AQUAVIÁRIO
O FUTURO DA MOBILIDADE NA BARRA

O QUE HOJE É UM CARTÃO-POSTAL ESQUECIDO ENTRE AVENIDAS E CONDOMÍNIOS, EM BREVE SERÁ ROTA DE MILHARES DE PASSAGEIROS. O CONSÓRCIO LAGUNAR MARÍTIMO VAI IMPLANTAR UM SISTEMA DE BARCOS QUE LIGARÁ BARRA, JACAREPAGUÁ E RECREIO, INTEGRANDO-SE AO METRÔ E AO BRT – E AINDA PRETENDE RECUPERAR O ECOSSISTEMA DAS LAGOAS.

Atrás dos arranha-céus da Barra da Tijuca, há um cenário de rara beleza: canais sinuosos, aves sobrevoando, jacarés deslizando pela água e um sistema de lagoas que conecta Barra, Jacarepaguá e Recreio. É nesse território que ganha forma o Aquaviário – Consórcio Lagunar Marítimo, projeto que promete mudar o transporte na Zona Sudoeste e devolver vida ao chamado “Pantanal Carioca”.

À frente da iniciativa, estão o empresário Sávio Neves e o engenheiro Carlos Favoreto. Sócios na Lagunar Marítima, eles obtiveram a concessão para explorar o transporte público aquaviário do complexo lagunar. “É um privilégio poder aproveitar essa geografia das cinco lagoas. Quando o projeto estiver maduro, queremos transportar 85 mil pessoas por dia, com qualidade, conforto e segurança”, explica Sávio.


O plano inicial prevê oito linhas e 11 estações espalhadas pelas lagoas da Tijuca, de Jacarepaguá, do Camorim e de Marapendi. Mas a demanda local é tanta que a expansão já está sendo calculada. “Devemos aumentar para cerca de 40 pontos, acompanhando o crescimento da população e o surgimento de novos polos de atração”, antecipa Favoreto.

A estimativa de ganho em tempo é impressionante. O trajeto entre o BarraShopping e o Rio das Pedras – sub-bairro de Jacarepaguá –, que hoje pode levar até uma hora e 40 minutos, será feito em cerca de 20 minutos. “Quando eu falo isso, as pessoas duvidam. Mas o projeto é real, o investimento está sendo feito e já é uma realidade”, garante o engenheiro. Essa será uma das primeiras ligações em operação.


O novo sistema não concorre com o que já existe: ele se integra ao metrô, ao BRT e ao futuro VLT, criando um corredor contínuo entre o Jardim Oceânico, a Linha Amarela e bairros cortados pelas lagoas. “O usuário vai poder sair do metrô, embarcar num barco e seguir para casa. O principal eixo de integração será o Jardim Oceânico”, detalha Sávio.

As estações terão bicicletários, estacionamento e ligação com ônibus de condomínio, estimulando a mobilidade sustentável.

Para atender à meta, o consórcio prevê uma frota de cerca de 90 embarcações, a maioria com 42 lugares e algumas com até 94. Embora o edital previsse investimento de R$ 105 milhões, o valor final deve ultrapassar R$ 200 milhões, considerando obras, dragagens e infraestrutura. Além dos dois empresários, uma construtora de grande porte integra a sociedade. “As receitas acessórias, como turismo, eventos e comércio nas estações, serão essenciais para equilibrar esse investimento expressivo”, explica Sávio.

O grupo já trabalha em parceria com engenheiros navais da COPPE-UFRJ e consultores internacionais para definir o tipo de embarcação ideal – catamarã ou monocasco, motor central ou elétrico. Paralelamente, o consórcio estuda soluções para gargalos antigos, como a ponte que liga as lagoas de Jacarepaguá e Camorim, construída nos anos 1980 e hoje insuficiente até para pedestres. A readequação dessa travessia será crucial para ligar o metrô à Cidade do Rock e ao Riocentro.

O cronograma oficial da concessão prevê 36 meses até a operação plena, mas os sócios querem antecipar. “Pelo menos, o trecho BarraShopping-Rio das Pedras e parte da Lagoa da Tijuca deverão começar a funcionar até o fim do ano que vem”, diz Favoreto. A sede do consórcio, na Avenida das Américas, concentra engenheiros e especialistas em operação e meio ambiente. “Já passamos da fase do desafio. Agora é execução. Trabalhamos exaustivamente para que o projeto saia do papel”, afirma Sávio.

