Museu Vassouras
UM PRESENTE PARA O VALE DO CAFÉ
INSTALADO EM UM IMPONENTE CASARÃO DO SÉCULO XIX, O MUSEU SURGE – DESDE DEZEMBRO DO ANO PASSDO – COMO UM DOS MAIS IMPORTANTES EQUIPAMENTOS CULTURAIS DO INTERIOR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. COM ENTRADA GRATUITA, REÚNE A RICA HISTÓRIA CAFEEIRA DO SUL FLUMINENSE, INCLUINDO EXPOSIÇÃO DE OBRAS CONTEMPORÂNEAS, UM MEMORIAL JUDAICO E JARDINS COM PAISAGISMO DE BURLE MARX.
A 120 km da capital do estado está a Princesinha do Café, como é conhecida a charmosa cidade de Vassouras, localizada no centro-sul do estado. Na Praça Barão do Campo Belo, bem ao lado da Igreja Matriz, foi inaugurado, em dezembro de 2025, o Museu Vassouras – e, somente em seu primeiro mês, recebeu cerca de 7 mil visitantes. O espaço devolveu a vitalidade do casarão histórico, construído por barões, tombado pelo patrimônio público em 1986, que permanece na memória afetiva dos moradores da região.

O prédio, erguido em 1848, abrigou o primeiro hospital do município, a Santa Casa da Misericórdia, e depois, de 1910 a 2007, o Asilo Barão do Amparo. Mas, ao longo dos anos, sem recursos para obras de conservação, entrou em estado de deterioração, agravado por um incêndio em 2008, que provocou o desabamento parcial de sua estrutura. Em 2017, essa história começou a mudar com a aquisição do imóvel pelo Instituto Vassouras Cultural (IVC), organização mantida por Ronaldo Cezar Coelho – empresário incentivador da cultura e da preservação da história do Vale do Café. “Não existe apenas uma cidade, existe toda uma região, um patrimônio cultural valioso a ser destacado e valorizado, com saberes e sabores da nossa história e de toda essa terra aqui”, disse Ronaldo em seu discurso na cerimônia de inauguração do Museu Vassouras.
Muito além da restauração arquitetônica, a proposta é um mergulho profundo na identidade do Vale do Café, território onde indígenas, africanos escravizados e imigrantes europeus se encontraram. A fachada ainda preserva os traços coloniais, que contrastam com um interior moderno e acolhedor. O museu, com entrada gratuita, tem a missão de difundir a cultura e de resgatar a história de uma região que foi central para a formação econômica, social e cultural do Brasil.
“CHEGANÇA” REÚNE OBRAS VALIOSAS
“Chegança” é uma exposição coletiva composta por mais de 60 artistas, reunindo cerca de 130 obras contemporâneas e de acervo histórico. A mostra reflete a relação da arte com a região do Vale, dando protagonismo aos ritos, às pessoas e à cultura local. “Aqui está a paisagem de antes, bem como os fluxos contínuos do rio e da estrada de ferro, as aparições, a vida falada, cantada, orada por quem aqui está e pelos que já se foram”, descreveu o renomado pesquisador e curador dessa exposição inaugural, Marcelo Campos.
As visitas guiadas apresentam aos visitantes os três núcleos temáticos da exposição: Folias, Vapor e Milagre. Algumas obras de valor histórico, como “Folia do Divino”, de Djanira, e “Meu limão”, de Beatriz Milhazes, fazem parte do eixo Folias, que celebra os cortejos e as festas populares. Em tom mais sóbrio, a estação Vapor se coloca como uma costura entre expressões culturais, viajando pelos trilhos de ferro que ligam o Vale do Café à Central do Brasil. Ao longo desse caminho, ecoam a voz de Clementina de Jesus, a percussão do Jongo da Serrinha de Madureira e o samba do Império Serrano.
No último espaço, o Milagre nasce das águas do Rio Paraíba do Sul – condutor de mitos, crenças e ritos do Vale. A arte se encarrega de contar a história da aparição de Nossa Senhora da Conceição, da lenda do Caboclo d’Água e da promessa de fartura de peixes representada pela instalação “Puxada de Rede”, de Nádia Taquary. “É uma obra também para provocar a conscientização sobre a despoluição do Rio Paraíba do Sul, e quem sabe esse milagre também possa vir a acontecer?”, indaga, em tom reflexivo, Dudu Soares, assistente pedagógico do museu. A exposição “Chegança”, em cartaz até maio de 2026, ainda reserva obras valiosas, como “Figura só”, de 1930, de Tarsila do Amaral.
SOLTANDO A CRIATIVIDADE

