefone público). A crônica “O prefeito caracol”, de Carlos Eduardo Novaes, dizia: “O Rio de Janeiro é, portanto, a única cidade do mundo que tem uma prefeitura itinerante”. Comovida com a situação, uma empregada doméstica chegou a escrever ao prefeito oferecendo-lhe seu apartamento conjugado no subúrbio do Rio para acomodá-lo.

Por outro lado, com a transferência da capital nacional para Brasília, em 1960, os britânicos precisavam vender o imóvel da rua São Clemente, que antes abrigava a embaixada. Com essa oportunidade, a saga do prefeito Tamoyo não durou tanto tempo. Após a fusão dos estados, o cônsul-geral da Grã Bretanha, Alan Munro, tratou de fazer a negociação com o governador. O imóvel, então, foi vendido por Cr$ 40 milhões e mais Cr$ 45 milhões em investimentos em obras de adaptação do espaço e em mobiliário. Em seu discurso de inauguração da sede da prefeitura, Marcos Tamoyo rendeu-se às brincadeiras e, com bom humor, disse: “Não foi à toa que escolheram São Sebastião como padroeiro do Rio: muita flecha e pouca roupa”.
A sede do governo municipal do Rio de Janeiro ganhou o nome de “Palácio da Cidade”, oficializado pelo decreto municipal nº 162. Em 1984, o imóvel foi tombado por sua relevância histórica e cultural. E, hoje, esse imponente bem público encontra-se preservado, mantendo a memória da administração pública e de todos os seus gestores, retratados em uma galeria de fotos. Que a chave simbólica do Rio, guardada no Palácio da Cidade, possa continuar abrindo portas para grandes oportunidades em benefício dos cariocas!

 

 

Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band.

Jardim de Alah
ENCANTO DO RIO DE CARA NOVA

Localizado entre Ipanema e Leblon, o tradicional parque tombado pelo município vai ganhar vida nova por meio de um grande projeto de revitalização, que, conduzido pelo Consórcio Rio + Verde, promete aumentar a área verde local, oferecer opções de lazer e desenvolver ações sociais para a população. O investimento estimado é de R$ 160 milhões e as obras já começaram.

Fotos: Divulgação

A Cidade Maravilhosa vai ganhar mais um cartão postal. O projeto de revitalização do Jardim de Alah, na Zona Sul, saiu do papel e, portanto, as obras já começaram para integrar natureza e espaço urbano de forma harmoniosa. Além de oferecer mais uma opção de lazer a cariocas e turistas, o projeto prevê ainda uma série de impactos positivos relacionados a aspectos ambientais, econômicos e sociais.

A história do Jardim de Alah teve início na década de 1920, a partir da construção de um canal, entre os bairros de Ipanema e Leblon, que passou a ligar a Lagoa Rodrigo de Freitas ao mar. O objetivo era reduzir as enchentes na região. Em 1938, o ambiente foi contemplado com um jardim baseado no trabalho do urbanista francês Alfre- do Agache, sendo o arquiteto brasileiro David Xavier de Azambuja o responsável pelas obras. Lançado em 1936, o filme O Jardim de Alá serviu de inspiração para o nome do parque.

Os três arquitetos do projeto: Sérgio Conde Caldas, Miguel Pinto Guimarães e João de Sousa Machado

Há algumas décadas, era possível encontrar gôndolas e pedalinhos pelo canal, e, dessa forma, os visitantes podiam navegar pelas águas apreciando o jardim. Agora, a realidade é bem diferente. Embora o espaço de quase 100 mil metros quadrados já tenha passado por algumas reformas realizadas pela prefeitura, o estado de conservação ainda é precário e, por esse motivo, são poucas as pessoas que usufruem do local.

MUDANÇAS AMPLIAM
ÁREA VERDE EM 94%

O projeto de revitalização do Jardim de Alah existe desde 2015 e foi criado por três arquitetos – Miguel Pinto Guimarães, Sérgio Conde Caldas e João de Sousa Machado.Após aberto o trâmite para o processo de concessão, o Consórcio Rio + Verde, liderado pelo empresário Alexandre Accioly, venceu, em 2023, a licitação para recuperar e manter o Jardim de Alah por 35 anos.