O MEIO AMBIENTE
TAMBÉM SAI GANHANDO
A proposta vai além da mobilidade. O Aquaviário traz também uma visão ambiental integrada, considerando o impacto positivo sobre o complexo lagunar, formado por cerca de 12 milhões de m2 de espelho d’água. As lagoas, que ainda sofrem com lixo e esgoto, poderão ganhar nova vitalidade com o aumento da circulação, dragagens pontuais e a presença constante de embarcações. “A partir do momento em que o cidadão começa a usar as lagoas, ele também passa a fiscalizar e cobrar mais cuidados. É um ecossistema vivo, que precisa ser visto e valorizado”, observa Favoreto.

O consórcio pretende adotar embarcações elétricas e híbridas e até turbinas sob os cascos capazes de filtrar e oxigenar a água a cada travessia. Além disso, a empresa já fez a batimetria (mapeamento da topografia subaquática) de toda a área e planeja intervenções que melhorem o fluxo entre Tijuca, Jacarepaguá, Camorim e Marapendi. “Nosso projeto engloba todo o sistema lagunar e contribuirá para o seu reequilíbrio natural”, afirma o engenheiro.

Durante a semana, o foco será o transporte de quem hoje depende de carros e ônibus de condomínio. Nos fins de semana, as linhas também funcionarão para passeios turísticos, fortalecendo o comércio e a gastronomia local. “As pessoas viajam horas para ver paisagens como as que temos aqui. Agora, poderão redescobrir o Rio de Janeiro a partir das águas”, destaca Sávio.

O empresário vislumbra ainda uma cena futurista: moradores saindo de barco de condomínios, como Alphaville ou Rio Mar, e desembarcando diretamente no aeroporto de Jacarepaguá. “É um projeto que une mobilidade, turismo e sustentabilidade. Quanto mais estudamos, mais entendemos o quanto ele pode transformar a vida de quem vive na Zona Sudoeste”, resume.

O Aquaviário, enfim, surge como símbolo de uma nova etapa para a Barra: um bairro que nasceu olhando para o asfalto e agora volta o olhar para suas águas. Um convite à reconexão – com a cidade, com o tempo e com o próprio ambiente em que vivemos.

Marcos Salles é jornalista e presidente da Revista Manchete

PRODUZIR MAIS COM MENOS

AÇÕES IMEDIATAS PRECISAM SER TOMADAS PARA EVITAR QUE A FOME ALCANCE 1 BILHÃO DE PESSOAS NAS PRÓXIMAS DÉCADAS. EQUILIBRAR A BALANÇA ENTRE MEIO AMBIENTE E PRODUÇÃO DE ALIMENTOS APARECE COMO O MELHOR CAMINHO, MAS TAMBÉM COMO O PRINCIPAL DESAFIO PARA FREAR ESSA GRAVE REALIDADE. PARA DEBATER O ASSUNTO, CONVERSAMOS COM O PRESIDENTE DA PESAGRO-RIO, PAULO RENATO MARQUES.

Ondas de calor, secas, tempestades… Quando falamos sobre as consequências das ações humanas que comprometem o clima, a lista parece não ter fim. Todas elas têm influência no dia a dia, na economia e na mesa das pessoas, trazendo ou agravando problemas como o da insegurança alimentar.

Atualmente, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), mais de 700 milhões de pessoas estão classificadas como subnutridas ou passam fome efetivamente em todo o mundo, o que representa 10% da população do planeta. E esse número tende a aumentar, caso o tema não seja tratado como prioridade, de acordo com Paulo Renato Marques, cientista político, doutor em sociologia e presidente da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro (Pesagro-Rio). “Esse só não será um caminho apocalíptico se realmente passar a ser visto como uma prioridade mundial”, alerta.

2050: 1 BILHÃO DE
PESSOAS COM FOME

Ainda como aponta a FAO, a previsão é de que a população global chegue a 10 bilhões de pessoas até 2050. E a pergunta que surge a partir daí é: como será possível alimentar todo mundo – e isso sem causar mais danos ao planeta? Se soluções urgentes e eficazes não forem colocadas em prática, estima-se que, nesse mesmo ano, cerca de 1 bilhão de pessoas enfrentem a fome.