Oficinas de arte e brincadeiras de criança, como pular corda, soprar catavento e correr no pique-pega, fazem parte de uma proposta recreativa e, ao mesmo tempo, educativa, oferecida gratuitamente pelo museu em programações especiais. O espaço dessas oficinas fica no andar inferior ao da exposição, com acesso também por elevador. A psicóloga Mila Pacheco trouxe a filha de 2 anos pela primeira vez e elogia o educativo do museu: “São atividades que minha filha nunca tinha feito e é uma novidade aqui na cidade. As crianças estão muito felizes com esse evento recreativo”. E não são só as crianças, já que os educadores também se divertem ao promover as brincadeiras. “Nós acreditamos que educação e brincar têm tudo a ver. Aqui, a criança vivencia uma escola sem paredes com oficinas educativas”, define o educador Samuel Romano.

Maria Cecília Machado, de 82 anos, presenciou as mudanças que ocorreram no casarão que hoje abriga o Museu Vassouras. Ela lembra em detalhes do passado, inclusive do incêndio que destruiu parte do prédio. Hoje, muito emocionada, ela retorna ao local para conhecer o museu com sua netinha. “Muita lembrança, muita saudade daqui. A capela era uma coisa linda, minha mãe era quem fazia o vestido da santinha. Foi triste demais quando pegou fogo. Mas, hoje, eu vim com a minha neta conhecer o museu, então estou muito feliz, porque a gente não tem muitos lugares para levar as crianças”.
MEMORIAL JUDAICO
Os fundos do casarão ainda reservam uma área externa surpreendente, com café, espaços de convivência e de recreação e um jardim digno de cartão-postal. O projeto paisagístico foi assinado por Roberto Burle Marx, em 1991, em colaboração com Claudia Rosier. A natureza cheia de simbolismos compõe o Memorial Judaico, para lembrar e homenagear Benjamin Benatar e Morluf Levy – dois judeus de origem marroquina, sepultados em 1859 e 1878 no jardim do antigo casarão da Santa Casa de Misericórdia. A coordenadora educativa do museu, Luana Oliveira, resgata a história que deu origem ao Memorial Judaico de Vassouras, em 1992. “Benjamin Benatar vivia aqui na cidade de Vassouras e, quando ele estava no seu leito de morte, disse que queria ser enterrado como um judeu. Mas, nessa época, só havia cemitérios católicos e a alternativa encontrada foi enterrá-lo aqui no jardim da então Santa Casa da Misericórdia, abrindo precedente para enterrar também Morluf Levy”, explica Luana, mostrando as duas pedras tumulares em memória desses dois judeus.
Durante o período em que o casarão era um asilo, o local foi visitado por Egon e Frieda Wolff, um casal de judeus que pesquisava a trajetória judaica no Brasil. Eles publicaram mais de 40 livros baseados em levantamentos feitos em arquivos brasileiros e estrangeiros. Foi assim que descobriram preciosidades, como as lápides judaicas de Vassouras, que passaram a ser monumento histórico do século passado e hoje fazem parte do circuito turístico da cidade.
O paisagismo é composto por nove canteiros em forma octogonal, preenchidos por plantas ornamentais e árvores ciprestes, em formato de cones, que simbolizam a vida eterna. “Os octógonos nos remetem às colmeias, e as abelhas voltam para casa para morrer. Esse ritual tem relação com Benatar, quando desejou voltar às suas origens. São oito canteiros preenchidos e um, ao centro, está vazio, aberto para que cada um possa trazer a sua identidade”, informa Luana, descrevendo o simbolismo da curadoria de Ilana Feldman.
A família do menino João Victor de Oliveira veio de Valença para conhecer o museu. A mãe, Rafaela, elogiou o lugar e disse que o filho é uma criança autista que se interessa muito por arte e história. E ele confirmou essa declaração empolgado: “É muito top aqui, é o melhor lugar que eu já fui na minha vida”, concluiu.
VENHA CONHECER
O Museu Vassouras está de portas abertas, de quinta a domingo, das 10 às 18 horas, com entrada gratuita. Tem visitas mediadas em horários específicos e, para grupos de turistas e escolas, é possível agendar. Confira a programação no Instagram @museuvassouras.
Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band






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Do alto do Morro de São Bento, entre a movimentação urbana e o traçado histórico do Centro do Rio, ergue-se um importante monumento da cultura colonial brasileira: o Mosteiro de São Bento. Fundada em 1590, apenas 25 anos após a criação da cidade, a abadia é testemunha viva da formação histórica, religiosa e artística do país. Os monges beneditinos, que entoam cânticos gregorianos nas missas dominicais, vivem em uma clausura, sem permissão de acesso às mulheres, mas me foi concedida uma exceção e eu detalho minhas impressões nesta matéria.