Projeto de revitalização do Jardim de Alah
R$ 160 milhões em investimento
300 novas árvores no local
Solo 32% mais permeável
94% a mais de área verde

 

 

 

“O investimento original era de R$ 120 milhões, sendo R$ 18 milhões da outorga e R$ 100 milhões na construção do parque, além de um custo anual de manutenção de cerca de R$ 20 milhões aproximadamente. Mas, por causa do atraso — estamos há um ano e meio parados aqui — hoje, esse

Alexandre Accioly, empreendedor integrante do consórcio Rio + Verde

investimento já está em R$ 160 milhões. Já foi investido aqui no parque R$ 40 milhões e agora vamos ter que investir mais R$ 120 milhões. Nós gastamos mais dinheiro com advogados do que com o projeto. Isso é fato”

esclarece Alexandre Acccioly em visita à obra e promete fazer eventos de inauguração na medida em que os espaços ficarem prontos.

O parque vai ganhar novas pontes sobre o canal, melhores ciclovias, cabine de polícia, infraestrutura para estacionamento e banheiros públicos.
Para a realização das obras, o Consórcio Rio + Verde possui licença de supressão de 130 árvores, o que representa 17,8% do total da área verde. Vale destacar que essa medida será adotada para a eliminação de plantas doentes, raízes invasivas e espécies exóticas inadequadas. Além disso, serão plantadas 300 novas árvores no local, o que, entre outros benefícios, contribuirá para a redução da temperatura do ambiente, devendo diminuir de dois a cinco graus.

O novo Jardim de Alah vai contar com novas pontes sobre o canal, melhores ciclovias, segurança e infraestrutura para estacionamento e banheiros públicos. Lojas, bares e restaurantes também vão compor o cenário e prometem atrair o público, assim como fomentar o comércio na região

O arquiteto Miguel Pinto Guimarães diz que, quando o assunto é sustentabilidade ambiental, o projeto vai muito além do replantio de árvores. Segundo ele, serão retirados 9 mil m2 de asfalto e vão desaparecer 650 metros lineares de rua, dando lugar ao saibro, material que aumenta a permeabilidade em 32% e evita problemas críticos no caso de chuva forte. A partir dessas mudanças, o Jardim de Alah contará com 94% a mais de área verde.

LAZER, ECONOMIA
E PROJETOS
Lojas, bares e restaurantes previstos prometem atrair o público, assim como fomentar o comércio na região.
Outra vantagem da revitalização é a economia que ela trará aos cofres públicos. Segundo o arquiteto, a concessão do Jardim de Alah significará quase R$ 1 bilhão a menos para a prefeitura no decorrer desses 35 anos. “O dinheiro que seria utilizado na manutenção do espaço, num verdadeiro ‘enxugar gelo’ para manter um lugar pouco frequentado, poderá ser revertido para áreas essenciais, como educação, saúde e segurança, e para regiões mais vulneráveis da cidade”, sugere.

O projeto Jardim de Alah recebeu a pré-certificação internacional SITES Platinum, que refere-se ao mais alto nível de reconhecimento de sustentabilidade. “Agora é colocar em prática aquilo que a gente projetou”, declara o arquiteto João de Sousa Machado.
A revitalização do parque será ainda responsável por mudar para melhor a realidade da Cruzada São Sebastião, comunidade localizada bem próxima ao Jardim de Alah, que possui cerca de cinco mil habitantes. “A nossa expectativa é que esse projeto se concretize logo. Há tempos esse local está abandonado e não queremos mais isso. Os imóveis na Cruzada serão valorizados, fortalecendo também a autoestima dos moradores, como aliás já vem acontecendo. Teremos ainda a questão da geração de empregos e de renda”, destaca Joel Nonato, presidente da associação de moradores da Cruzada São Sebastião.

Além disso, está prevista a construção de uma creche de 1.200 m2, com capacidade para 300 crianças, e de um ginásio esportivo, que será palco para diversos projetos sociais relacionados à prática de esportes. O de futebol será comandado por Paulinho Pereira, ex-jogador do Vasco da Gama e cria da Cruzada, como ele mesmo se define. “Importante lembrar que não apenas a Cruzada será beneficiada. Todos serão bem-vindos”, comenta Pereira.

