ZICA ASSIS
BELEZA QUE INSPIRA

No estúdio da Revista Manchete, Zica Assis bateu um papo emocionante com Mariana Leão

Heloísa Helena Belém de Assis, conhecida como Zica Assis, é sinônimo de empreendedorismo, inovação e valorização da autoestima. Mulher de origem pobre, vítima de preconceito, teve na sua própria história motivação para mudar a vida de milhares de outras. Com reconhecimento nacional e internacional, Zica hoje é considerada uma das principais referências inspiradoras do empreendedorismo brasileiro. Criou uma fórmula de sucesso e fundou o instituto Beleza Natural, em 1993, que, com o reposicionamento da marca, passou a se chamar Beleza – considerada a maior rede especializada em cabelos crespos e cacheados do país.

Atualmente, o Beleza conta com 37 unidades, entre lojas próprias e franquias, em cinco estados brasileiros, além de uma fábrica, a Cor Brasil Cosméticos, empregando cerca de 1.500 colaboradores. A marca vai além de serviços e produtos, promovendo autoestima, acolhimento e felicidade para mais de 100 mil clientes atendidos mensalmente.

Zica acumula importantes prêmios, como Empreendedora do Ano e Mulher Mais Influente do Brasil em Empreendedorismo, e marcou presença na lista das Mulheres de Negócios Mais Poderosas do Brasil da revista americana Forbes. Pioneira, sua empresa integra a Endeavor desde 2005 e se destaca também pelo impacto social, valorizando o primeiro emprego e a formação profissional. Com mais de 30 anos de atuação, o Beleza reafirma seu papel como referência em inovação e diversidade. Conheça, nesta entrevista, a trajetória inspiradora de Zica Assis.

Vamos começar falando da Zica, que, muito novinha, começou a trabalhar para ajudar a família?

Eu venho de uma família muito humilde, de 13 irmãos. Morávamos no Catrambi, uma comunidade na Tijuca, e tínhamos que trabalhar para ajudar a sustentar os mais novos. Vivíamos num barraquinho com dois cômodos, todo mundo junto, mas ali tinha amor e união. Quando completei 9 anos, a minha mãe me levou para conhecer a patroa e, assim que ela me viu, fui proibida de entrar na casa dela por causa do meu cabelo. Foi pesado, porque eu amava o meu cabelo e minha mãe disse que eu tinha que cortar. Aí eu cortei, alisei, perdi a minha identidade, e no dia seguinte estava lá trabalhando, cuidando de uma criança de 5 anos. Eu não entendia o porquê de ter que cortar e alisar o meu cabelo para poder trabalhar, não tinha uma resposta, ninguém me falava. Eu passei a minha adolescência inteira com aquela dor que só eu sei.

Foi por isso que você decidiu fazer um curso de cabeleireira aos 21 anos?

Sim, nessa idade eu percebia que as pessoas já estavam me procurando: “Cadê a Zica?”. A Zica que lava a melhor roupa, que faz a melhor faxina, que passa a melhor roupa, e isso me deu a garantia de que eu tinha feito o meu trabalho bem e que merecia ir em busca de algo maior. Fiz o curso na paróquia da minha comunidade, gratuitamente. Eu fui em busca de entender por que o meu cabelo era tão crespo, por que crescia para o alto, por que as pessoas não o respeitavam. No curso, na verdade, eu queria encontrar essas respostas. Aprendi tudo o que uma cabeleireira faz, mas não pensava em trabalhar com isso. Então, veio uma luz dizendo: “Faça e busque o que você quer”. Naquela época, o mercado só oferecia alisamentos, e eu não queria mais aquilo. Cortei meu cabelo curtinho para deixar o natural e comecei a buscar algo que pudesse amaciar. Não encontrei, mas lá no curso tinham representantes comerciais que vendiam produtos, e eu os convenci a trazer alguns que eram matérias-primas em forma de pozinhos, porque eu queria fazer misturas.

Além de seus salões, a empresária comercializa linhas de produtos para cabelos crespos e cacheados

E foi assim que nasceu a fórmula de sucesso que mudou a vida de milhares de mulheres?