Estudos divulgados pela organização mostram que 56% da população mundial vivem atualmente em áreas urbanas, proporção que deve chegar a 70% até meados do século. Ou seja, haverá menos pessoas atuando no campo, enquanto nas cidades existirá uma população ainda maior, com mais poder aquisitivo e, consequentemente, maior demanda de consumo. “Isso vai aumentar a desigualdade e a assimetria que a gente encontra hoje na sociedade, o que é um problema sério”, salienta Marques.

Outro ponto que merece atenção é o fato de a produção de alimento em larga escala estar nas mãos de cinco países: China, Índia, Estados Unidos, Brasil e Rússia. Isso significa que esse pequeno grupo alimenta o mundo, e não há indícios de que o quadro mudará nas próximas décadas. Como destaca Marques, essa concentração representa um risco geopolítico relevante, capaz de ampliar vulnerabilidades e tensões em escala global.
O desperdício de alimentos aparece como mais um agravante dentro desse cenário. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ele prejudica a economia global e fomenta a mudança climática, assim como a destruição da natureza e o aumento da poluição. “Se não houvesse desperdício, seria possível alimentar esse contingente de 700 milhões de pessoas”, afirma o presidente da Pesagro-Rio.

”Não há plano B: é preciso produzir alimento para sustentar o mundo e, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente.”

Paulo Renato Marques, presidente da Pesagro-Rio

EMISSÕES DE CO2
DOBRARAM EM 30 ANOS
A emissão de gás carbônico (CO2) aparece como a grande vilã responsável pelo aumento da temperatura global. De acordo com dados do Global Carbon Project (Projeto Global de Carbono), iniciativa científica internacional que monitora os fluxos de carbono na Terra, metade de todo o volume de CO2 emitido nos últimos 150 anos está concentrada nas últimas três décadas. “Esse é um aumento exponencial que precisa ser freado. Essa emissão está relacionada ao aumento da temperatura e, para cada meio grau de elevação, há uma série de consequências, como derretimento de geleiras, alteração na densidade do mar e mudanças no clima de forma geral”, diz.

O Carbon Brief, site do Reino Unido especializado na ciência e nas políticas relacionadas às mudanças climáticas, coloca o Brasil na lista dos grandes poluidores do mundo, ao lado dos Estados Unidos, da China e da Rússia. Mas enquanto nesses países a emissão de CO2 é majoritariamente relacionada ao processo de industrialização, por aqui ela está associada à atividade agropecuária. Para se ter uma ideia, a queima de solo – prática de atear fogo a terrenos para limpar e preparar a terra para o plantio ou a pecuária – faz parte da cultura brasileira, embora já existam técnicas capazes de substituí-la. Há, ainda, a questão do desmatamento e das queimadas, como lembra o presidente da Pesagro-Rio.

Essas questões acabam fomentando o debate entre agro e meio ambiente, colocando-os em lados opostos. Esta, porém, é uma visão equivocada, como defende Marques. “Existe essa discussão, que acho uma insanidade, como se um pudesse viver sem o outro. Não há plano B: é preciso produzir alimento para sustentar o mundo e, ao mesmo tempo, preservar o meio ambiente”, garante.

”Se não houvesse desperdício, seria possível alimentar esse contingente de 700 milhões de pessoas [classificadas como subnutridas ou
que passam fome no mundo].”

Paulo Renato Marques, presidente da Pesagro-Rio

FOCO NA PRODUTIVIDADE
SUSTENTÁVEL
Em resposta a tantos desafios globais, surge a chamada Agricultura 4.0. Essa nova fase do agronegócio se propõe a modernizar as práticas agrícolas com o uso de tecnologias avançadas, como drones, genética de ponta, sensores e controles ópticos, que já vêm sendo incorporadas, principalmente, pelos grandes produtores.


Aliado a tudo isso, deve vir o primordial: o aumento da produção com a utilização de menos recursos naturais. Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que um crescimento de 15% na produtividade poderia colocar fim ao problema da insegurança alimentar. “Importante destacar que estamos falando de aumento de produtividade, e não de área. Isso significa que é necessário aumentar a produção usando menos água, menos terra, menos defensivos, menos fertilizantes, ou seja, menos recursos. Precisamos produzir mais, com menos. Esse é o grande desafio”, afirma.

Estudos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que um crescimento de 15% na produtividade poderia colocar fim ao problema da insegurança alimentar.