Dentro da clausura, onde vivem atualmente cerca de 30 monges, há aposentos que se alternam entre a simplicidade e a exuberância. O refeitório, os corredores e ala da enfermaria são espaços funcionais. Já a Capela das Relíquias impressiona por suas paredes em tom verde, esculpidas em relevo revestido a ouro – uma encomenda do Frei Antônio do Desterro, então bispo do Rio de Janeiro. A sacristia também é um lugar que abriga peças de arte, entre elas, ao centro de um majestoso altar, a principal pintura do Frei Ricardo do Pilar, denominada “Senhor dos Martírios”.
Sigo a conhecer os ambientes da clausura e, na escada, me deparo com janelas que mais parecem quadros da bela vista do Rio de Janeiro. Algumas paredes chegam a medir quase três metros de espessura, uma verdadeira fortaleza. Da sacada, tenho ampla visão da Baía de Guanabara, da Praça Mauá, do Museu do Amanhã e da Ponte Rio-Niterói. Para finalizar, um passeio pelo jardim emoldurado pelos arcos do mosteiro, um verdadeiro recanto de paz em meio à natureza, em pleno Centro da cidade. O caminho é sobre as lápides sepulcrais em que os monges são enterrados.
Na chegada ao salão principal, uma sensação de encantamento na medida em que o olhar se ergue, acompanhando o curso das estantes de livros infindáveis, arrematadas por bordados de ferro, que apontam para um misto de luzes dissipadas de uma claraboia e de um lustre suspenso a quase 30 metros de altura. Projetado pelo arquiteto português Rafael da Silva Castro, o prédio em estilo manuelino evoca a Era dos Descobrimentos, com inspiração no Mosteiro dos Jerónimos, em Portugal. Os desavisados chegam a confundir o lugar com uma catedral. Há quem passe pela porta e até se benza. É compreensível, pois o Real Gabinete Português de Leitura mais parece um verdadeiro templo sagrado dos livros. “Diferente de qualquer biblioteca em que já estive, ainda um bocado espantado com tudo que vejo, é algo de outro mundo”, descreve o visitante Afonso Couto, olhando ao redor.
O reconhecimento como a oitava biblioteca mais bonita do mundo faz parte do ranking de 2025, promovido pelo 1000 Libraries Awards, da fundação internacional 1000 Libraries. Tombado pelo Instituto Estadual de Patrimônio Cultural (Inepac), o Real Gabinete Português de Leitura também foi eleito como a mais bela biblioteca oitocentista do mundo. A inauguração desta sede foi em 1887 e contou com a presença da princesa Isabel. Quem assegura isso é Francisco da Costa, presidente há oito anos do Real Gabinete Português de Leitura: “Em 10 de junho de 1880, época da comemoração dos 300 anos de Camões, D. Pedro II lançou a primeira pedra na construção deste prédio, cuja obra terminou em 1887. Mas quem inaugurou o Real Gabinete Português foi a princesa Isabel”.
lém de guardar verdadeiras obras-primas da literatura, que datam desde 1520, o Real Gabinete é considerado uma biblioteca-museu, por abrigar também peças de inestimável valor histórico, como documentos preciosos da colonização portuguesa. É possível agendar uma visita guiada para explorar todos os pavimentos e se encantar com verdadeiros tesouros artísticos. Há telas de grande importância, como as obras do pintor português José Malhoa: O Descobrimento do Brasil e O Sonho do Infante. O busto de Camões é uma peça imponente localizada na Sala de Leitura, assim como o Livro de Ouro – uma homenagem a Eduardo de Lemos, presidente do Real Gabinete entre os anos de 1878 e 1882. A respeito dele, Gilda Santos, vice-presidente cultural do Real Gabinete Português de Leitura, comenta: “Eduardo de Lemos investiu neste imóvel e conseguiu angariar fundos para a sua construção. Na inauguração, ele já não era mais o presidente, mas seus amigos fizerem este álbum com autógrafos e dedicatórias para homenageá-lo”.
Em meio à agitada rua São Clemente, encontra-se este imponente marco histórico do Rio de Janeiro. Entre com a gente por seus jardins e venha conhecer esta verdadeira obra de arte arquitetônica.



Projeto de revitalização do Jardim de Alah





O Espaço Inovação conta com laboratórios de tecnologia e recebe exposições, como a mostra “Trabalhadores”, de Sebastião Salgado.