Foi assim que começou. Eu levei para casa esses pozinhos, peguei a colher de pau e misturei várias coisas. Aplicava no meu cabelo e, claro, aconteciam erros. O cabelo caía muito, mas eu não desisti. Todo mundo falava que eu era louca, até a professora do curso não me dava bola. Foi quando entendi que precisava estudar mais. Peguei meu irmão, que era black, comecei a treinar no cabelo dele até chegar numa formulação base, e não caiu mais. Passei a aplicar em mim e foi dando certo, e eu chamei a atenção das pessoas da comunidade. As mulheres perguntavam o que eu estava usando e foi aí que descobri que tinha desenvolvido um produto. E todo mundo queria.

Em 1993, você abriu o seu próprio salão chamado Beleza Natural, com uma proposta inovadora para cabelos crespos e ondulados. Que lembranças você guarda dessa época?

Nós abrimos o Beleza Natural numa casinha de mais de 100 anos, no fundo de quintal, na Muda, que é um lugarzinho pequeno na Tijuca. Eram dois cômodos, muito humildes, mas ali havia o quê? Um nicho de mercado esquecido, um produto inovador que ninguém tinha, e aí foi um sucesso. Explodiu o Beleza Natural. Só que, para eu chegar até o meu salão, esperei dez anos. Não foram dez meses, foram dez anos! Esse foi o tempo que eu levei para desenvolver a minha alquimia até o registro chegar na minha mão. Não foi fácil, muita gente teria desistido. E quando o registro finalmente chegou, eu abri o salão.

E o sucesso foi tanto, que tinha fila na porta com senha, três horas antes de abrir as portas.

Sim, filas enormes. Todo mundo queria aplicar o produto no salão. Para mim, a coisa mais linda que aconteceu foi atender as pessoas da minha comunidade. Mas, quando eu vi, não estava atendendo só elas… Vinha gente da Tijuca, de outras cidades, de outros estados. A fila se formava às 5 da manhã e o salão só abria às 8 horas. As novas unidades reuniam mais de 100 pessoas lá dentro, por isso tivemos que começar a distribuir senhas, que fazem parte do Beleza até hoje. A marca cresceu, abrimos mais duas filiais em dois anos, e não paramos mais. Hoje, são 37 unidades de negócio, entre lojas próprias e franquias.

O Beleza impressiona por sua ascensão comercial com impacto social ao longo desses 32 anos. Hoje, conta com 1.500 colaboradores, a maioria mulher, não é?

É lindo demais, porque no Beleza elas se encontram. Damos oportunidade do primeiro emprego. Mais de 90% da nossa força de trabalho é formada por mulheres, que aprendem uma profissão e encontram a identidade delas. Temos parceria com universidades, para que elas se capacitem mais. Muitas delas entram fazendo cabelo, limpeza, e chegam a gerente comercial. Elas começam a se olhar, a melhorar o seu desempenho, a vida da família, dos filhos… Mexe com tudo, com toda a vida.

Pode citar um exemplo de alguém que tenha crescido profissionalmente no Beleza?

A Roberta tem uma história muito linda. Ela foi contratada como auxiliar de serviços gerais na empresa. Sempre muito caprichosa, mas não levantava o olhar, era envergonhada. Eu falei: “Nossa, essa menina tem potencial”, e comecei a mostrar a importância dela naquele lugar. Ela virou para mim e perguntou se poderia levantar, como quem diz “era proibido levantar a cabeça”. Roberta, então, entendeu que podia ir além e começou a estudar, a se interessar por outras áreas, e foi para o centro técnico. E sabe onde ela está hoje? Em Vitória, no Espírito Santo, como gerente comercial de uma unidade do Beleza.

Você também coleciona lembranças lindas com suas clientes. Qual a primeira história que vem à sua mente?