Marcos Salles é jornalista e presidente da Revista Manchete

 

ALTERNATIVAS
NO RIO DE JANEIRO

Com 97% da população vivendo em áreas urbanas, o estado do Rio de Janeiro conta com uma agricultura familiar baseada em pequenas propriedades. Para fortalecer esses produtores, a Pesagro-Rio aposta em alternativas que garantam a sobrevivência no campo e a competitividade frente a produtos que vêm de fora.

Uma delas é oferecer conhecimento, tecnologia e equipamentos para a produção de produtos de valor agregado, com qualidade excepcional e reconhecidos, principalmente, dentro do próprio estado. “Nós produzimos 300 mil sacas de café. Minas Gerais, 30 milhões. Então, a gente vai investir em um café gourmet, um café que tenha um diferencial, um nível de competitividade diferente”, explica Paulo Renato Marques.

Com centros estaduais de pesquisa espalhados por todo o estado, a Pesagro-Rio está em constante ascensão. Recentemente, foi inaugurado um laboratório de solos e dois outros estão sendo construídos: um voltado para o café, no Noroeste fluminense, e outro dedicado à uva, no município de Areal. O cultivo da fruta tem sido uma grata surpresa no estado, e a expectativa é de que, em cinco anos, a região se consolide como um destino de turismo enólogo. “O que estamos fazendo com a uva nessa região é uma coisa absolutamente surpreendente. Hoje, quem vai a Areal tem a sensação de estar na Itália ou em Portugal degustando um vinho com qualidade semelhante à desses países europeus”, comemora Marques.

Segurança da mulher
UMA PAUTA ESSENCIAL

Imagine um grande encontro de nomes representativos de diferentes segmentos, mas com um objetivo em comum: a segurança da mulher. Foi o que aconteceu no Seminário Mulheres com Segurança 2025, promovido pela Revista Manchete com o apoio do Detran-RJ. Aqui, você confere os melhores momentos desse evento tão importante.

No dia 16 de junho, reunimos no Sheraton Grand Rio Hotel & Resort cerca de 150 pessoas – em sua maioria, mulheres –, para que possam se tornar agentes de propagação de informações sobre ações preventivas para a segurança feminina em diversos níveis: contra violência doméstica, no trânsito, nas ruas e, inclusive, nos meios digitais. Idealizado por Marcos Salles, presidente da Revista Manchete, o Seminário Mulheres com Segurança 2025 contou com o apoio do Detran-RJ e, na plateia, tivemos entre as convidadas as principais associações que trabalham em prol da mulher, como Cejuvida, Casa da Mulher Carioca, Instituto Nós Por Elas, Instituto Maria da Penha, Livre de Assédio, Sala Lilás e Ligue 180.

Vinícius Farah, presidente do Detran-RJ, destacou a importância de eventos dessa natureza, que unem pessoas para pensar em como ter uma sociedade mais segura. E, quando falamos em trânsito, a

Acima, oficiais do Corpo de Bombeiros

mulher tem um papel fundamental nisso.

 

Vinícius Farah, presidente do Detran-RJ

“Historicamente, ela é mais cuidadosa, cumpre mais as regras, usa mais o cinto de segurança e respeita os limites de velocidade. O seu comportamento mais cauteloso vai influenciar as gerações futuras. Só dessa forma, mudando a cultura, é que vamos ter, enfim, um trânsito que respeite a vida.”

Vinícius Farah, presidente do Detran-RJ.

52,8% da população do estado do Rio é feminina
8,5 milhões de mulheres vivem no estado
39% das mulheres do estado comandam empreendimentos – acima da média nacional, que é de 34%

O presidente do Detran-RJ reforçou que, em um seminário que busca tratar da segurança em suas diversas formas, o grande objetivo é colaborar e inspirar comportamentos pela vida. E foi exatamente o que aconteceu ao longo dos quatro painéis apresentados no salão do Sheraton, tendo como vista as belezas naturais do Rio de Janeiro.

 

DIREITOS QUE PROTEGEM
O primeiro painel do dia abordou a “Segurança Institucional e Jurídica”, trazendo ao palco Heloisa Aguiar, secretária de Estado da Mulher do Rio de Janeiro, e Renata França, desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ). Heloísa abriu o evento com chave de ouro, lembrando que o Rio é o estado mais feminino do Brasil, com mulheres representando 52,8% da população. “Mas, infelizmente, todo dia temos notícias de violência contra elas, de assédio… Hoje, quatro mulheres são mortas por dia no nosso Brasil”, lamentou a secretária.
Por outro lado, Heloísa se orgulha de estar à frente da Secretaria de Estado da Mulher, que foi criada em 2023, e, entre os seus eixos de atuação para a equidade de gênero, há justamente a superintendência de enfrentamento à violência.