“Importante lembrar que não se trata de um shopping. Os espaços comerciais representam apenas 8,5% da área total do parque. Mais de 90% continuarão áreas livres a céu aberto. Vamos otimizar a ocupação do espaço, trazendo mais beleza, mais leveza. E parque é parque. Então, vai ter mais árvores, mais sombreamento e amplos gramados.”

Miguel Pinto Guimarães, arquiteto.

Acima, a vista aérea do projeto sem as grades que hoje isolam o parque. Como mostra a simulação abaixo, o ambiente será mais arborizado, acessível e propício à integração da sociedade com a natureza

QUADRO (ESQUEMA/PLANTA)
A Horta comunitária
B Espaço de Desenvolvimento Infantil (EDI)
C Quadras poliesportivas
D Parquinhos infantis
E Novas pontes para pedestres
F Restauro da praça Almirante Saldanha da Gama
G Parcão
H Restrauro do monumento à Batalha do Riachuelo
I Espaço para a terceira idade
J Boulevard com lojas e restaurantes
K Escola municipal Henrique Dodsworth
L Entrada do estacionamento
M Praça permeável para feiras
N Anfiteatro

 

OBRAS DEVEM DURAR
CERCA DE 18 MESES

A Revista Manchete entrevistou pessoas que moram ou passam pelo Jardim de Alah e os relatos foram de insegurança, como descreveu Filipe Sigaud: “Tá abandonado, quando passo por aqui sinto que tem uma chance de eu ser assaltado. Acho que é importante ter esse projeto, vai dignificar muito a região aqui”.

As associações de moradores de Ipanema e do Leblon também são favoráveis à concessão. Em abril de 2024, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) entrou com uma ação civil pública para impedir o início da revitalização. Com isso, o projeto ficou parado por mais de um ano. Em maio de 2025, a 6ª Vara de Fazenda Pública voltou a liberar as obras. O MPRJ recorreu da decisão, mas o recurso apresentado foi negado, em 16 de junho, pelo desembargador Sérgio Seabra Varella, da 4ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Isso significa que a liberação para a retomada das obras segue valendo. “Começamos as obras”, comemora Accioly em visita ao local.

Os membros do consórcio Rio + Verde receberam com muito otimismo a decisão do TJ e se comprometeram a realizar o projeto de forma responsável e sustentável, de acordo com os parâmetros das leis ambientais e diretrizes urbanísticas. O cenário de abandono em uma das áreas mais nobres do Rio está com os dias contados.

De acordo com o gestor da obra, Paulo Bodas, nessa primeira fase, o terreno é preparado e alguns itens são identificados para aproveitamento, como postes e bancos. Serão necessários cerca de 18 meses para que o projeto seja concluído e a população possa aproveitar tudo o que o novo Jardim de Alah tem a oferecer. E o melhor: gratuitamente.

Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band.

CASA FIRJAN: ONDE A CULTURA RESGATA O PASSADO E VIVE O FUTURO

A Casa Firjan é considerada um hub (centro de atividades) de inovação e tendências da Federação das Indústrias do Rio, mas, no passado, o casarão histórico era conhecido como Palacete Guinle – Paula Machado. A fachada clássica do bem tombado se conecta ao Espaço Inova – um prédio moderno com propostas dedicadas à tecnologia e à cultura.

A Casa Firjan é tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), órgãos que reconhecem sua relevância histórica e arquitetônica

A construção do palacete no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio, foi um presente de casamento de Eduardo e Guilhermina Guinle à filha Celina e a Lineo de Paula Machado. O projeto original, datado de 1906, desenvolvido pelo arquiteto John Oberg com inspiração nos palácios franceses do século XVII, foi um dos pioneiros da arquitetura modernista no país. Em 1910, Celina decidiu ampliar sua futura residência, em um trabalho do arquiteto Armando Carlos da Silva Telles. Ao longo do tempo, a partir de 1925, pequenas alterações foram feitas no imóvel pelo arquiteto francês Joseph Gire, responsável por projetos como os do Hotel Copacabana Palace e Palácio das Laranjeiras, assim como o da Ilha de Brocoió – todos ligados aos Guinle. Em 2006, o imóvel foi oficialmente tombado pelo Estado do Rio de Janeiro.