A transformação da mulher acontece quando ela descobre o poder dela. Eu lembro de uma cliente que estava casada há mais de 20 anos, e usava uma peruca porque tinha vergonha de seu cabelo. O marido elogiava muito o cabelo dela, só que ele não sabia que era peruca. Como ela conseguiu esconder, eu não sei. Então, essa cliente foi em busca do Beleza porque já não aguentava mais isso. Foi no salão de Jacarepaguá, e toda a equipe sabia da história dela. Ela chegava com a peruca, tirava, fazia o cabelo e botava a peruca de novo, porque o marido ficava no carro esperando. Aí teve um dia que, ao terminar de fazer o cabelo, quem entra no salão antes de ela colocar a peruca? O marido! E sabe o que ela falou para ele? Encheu o peito e disse: “Eu sou assim!”. Ele a abraçou, e nós vimos uma lágrima. Eu e a equipe nos emocionamos muito. Sabe quando um homem olha para uma mulher com amor? A reação dele foi essa. Foram 20 anos guardando esse segredo e, naquele dia, ela se libertou.

Zica Assis palestrando na Expo Favela 2025

Vendo o seu ponto de partida e onde chegou, o que você pode dizer para crianças, adolescentes e mulheres que ainda não se libertaram para assumir com orgulho a sua beleza natural?
Eu falo que passei por isso na minha infância, na escola. O meu cabelo era chamado de Bombril, e incomodava as pessoas, até a professora. Eu nunca sentei na frente porque ela dizia que o cabelo atrapalhava. Tinha que sentar lá atrás. Naquela época, era tudo muito silencioso. Mas hoje, quando a gente consegue botar para fora, recebe o apoio da mãe, do pai, das pessoas. Atualmente, você vê quanta gente que se assume dizendo: “Sou eu e pronto”? Com o black ou do jeito que quiser. Eu sou uma mulher que passou por preconceitos, mas acreditei em mim. Porque não é só o cabelo. O cabelo levanta a autoestima, sim, mas dentro de você tem força, tem energia dizendo para se garantir. Seja você mesma!

Zica, por todos esses motivos, você é a capa desta edição, e sabemos que você tem uma memória afetiva com a Revista Manchete.
Eu fui empregada doméstica e lia a Manchete, porque ganhava as revistas antigas dos patrões. Eu levava os exemplares para o meu salão, e hoje estou aqui, sendo capa! A vida é como uma escada. Acredito que a gente tem que subir cada degrau e olhar para trás para saber qual é a nossa base, para que não se perca nessa subida. Hoje, eu olho para o meu passado e digo que é uma honra muito grande estar aqui.

 

GOLFE & FEIJOADA
PARA CELEBRAR MAIS UMA EDIÇÃO

Em um ambiente descontraído, com música ao vivo e a vista do entardecer do Campo Olímpico de Golfe, empresários, colunistas, artistas e uma rede de amigos prestigiaram a festa de lançamento da segunda edição da Revista Manchete.

A ocasião festiva, em 31 de maio, foi a oportunidade para o encontro de pessoas que, assim como a Revista Manchete, enxergam o Rio como uma grande vitrine, além de um ambiente favorável para investimentos em diversos segmentos. A união desses representantes das iniciativas público-privadas tem possibilitado o avanço na economia e a melhora na qualidade de vida, tanto para os que vivem aqui quanto para os que visitam o estado do Rio de Janeiro.

Marcos e Natalia Salles

“É muito importante para a Revista Manchete essa retomada. Temos a oportunidade de falar dos empresários e de todo esse empenho que o Rio tem realizado para ressurgir com a sua força e capacidade” , ressaltou o presidente da Revista Manchete, Marcos Salles. E, em um gesto de homenagem, entregou a Camila Farani a capa da segunda edição enquadrada.

 

Camila Farani, após, posou para foto com o empresário Alexandre Accioly, capa da primeira edição

“Eu não tenho como expressar essa emoção em ser capa da segunda edição da revista. Eu não poderia estar mais feliz, não somente como carioca, mas como empresária brasileira. Esse homem (Marcos Salles) é um super empreendedor e, além disso, é um guerreiro por colocar a Revista Manchete novamente no mercado.”