“A gente pensa e trabalha em muitas mãos, com a Defensoria Pública, com o Tribunal de Justiça, para conseguir diminuir de fato os casos de feminicídio em nosso estado.”

Heloisa Aguiar, secretária de Estado da Mulher do Rio de Janeiro.

Não foi à toa, portanto, que ao lado dela estava a desembargadora do TJ-RJ. Renata reforçou a importância de fazer as leis valerem: “Nós temos que criar um ambiente acolhedor e propício para que as mulheres se sintam aptas a ter uma rede de apoio e a lutar pelos seus direitos. Buscamos dar condições para que elas tenham coragem de denunciar”.
Renata reforçou que o Tribunal de Justiça conta com programas muito eficientes para dar condição para a mulher sair desse ciclo de agressões. Para finalizar a sua fala, trouxe uma frase de Maria da Penha, cuja história marcou a conquista dos direitos da proteção feminina: “A vida começa quando a violência termina”.

ATITUDES PREVENTIVAS
E quando o assunto é o combate à violência, nada melhor do que ouvir mulheres que trabalham nisso. Então, para o segundo painel (“Segurança Física e Operacional”), recebemos Patrícia Alemany, delegada titular da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo (Deat), e Bianca Neves, major da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), coordenadora estadual do programa Patrulha Maria da Penha.

Acima, Patrícia Alemany, delegada titular da Deat, e a major Bianca Neves, coordenadora estadual do Programa Maria da Penha, e Marcos Salles.

Representando a Polícia Civil, Patrícia trouxe dicas práticas que podem ajudar as mulheres a se defenderem da violência urbana. “Nas ruas, elas precisam antecipar as situações, ficar atentas e acreditar em seus instintos. Devem andar sempre em grupo. E quando forem pegar um transporte, é importante compartilhar a localização com alguém”, ensinou a delegada. Ela também lembrou que é preciso tomar cuidado com a ingestão de bebida alcoólica em festas, porque a mulher acaba se tornando mais vulnerável para um crime sexual.
Já a major Bianca focou na violência doméstica e no feminicídio – que, em 90% dos casos, se deve à ação de companheiros ou ex-companheiros. Desde 2019, com a criação da Patrulha Maria da Penha, policiais capacitados atuam principalmente na confiança dessas mulheres em vulnerabilidade, oferecendo acolhimento a elas.

336.204 mulheres foram atendidas pelo Programa Patrulha Maria da Penha, em cinco anos

821 prisões foram efetuadas no mesmo período

130.000 mulheres estão cadastradas no aplicativo
Rede Mulher

“Só em 2025, já prendemos 100 homens pelo descumprimento de medida protetiva. Ao longo de quase seis anos, chegamos ao número de 900 homens presos.”

Bianca Neves, major da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), coordenadora estadual do programa Patrulha Maria da Penha.

A major destacou que, além de fiscalizar as medidas protetivas, a patrulha faz uma atuação qualificada na prevenção ao feminicídio, realizando palestras, auxiliando outros órgãos e ajudando mulheres em cada passo que dão. “O tempo todo, oferecemos essa proteção integral. Assim, contribuímos na redução da violência doméstica”, concluiu a major.

POR MENOS MORTES NO TRÂNSITO
Mulher ao volante perigo constante? O terceiro painel do seminário, “Segurança no Trânsito”, mostrou que não é bem assim. Para falar sobre o tema, convidamos Patrícia Monteiro, tenente-coronel da PMERJ e superintendente da Operação Lei Seca, e Raquel Diniz, instrutora da Escola Pública de Trânsito e agente da Autoridade de Trânsito da Coordenadoria de Fiscalização do Detran-RJ.

Os moradores do Rio já sabem: não raro, quando o trânsito fica parado, ao longe já se avista o balão da Lei Seca. Mas é por uma boa causa: “Sei que geramos uma fila enorme. Mas é um projeto muito importante, que realmente salva vidas”, explicou Patrícia. Tanto é que, no último relatório sobre segurança viária da Organização Mundial da Saúde, a operação foi citada como uma prática positiva do governo brasileiro, que reduziu as mortes no trânsito em seus 16 anos de existência.