Com a proposta de ampliar a capacitação de profissionais das indústrias fluminenses, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) adquiriu o palacete residencial em 2011 e conquistou o segundo lugar no Prêmio Saint-Gobain de Arquitetura – um dos mais importantes do segmento –, na categoria Projeto Institucional. Em agosto de 2018, nasceu a Casa Firjan e, desde então, vem cumprindo seu papel de oferecer soluções para os desafios da nova economia, ampliando o portfólio para educadores e contribuindo para a autossustentabilidade.

 

“O nosso espaço e a nossa arquitetura representam o olhar para o passado para construir o nosso futuro.”

Cris Alves, gerente-geral de Desenvolvimento e Inovação Empresarial da Firjan

As salas do palacete foram renomeadas para homenagear pessoas importantes, como seus antigos moradores, Celina e Lineo de Paula Machado, e os profissionais do cinema Lucy e Luiz Carlos Barreto. Na Sala Aurélio, a Casa abriga parte do acervo de livros pessoais do grande dicionarista brasileiro Aurélio Buarque de Holanda. Na Sala Sérgio Rodrigues, é possível encontrar importantes criações de um dos maiores nomes do design de mobiliário nacional. Já a Sala Casa Firjan, no segundo pavimento, abriga uma exposição permanente que resgata a história da Firjan e da memória do lugar.
Era necessário expandir, ampliar o espaço físico, para que a Casa Firjan se tornasse um centro de inovação multifuncional.

Na foto acima, a Sala Aurélio, com livros pessoais que pertenceram ao dicionarista Aurélio Buarque de Holanda

Foi realizado, então, um concurso de projetos com metas ambiciosas que valorizavam ideias, soluções e propostas arquitetônicas inovadoras e de alta qualidade, levando-se em conta a ambiência e compatibilidade com o imóvel histórico existente. Em 2012, foram analisadas mais de trinta propostas inscritas e o projeto vencedor foi o do arquiteto André Lompreta e equipe. Hoje, na Casa Firjan, o público tem a referência preservada de um patrimônio cultural e histórico conectado a um prédio contemporâneo.

A Casa Firjan é aberta ao público de terça a domingo, de 9h às 19h, e o interior do palacete também pode ser visitado gratuitamente. O espaço abriga uma exposição permanente sobre a história do casarão.

NOVAS TECNOLOGIAS

Olhando para o futuro, a Casa Firjan disponibiliza gratuitamente à sociedade, mediante inscrição prévia, cursos em laboratórios para democratizar o acesso a novas tecnologias. O Lab de Design e Fabricação Digital promove a cultura maker, que é a prática de tirar as ideias do papel e executá-las, como a criação de um protótipo feito a partir de tecnologias digitais.

“O Laboratório de Tendências é outra área nossa que é como um farol do mundo, em que a gente fica ali, ligado, olhando as tendências e traduzindo isso em vários formatos. Temos um festival todos os anos com painéis compostos por palestrantes nacionais e internacionais, em que são apresentadas tendências e a forma como impactam nossas vidas e nosso trabalho.”

Cris Alves, gerente-geral de Desenvolvimento e Inovação Empresarial da Firjan

O Espaço Inovação conta com laboratórios de tecnologia e recebe exposições, como a mostra “Trabalhadores”, de Sebastião Salgado.

 

A Casa Firjan é um polo de conhecimento e inovação. Utiliza diversas ferramentas de sensibilização para provocar reflexões sobre temas importantes, e o núcleo de exposições é um grande aliado nesse sentido. Está em cartaz a mostra “Trabalhadores”, de Sebastião Salgado. A primeira exposição após a morte do renomado fotógrafo é um convite ao debate sobre as transformações do trabalho e o impacto da tecnologia na construção de um futuro mais humano e sustentável.
A Casa Firjan tem entrada gratuita e as informações sobre a programação estão disponíveis no site casafirjan.com.br.