Assim como a feijoada servida na festa é uma tradição carioca, a Revista

Fábio Ramalho e sua mãe Marluce

Manchete também é uma referência para o mercado editorial do Rio e ainda mantém alguns traços de sua origem, como o fotojornalismo. Porém, o atual periódico tem uma apresentação moderna, em formato multiplataformas. O leitor pode acessar os vídeos por meio do QR Code localizado ao final de cada matéria ou assistir ao programa pela TV Max, todas as segundas-feiras, às 20h, e ainda navegar pelo site e pelas redes sociais para ficar por dentro das novidades. A nova Manchete tem o propósito de continuar a escrever histórias que encantam e são compartilhadas.

Germana Puppin, Nathalia Gomes, Nilton Rechtman e Carlos Martins
Carlos Favoreto, Marcos Salles e o deputado federal Eduardo Pazuello

 


Descortinamos o palco que já recebeu os maiores artistas do mundo em espetáculos de dança, música, ópera e artes cênicas. Apresentamos em detalhes o exuberante Theatro Municipal do Rio de Janeiro, que, com seus 115 anos, preserva valiosas obras de arte, conta com uma programação diversificada e hoje é considerado um espaço mais democrático.

Na Cinelândia, Centro do Rio, está localizado o prédio do Theatro Municipal, impactante por sua arte eclética em estilos clássico, barroco, art nouveau e Luís XV, cravejado por magníficos vitrais alemães e com uma águia dourada na cúpula, pesando 350 kg, com 8 mil folhas de ouro de 23 quilates.Sua fachada, com seis imponentes colunas de mármore, elevam o olhar do público ao encontro das musas da poesia, da música, do canto, da dança, da comédia e da tragédia.  

O Theatro Municipal do Rio de Janeiro é considerado a principal casa de espetáculos do Brasil e uma das mais importantes da América Latina.
A foto é de 1910 e é creditada a Augusto Malta

O prédio foi inaugurado em 14 de julho de 1909, quatro anos e meio após o início das obras. Os arquitetos Francisco de Oliveira Passos, filho do prefeito Pereira Passos, e o arquiteto francês Albert Guilbert venceram o concurso e projetaram o teatro. A proposta de Guilbert teve inspiração na Ópera Garnier, a Ópera de Paris, do século XVII. Adornos da sala de espetáculos, fachada e áreas de circulação foram criados pelos mais importantes pintores e escultores da época, como Rodolpho Amoedo, os irmãos Bernardelli e o impressionista Eliseu Visconti. Também foram recrutados artesãos europeus para a produção dos vitrais e mosaicos. Desde a sua inauguração, o teatro passou por quatro grandes reformas (1934, 1975, 1996 e 2008) e permanece bem conservado, preservando a beleza das obras originais.  

Pinturas representando as culturas clássicas de países como Hungria, França e Espanha

Em entrevista à Revista Manchete, a historiadora e presidente do Theatro Municipal do Rio, Clara Paulino, conta que venceu o desafio de aumentar a frequência do público ao teatro quando passou a oferecer apresentações gratuitas e visitas guiadas com propostas educativas. Além disso, difunde o conhecimento cultural com exposições itinerantes e o Projeto Escola, que alcança 1.800 alunos da rede pública de diferentes municípios. Nessa proposta, o material é enviado ao professor com dois meses de antecedência para que o conteúdo possa ser trabalhado em sala de aula.

“Quando eles vêm aqui, já conhecem a história do espetáculo, do compositor e do teatro, compreendendo melhor as informações. Quando saem, ainda levam uma cartilha educativa para falarem sobre o que aprenderam em casa”, explica Clara.

A escadaria do Theatro Municipal, além de cenário para belas fotografias, também é palco de apresentações da Ópera ao Meio Dia

A escadaria do teatro é o lugar preferido para aquela foto de recordação, justamente onde acontece, todas as terças-feiras, o projeto Ópera ao Meio Dia, uma apresentação gratuita de grandes títulos de óperas encenados pelos corpos artísticos do Theatro Municipal. Cada canto do teatro é um lindo cenário para apresentações culturais. O Boulevard de Portas Abertas é outro projeto de música, programado para as quartas-feiras, a partir das 17 horas, na lateral do prédio, na avenida Treze de Maio.