E, no que diz respeito à segurança feminina, a Lei Seca também ajuda: “Por várias vezes, já servimos de refúgio para mulheres que estavam sendo conduzidas por carros de aplicativo, táxis ou mesmo conhecidos que tentavam se aproveitar delas”, comentou a tenente-coronel.
Já para falar da proteção das próprias motoristas, a instrutora Raquel Diniz trouxe algumas recomendações. Mas, antes, sentenciou: “Cada vez mais, percebemos que a mulher é realmente mais cautelosa na direção, inclusive em relação ao conhecimento da legislação de trânsito e às formas de direção defensiva”. Raquel apresentou à plateia diversas dicas para essa defesa no trânsito, e uma delas é bem expressiva para evitar crimes de oportunidade: “Ao chegar perto de casa, a mulher deve olhar bem pelos espelhos retrovisores para ver se não tem alguma pessoa suspeita, principalmente de moto. E o ideal é abrir e fechar rapidamente o portão, de preferência contando com a ajuda de alguém”.

Raquel Diniz, instrutora do Detran-RJ.

“Cada vez mais, percebemos que a mulher é realmente mais cautelosa na direção, inclusive em relação ao conhecimento da legislação de trânsito e às formas de direção defensiva.”

Raquel Diniz, instrutora do Detran-RJ.

– 25% de óbitos no trânsito desde que a Operação Lei Seca foi implementada (comparativo entre 2008 e 2024)

– 38% de vítimas não fatais, no comparativo no mesmo período

60 operações semanais da Lei Seca acontecem no estado do Rio, de domingo a domingo

761 veículos, em média, são fiscalizados ao dia

 

 

OLHO VIVO NO DIGITAL
Já no mundo virtual, as mulheres também precisam se precaver. Para falar sobre isso, encerramos o seminário com o painel “Oportunidades Digitais com Segurança e Prevenção”. Thatiana Martins, especialista em prevenção a fraudes e segurança, lembrou que, também no meio digital, “as mulheres se encontram em estados de vulnerabilidade muito mais fáceis do que os homens, por conta da sociedade patriarcal, da cultura e, talvez, por alguma sensibilidade um pouco maior que elas tenham”.

Thatiana reforçou que, quando mostramos nossa vida nas redes sociais, estamos nos tornando mais disponíveis a golpes. E até mesmo aquele grupo da família no WhatsApp pode servir de isca para os golpistas, porque ali estão salvos os contatos das pessoas mais próximas. “Quando a mulher cai numa fraude, não é só o dinheiro que pesa. Ela destrói a pessoa emocionalmente, psicologicamente, num nível que pode ser irrecuperável”, alertou.
Por esse motivo, a especialista trouxe recomendações para gerar mais proteção no uso das redes sociais e dos aplicativos de mensagens, como fazer verificações de segurança. Você quer saber quais são as outras dicas? Então assista ao conteúdo que preparamos sobre o evento, no QR Code. Você terá acesso a muitos outros dados apresentados pelas palestrantes, deixando um gostinho de quero mais para o Mulheres com Segurança 2026. Que esse seminário possa fazer parte do calendário do estado, por conta de sua rica contribuição à sociedade.

O SEMINÁRIO MULHERES COM SEGURANÇA 2025 REALIZADO PELA SALLES EDITORA E EVENTOS TEVE COMO APOIO:

Algum tempo atrás não existia pedágios e nossas estradas eram bem ruins, passamos por um período do selo pedágio que se mostrou ineficiente tanto na arrecadação como na utilização da verba e chegamos ao formato atual da cobrança da taxa de pedágios, em praças fixas instaladas ao longo das rodovias.

A tarifa de pedágio é uma cobrança que ocorre no mundo todo e aqui no Brasil essa prática é permitida por Constituição, desde que haja manutenção e conservação das estradas, além de oferecer aos usuários serviços como: sinalização, atendimento médico de urgência, transporte por guincho, pontos de descanso seguros, entre outros benefícios.

A Revista Manchete fez um levantamento nas principais rodovias que saem da capital do Rio de Janeiro em direção ao interior do estado. Comparou preços, ouviu um especialista com vasta experiência em logística e solicitou explicações às principais concessionárias sobre esse tema que impacta no custo do transporte de lazer e com finalidade comercial.