 

Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band.

 

Muito mais do que a residência oficial dos governadores do Estado do Rio de Janeiro, o exuberante Palácio das Laranjeiras é símbolo de história, arquitetura e política. Edificação inspirada no estilo europeu, com forte influência na decoração francesa, incluindo objetos de arte similares aos da realeza do Palácio de Versalhes e ambientes que remetem à época dos reis “Luíses”.

Essa joia do povo fluminense, de grande relevância para o patrimônio histórico-cultural, teve uma construção arrojada, erguida entre os anos 1909 e 1914. O imóvel emblemático está localizado na parte alta do tradicional bairro de Laranjeiras, Zona Sul do Rio. Já hospedou delegações estrangeiras em visita ao Brasil, foi sede do governo do Distrito Federal e residência oficial do presidente do Brasil. A partir de 1960 passou a ser o local de despacho dos governadores do estado. O Palácio das Laranjeiras foi pioneiro na concepção moderna da divisão de espaços para moradia, em alas íntima, social e de serviço.

Palácio símbolo de uma época em que a França era modelo arquitetônico. Segundo estimativas, as obras teriam custado cerca de 1 milhão de dólares – o equivalente hoje a 24 milhões de dólares. Já serviu de residência para os presidentes Dutra, Juscelino Kubitschek e João Goulart.

Eduardo Palassin Guinle (Porto alegre, 1846 – rio de Janeiro, 1912) foi o patriarca dos Guinle, uma das famílias mais ricas do Brasil entre o império e os governos militares. casou-se, em Porto alegre, com Guilhermina Coutinho da Silva (1854 – 1925), filha do hispano-uruguaio sebastião coutinho da silva e da brasileira escendente de italiano Francesca tubino.

Era início do século XX, a família Guinle, uma das mais abastadas e poderosas da capital da República, colecionava propriedades e era dona de uma firma de importação de maquinário industrial e até mesmo da Companhia Brasileira de Energia Elétrica. Eduardo Guinle, um jovem engenheiro civil, idealizou o palácio para receber a elite em alto estilo em um platô da encosta, emoldurado pelo verde da Mata Atlântica, com uma bela vista para a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar. Sua construção acabou se tornando mais um cartão postal da cidade. Ao todo, a terra adquirida por Eduardo na região chegou ao total de aproximadamente 430 mil metros quadrados, abrangendo o atual Parque Guinle, porém hoje a área da propriedade é mais restrita.

Para a decoração, Eduardo também não poupou recursos e buscou em Paris nomes afamados que contribuíram com uma ornamentação de alto valor artístico.

VALOR ARTÍSTICO

O projeto do palácio foi assinado pelo arquiteto construtor Armando Carlos da Silva Telles, provavelmente baseado em um desenho inicial do arquiteto francês Joseph Gire, que posteriormente projetou para outros membros da família o Copacabana Palace Hotel e o palacete da Ilha de Brocoió.

o grande vitral da escadaria, fabricado em 1910, em Paris, remete ao deus do sol da mitologia clássica “apolo e seu carro de sol

Para a decoração, Eduardo buscou em Paris nomes afamados para participarem da ornamentação de alto valor artístico e, para isso, também não poupou recursos. Contra tou a firma francesa Casa Bettenfeld, que, para atender à tamanha demanda, acabou instalando uma filial no Rio de Janeiro. O material utilizado foi escolhido a dedo: boi-series (painéis decorativos que revestem as paredes) de madeiras nobres, colunas maciças de mármores italianos, porcelanas Wedgwood, delicados parquets belgas, além de móveis inspirados na realeza francesa, como a cópia fiel do “Bureau du Roi”, a escrivaninha do Rei Luís XV e o piano em homenagem à rainha Maria Antonieta.

A TRANSFERÊNCIA PARA O GOVERNO FEDERAL

Ao término das obras, em meados de 1913, a família Guinle mudou-se para a luxuosa residência, onde viveram por quase três décadas. Apesar de tanto investimento para erguer um palácio digno de realeza, a maioria dos Guinle não gostava de eventos sociais. Com a morte de Eduardo, em 1941, aos 63 anos, sua esposa Branca e os filhos decidiram vender e lotear a extensa propriedade.