O calendário deste ano conta com as apresentações oficiais e com os espetáculos de permissionários, como o balé A Floresta Amazônica e a opereta Viúva Alegre, exibidos recentemente. No mês de maio, entrou em cartaz o balé O Lago dos Cisnes. Em junho, as portas do teatro se abrem ao concerto Música Brasileira em Foco e, em julho, será o mês da ópera, contando com uma programação especial para comemorar o aniversário do teatro.

Com mais de um século de história e tradição, o Theatro Municipal conta com um centro de documentação, o Cedoc, responsável pela guarda e catalogação de um acervo de cerca de 70 mil peças, documentos e registros históricos. Além da responsabilidade cultural, a fundação atua na formação de profissionais com a Escola Estadual de Dança Maria Olenewa, uma das mais tradicionais companhias de balé do Brasil. 

 

A EXUBERÂNCIA DA SALA DE ESPETÁCULOS

Quem entra pela primeira vez não se esquece do sentimento de admiração por tamanha conjuntura artística. Com 2.212 assentos, a sala de espetáculos é dividida em quatro andares: plateia, balcão nobre, balcão superior e galeria. Raros são os momentos em que pode ser visto o pano de boca de 192 m2, intitulado A influência das artes sobre a civilização. Essa relíquia é considerada uma das cinco maiores telas do mundo, pintada por Eliseu Visconti, em Paris, em 1907. O artista brasileiro também executou os trabalhos de decoração do teto e do friso do proscênio.

Outra peça de grande valor é o lustre central da sala, com 118 lâmpadas, ornado com vidros ingleses e cristais belgas. Para maior preservação, ele passa por um ritual de descida apenas duas vezes ao ano, momento em que é realizada a manutenção e troca das lâmpadas.

O pano de boca pintado por Eliseu Visconti. Com 192 m2 está entre as cinco maiores telas do mundo.

São mais de 30 mil visitantes por mês, com a oferta de projetos, visitas guiadas e apresentações. O Theatro Municipal  conta com seu próprio corpo artístico, composto por orquestra sinfônica, coro e balé.

MÚSICA NO ASSYRIO

No subsolo do teatro está o Salão Assyrio, um lugar repleto de história. Já foi cabaré, palco de grandes bailes de máscaras, abrigou um restaurante frequentado pela alta sociedade carioca e recebeu apresentações do grupo Os Oito Batutas, com o mestre Pixinguinha.

Os três vitrais principais representam as artes da música, do teatro e da dança

Atualmente, esse espaço é destinado a visitas guiadas e ao projeto Música no Assyrio, que oferece temporadas de concertos quinzenais aos domingos. Um lugar repleto de arte, com frisos, luminárias e estátuas inspiradas na antiga cidade de Persépolis e na cultura babilônica. O salão possui colunas que terminam com cabeças de touro, em estilo assírio. As portas trazem molduras de pedra gravada com margaridas, a flor sagrada da antiga Mesopotâmia. A decoração recebe os imponentes frisos dos leões, dos seres alados babilônicos e dos arqueiros da sala do trono de Dario I.

É possível conhecer as dependências do teatro, incluindo os bastidores, com uma explicação imersiva pela história da arte, bem como agendar a “visitas brincadas”, ou, ainda, a “visita game”, dedicada ao público jovem. Basta entrar no site oficial do Theatro Municipal e conferir o cronograma regular.

As visitas guiadas ao Theatro Municipal podem ser agendadas pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (21) 2332-9227.

 

 

Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band.

 

 

 

 

 

Em uma tarde quente, típica do verão carioca, reluz o brilho das fantasias, ecoa em grito forte e exaltado o samba enredo da escola e extravasa a energia pulsante do povo que faz o carnaval acontecer. Um ambiente que pode até ser chamado de habitat para quem vive dele e descreve como ninguém o carnaval carioca.

Considerado a figura mais emblemática da maior festa popular brasileira, Milton Cunha esbanja carisma e conhecimento em seus comentários para a televisão. E entre uma entrada ao vivo e outra, ele retribui o carinho do público, dança, chacoalha as plumas e para tudo em atenção à Revista Manchete.