Pedágio na Linha Amarela administrada pela empresa LAMsA desde 1997

O levantamento aponta para uma situação em que o valor do quilômetro rodado nas praças de pedágios mais próximas à capital é bem maior do que a média do percurso, caso o usuário utilize todo o trecho da rodovia. Em um raio de 60 km para sair do Rio, o preço médio do quilômetro chega a R$ 0,79 centavos, enquanto que se o usuário utilizar o trecho inteiro da rodovia, o valor cai para apenas R$ 0,23 o km.

Além dessa distorção, existem outras questões como preços que aumentam somente nos fins de semana. Segundo o especialista em logística Delmo Pinho, existem motivos para essas situações, entre os quais, o sistema de praças fixas, que foram inicialmente construídas distantes do início das rodovias. Como na maioria das vezes 70% dos veículos trafegam nas extremidades, onde se concentra a maior infraestrutura da concessionária e não existe cobrança, o motorista que passa da primeira praça de pedágio acaba pagando proporcionalmente a mais do que os demais usuários. Outros problemas citados pelo engenheiro foram contratos antigos, insegurança jurídica, elevado investimento no período das construções com baixo número de veículos em dias úteis.

A cobrança de pedágio no exterior já avançou para um modelo mais justo. O sistema Free Flow, já instalado e aprovado no Brasil, lá fora funciona com a finalidade de gerar a cobrança ideal. Uma antena capta o sinal do veículo quando entra na rodovia principal e uma outra quando retorna à via lateral, com isso, calcula o trecho do deslocamento e gera a cobrança proporcional aos quilômetros rodados. Chegaremos lá?

O QUE É O PEDÁGIO FREE FLOW?

O pedágio Free Flow é um sistema de cobrança que funciona sem a necessidade de cabines nem barreiras físicas. Ou seja, o motorista não precisa parar o veículo para realizar o pagamento. Daí o nome “free flow”, que significa “fluxo livre”.

Esse sistema já é utilizado em mais de 20 países ao redor do mundo, como Estados Unidos e China. A América Latina, o Chile e o Brasil são os únicos países que o utilizam de forma oficial.

1 – A COBRANÇA É REALIZADA POR MEIO DE UMA ESTRUTURA COMPOSTA POR UM PÓRTICO EQUIPADO COM CÂMERAS, SENSORES E ANTENAS
2 – OS EQUIPAMENTOS OPERAM MESMO EM CONDIÇÕES DE BAIXA VISIBILIDADE. NÃO É NECESSÁRIO REDUÇÃO DE VELOCIDADE
3 – A IDENTIFICAÇÃO É FEITA POR MEIO DE TAG OU PLACA.QUEM TEM TAG, O PAGAMENTO É AUTOMÁTICO. QUEM NÃO TEM TAG, DEVERÁ EFETUAR O PAGAMENTO ATÉ 15 DIAS. OS VALORES SÃO CALCULADOS POR SENSORES CAPAZES DE IDENTIFICAR LARGURA, ALTURA E QUANTIDADE DE EIXOS RODANTES

ATENÇÃO: O NÃO PAGAMENTO É CONSIDERADO INFRAÇÃO DE TRÂNSITO

Concessionárias alegam insegurança jurídica, baixo fluxo de veículos durante a semana e imprevisibilidade nos investimentos como fator de taxas de pedágio mais altas

VIA URBANA

Existe o pedágio urbano, apelidado de “imposto do congestionamento”, implantado em Singapura, Londres, Estocolmo e Nova York. Em Londres é cobrado com valores diferentes de acordo com o tamanho do carro, ano de fabricação e até isenção se o carro for elétrico. Todo o dinheiro arrecadado é revertido para melhorar a qualidade do transporte público, demonstrando assim qual o objetivo da cobrança dessa arrecadação. O Rio de Janeiro tem 2 pedágios cobrados em vias urbanas, a TransOlímpica com valor de R$ 0,34 por quilômetro para o trajeto de 23 km e a Linha Amarela, com a cobrança relativa de R$ 0,23 por quilômetro para os 17 km de extensão. Em 2018, a Linha Amarela foi alvo de grande discussão e repercussão nos noticiários. Sob a gestão do prefeito Marcelo Crivella foi criada uma CPI na Câmara de Vereadores, presidida por Jorge Felippe, que apontou um lucro indevido de R$ 1,6 bilhão na concessão.