Em 1946, durante a gestão do general Eurico Gaspar Dutra, o palacete e seu acervo de móveis e objetos artísticos foram adquiridos pela União por 27,5 milhões de cruzeiros acrescidos de terrenos da Esplanada do Castelo. A mansão ficou à disposição do Ministério das Relações Exteriores para hospedar visitantes oficiais na então capital do país. E, no governo de Juscelino Kubistchek, o Palácio das Laranjeiras passou a ser a residência oficial do presidente da República.

Presidente Juscelino Kubistchek recebendo o cantor norte- americano Nat King Cole, na sala de Música do Palácio, 1959

Além da presença constante de políticos e de autoridades internacionais, os salões do Palácio das Laranjeiras receberam diversas personalidades do mundo artístico, como a atriz Marlene Dietrich, o cantor Nat King Cole e o músico Louis Armstrong.

Decisões importantes sobre a construção de Brasília foram tomadas neste palácio, onde Juscelino, de seu gabinete, em 19 de abril de 1960, leu o discurso oficial de despedida do Rio, dois dias antes da inauguração da nova capital federal do país.

PATRIMÔNIO TOMBADO

Com o passar dos anos, foram necessárias obras de restauração e, assim então, em 1979, o Palácio das Laranjeiras consagrou-se como bem tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – INEPAC e, quatro anos depois, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Até hoje, uma equipe de restauro, coordenada pela museóloga Luiza Rache, trabalha na recuperação e conservação das peças. “Veja como esse palácio brilha! No piso, nas boiseries, no mobiliário, em todos os detalhes do salão há folhas de ouro. O assoalho da sala de música é um parquet belga. A base da parede da sala de visitas é toda em carvalho, um luxo!”, encanta-se Luiza ao apresentar a ala social composta por oito ambientes.

É a partir do hall que se dá a distribuição das salas, cada qual com uma função específica. No primeiro pavimento estão os ambientes de receber: a sala de visitas, denominada Salão Luís XIV, a sala de jantar, o fumoir (sala de fumantes) e a sala de música. Já no segundo, estão a biblioteca, a sala de bilhar, denominada Salão Império e a ala de quadros, batizada de Galeria Regência.

O ambiente social no segundo pavimento
Escultura em mármore carrara ao estilo grego clássico

No primeiro pavimento estão os ambientes de receber: a sala de visitas, denominada Salão Luís XIV, a sala de jantar, o fumoir (sala de fumantes) e a sala de música.

O salão de jantar com 100 m²

Em 1974, o general Ernesto Geisel optou pela desativação das funções do Executivo Federal no Palácio das Laranjeiras. O antigo palacete, que desde 1956 estava disponível como residência oficial dos presidentes do Brasil, foi cedido ao novo Estado do Rio de Janeiro, criado a partir da integração do Estado da Guanabara ao território fluminense. Foram elaboradas, então, mudanças administrativas com adaptações necessárias para a acomodação dos novos moradores, preservando o patrimônio histórico.

A área museológica é separada internamente dos aposentos reservados à família do governador. Alguns optam por residir lá, outros utilizam o palácio apenas para despachar, fazer reuniões e eventos. A casa dos governantes fluminenses continua movimentada, a serviço da política com inestimável valor histórico-patrimonial.

O lavatório duplo da suíte esculpido em mármore.
Quarto Luis XV ou Quarto do casal. Duas camas com acabamento em marchetaria e ornatos em bronze.

PALCO DE IMPORTANTES DECISÕES POLÍTICAS

O Palácio serviu de cenário para fatos que marcaram a história política do Brasil, assim como manteve o seu papel tradicional de espaço de convivência e interação social.

1964 – No jardim do Palácio das Laranjeiras, o então presidente Jango anunciou em solenidade a assinatura do decreto que elevou os níveis regionais do salário mínimo em todo o país.

1968 – O Palácio das Laranjeiras tornou-se novamente lugar da edição de mais um Ato Institucional, o AI-5.

1969 – Local da cerimônia de lançamento da Emenda Constitucional nº 1.