Naquela conversa rápida antes de iniciar a entrevista, percebo sutilmente que tinha algo de errado e perguntei ao Milton se ele estava bem. Com um suspiro profundo, ele mudou o semblante, resgatou o seu mais largo sorriso fazendo reluzir seus olhos verdes no tom da sua fantasia e me disse que estava pronto para gravar. Ali eu vi que ele realmente consegue se condicionar para transformar a energia e colocar em prática os seus próprios conselhos.

O que muito explica também a forma como encarou e ressignificou a sua própria história, inicialmente marcada por fome, abuso sexual por parte do seu próprio pai e rejeição da família por conta da sua sexualidade. De onde vem essa força que o impulsionou ao outro extremo da vida com tamanha resignação?

“Nossa, eu sou felicíssimo porque eu fiz da minha vida tudo que eu queria. Eu projetei estar aqui sentado neste palco, dando esta entrevista, porque eu queria a comunicação, eu queria o microfone, a possibilidade de falar da arte. Então, passei fome, lutei, peguei pau de arara. Não importa, eu estava edificando a minha individualidade, o meu futuro. Então, chegando aqui, estou confortável, belíssimo na minha pele.”

Além de comentarista do carnaval brasileiro, Milton Cunha também é psicólogo e cursa o terceiro pós-doutorado, aprofundando cada vez mais suas pesquisas científicas sobre a estrutura narrativa das escolas de samba e da cultura brasileira. A paixão pela arte popular e pela simbologia dos adereços o acompanha desde sempre.

“Eu adoro enfeites. Quando criança, eu amava botar flor na cabeça, usar cores extravagantes, a minha alma é enfeitada. Então, eu sou aquela criança esquisita, muito pintosa, muito boneca e tal. Eu cresço, vou pro teatro – isso me possibilita o brilho e a luz que eu adoro. Quando eu chego ao Rio para trabalhar com diversão, entretenimento, moda, aí a estampa entra na minha vida e nunca mais sai.”

Ele se intitula o “Rei da Folia”, diz que adora um “ziriguidum”, uma “fuzarca”, mas também carrega o peso e a responsabilidade de ser o porta-voz da maior vitrine cultural que o Brasil tem perante o mundo. O desfile das escolas de samba recebe celebridades, autoridades e turistas internacionais, além de ter se tornado patrimônio artístico copiado em Londres, no Japão e na Suíça. E a essência desse carnaval made in Brazil qual é?

“É a nossa gente! Eles têm o talento, são as verdadeiras estrelas. Quando você coloca um tema enredo, eles sabem compor, cantar e dançar com suingue. É uma forma deles ocuparem a Marquês de Sapucaí, e dizer: ‘Olha, nós não produzimos só notícia ruim, a gente produz arte, a gente tem beleza e sabe fazer o carnaval.’ Aí os gringos apontam para a nossa saúde precária, para os barracos, para o trem lotado e o povo explica: ‘A gente não faz carnaval porque a vida é boa, mas porque a vida tem que melhorar.’ Tem que subir e descer o morro do Rio de Janeiro para entender.

Rico, pobre, gordo, magro, todos cantando juntos, exibindo as mais diversas formas de expressão artística, resultado de um ano de trabalho, entregando o melhor em uma festa democrática que tem sempre um vencedor certo: o povo brasileiro.

“É isso. O guarda-chuva das escolas nivela os 5 mil. Se o empurrador de carro não empurra, a senhora dona de banco riquíssima, não vai desfilar. Então, esse modelo democrático é um momento de patriotismo. Imagina se o Brasil se junta e faz valer a nossa bandeira? Imagina!”

As pessoas se reunem ao redor da entrevista, acenam com a cabeça em sinal de concordância e o aguardam ansiosas por um abraço e uma selfie. Eu me despeço, agradecendo por essa conversa inspiradora.

“Quantas páginas e capas da Revista Manchete eu tenho guardadas, porque a gente via o mundo através da Manchete. Então, que bom, desejo sucesso, anos de glória! É um orgulho para o povo brasileiro ter a Manchete de volta!”