Obra na serra das Araras avança com construção de viaduto e previsão de 200 desmontes de rochas neste ano

Com um placar de 43 a 0, os vereadores votaram a favor da via ser gerida novamente pela prefeitura com proposta de reduzir a tarifa para R$ 2,00 em sentido único, pois essa seria a taxa necessária para manutenção, segundo estudos da Secretaria de Vias Públicas. Entre idas e vindas do executivo e judiciário, cancelas foram derrubadas e depois retomadas. A LAMSA, concessionária que administra a via, pleiteava uma taxa de R$ 6,00. Quando o atual prefeito Eduardo Paes assumiu, montou um grupo de trabalho que cravou uma conta intermediária, jogando nem para um, nem para o outro e, então, fechou o valor do pedágio em R$ 4,00. A concessionária mantém seus balanços positivos na casa de R$ 50 milhões.

TAXAS EXTRAS

As concessionárias trabalham utilizando suas planilhas de CAPEX (investimentos) e OPEX (operação). As concessionárias realizam grandes investimentos, como é o caso da atual CCR/Rio SP que está alocando R$ 1,5 bilhão na construção de uma nova rodovia no trecho da Serra das Araras e da Ponte Rio Niterói, que depois de tantos anos, vem recebendo grandes investimentos de manutenção pelo desgaste ao longo dos 50 anos.

Outra rodovia no Rio que também causou questionamentos foi a Via Lagos por cobrar valores adicionais nos fins de semana. Segundo a concessionária, foram realizados grandes investimentos para transformar a rodovia de acidentes frontais em uma estrada duplicada e segura, porém em função do baixo fluxo ao longo da semana, a taxa aumenta 66% nos fins de semana para que a operação se equilibre.

Em 2022, foi aprovada a Lei 9.673/22, que proíbe no Estado do Rio de Janeiro a cobrança de tarifa mais cara dos pedágios aos fins de semana e feriados. A lei, que é de autoria do deputado Brazão (União) publicada e sancionada pelo governador Cláudio Castro, não entrou em vigor. Por se tratar de lei autorizativa, adormeceu e não foi implementada pelo Poder Executivo por um motivo óbvio, o estado precisa garantir a proporcionalidade do negócio ou o cumprimento do contrato, logo, se baixar o valor da taxa, a rodovia ficaria com a operação deficitária e o estado teria que pagar a diferença. Para arcar com essa despesa, o estado precisaria apontar de onde viria a receita equivalente no orçamento. Como não existe provisionamento para isso, a ação tanto da ALERJ quanto do governo do estado, segundo nosso entrevistado, foi “jogar para a galera”, por se tratar de algo inviável. A tarifa maior nos fins de semana continua e claro, o usuário está pagando a conta.

TAXAS EXTRAS

Embora muitos concordem com a cobrança de pedágio para que o motorista tenha vias mais seguras e com bons serviços, ainda existe insatisfação nessa relação. A Agência Nacional de Transportes Terrestres, o governo do estado e as prefeituras, realizam poucos movimentos em áreas já caracterizas como espaços privados. O sistema atual de praças fixas, um emaranhado de contratos antigos, direitos e deveres que deixam os usuários em nítida desvantagem quando trafegam por trechos curtos e o valor do pedágio (vide quadro a seguir) causam desequilíbrio no valor do quilômetro rodado. O caso da Rota 116 salta aos olhos, a praça está no quilômetro 2 e o usuário paga R$ 9,00, ou seja, R$ 4,50 por quilômetro até a praça.

Existe alguma boa notícia? A entrevista com Delmo Pinho, engenheiro civil, com mais de 50 anos trabalhando na área de logística do Rio, e atualmente assessor da presidência da Fecomercio, fala sobre esse assunto com profundidade. A entrevista está a sua disposição no canal da Revista Manchete no YouTube. Para você assistir, basta clicar no QRCode da matéria, que será direcionado. Segundo Pinho, os novos contratos de concessão estão melhor elaborados, prevendo o sistema Free Flow, testado e aprovado. Assim como funciona nos Estados Unidos, o motorista no Brasil irá pagar proporcionalmente ao trecho que utiliza na rodovia. E o que podemos fazer até lá? Continuar cobrando melhorias nos serviços para garantir estradas mais seguras e confortáveis.