SABE AQUELA BALINHA, TÃO DESPREZADA, QUE EM ALGUNS MOMENTOS ERA O TROCO DA PADARIA? POIS HOJE VAMOS VIAJAR NA HISTÓRIA DE UMA BALA QUE NUNCA FOI TROCO, NEM COADJUVANTE
DE NADA. A GALO DOCE VEM BRILHANDO NO PALADAR DOS CARIOCAS HÁ QUASE 50 ANOS.

As balas tradicionais de açúcar, também conhecidas como “hard candy” ou “bala dura”, sempre foram mais populares entre os europeus, que valorizam a sua produção artesanal. Mas o Rio de Janeiro, na contramão das expectativas, mantém gloriosamente, há 46 anos, uma fábrica de balas que marcou gerações.

Fábio entrevista Jorge Orlandi, CEO da Galo Doce

O ano era 1979. O português Albino Alves investia no ramo de restaurantes no Rio de Janeiro, quando um grego lhe fez uma proposta diferente: por que não investir também em balas, assumindo a fábrica dele? Negócio fechado, as “Balas Rio” se tornaram a “Galo Doce”, que começou a ganhar forma em Tomás Coelho, Zona Norte do Rio de Janeiro. O galo de Barcelos – aquele galinho que é marca registrada de Portugal – também inspirou o projeto, que se tornaria referência no Brasil na produção de um tipo de bala que, na década de 70, fazia sucesso na Inglaterra.

Da década de 80 para frente, a ideia do seu Albino só cresceu. Eram balas, pirulitos e afins, feitos com uma calda de açúcar quente que, quando esfria, pode ser esticada, enrolada e moldada até endurecer de uma vez por todas. Quase uma massa de modelar de açúcar. O preparo ainda é 100% artesanal, como era feito há quase 50 anos. É por isso que todos os dias Érica Guimarães, neta de seu Albino, prova toda a produção, tacho por tacho, para ter certeza de que o sabor seja sempre o mesmo.

 

Aqui, a proprietária, Érica Guimarães, junto ao marido, Jorge Orlandi, CEO da empresa

“Meus pais herdaram a fábrica de meus avós. E hoje eu sou a terceira geração da família à frente da Galo Doce”, diz Érica. Atualmente, ela e o marido – Jorge Orlandi, CEO da empresa – tocam a fábrica, já pensando na quarta geração: “Nosso filho, com 14 anos, acompanha as atividades da fábrica e começa a entender cada vez mais do nosso negócio”, comenta Jorge, mostrando orgulhoso um vídeo no celular em que o filho está num encontro com revendedores.

Atualmente, além de ser vendida pelo site da empresa, a bala – que é vegana, sem lactose e sem glúten – também é encontrada em restaurantes, lanchonetes mais gourmetizadas e lojas de conveniência. Apesar de sofisticada, é acessível: por exemplo, um pote de 200 g de bengalinhas doces, que bombam na época do Natal, sai por R$ 45,70. E vale cada centavo: elas podem ser usadas até na árvore – desde que, claro, fiquem dentro do plástico. Sem dúvida, é um enfeite que não dura depois da meia-noite.

 

COLOCANDO A MÃO NA MASSA

A receita começa com o açúcar diluído em água, dentro de um tacho. A calda, que também leva outros ingredientes para ter mais brilho, ferve até 150°C, ganhando cremosidade e transparência. Depois, já mais fria, ela é aberta sobre uma mesa de mármore e recebe corante alimentar, pronta para virar arte. No dia da minha visita à fábrica, tingimos parte da massa de vermelho, parte de amarelo. Como precisávamos de branco, os funcionários me deram a dica: prender a massa em um gancho na parede e puxar, esticar e aerar até ela ficar branca.

Acreditando ter músculos no braço para isso, me permitiram colocar a mão na massa no processo. Ainda quente e no melhor estilo “puxa”, a massa remete mesmo à infância. Não apenas pelo delicioso perfume de açúcar que sai dela, mas também pelo processo quase rudimentar. E ninguém por ali está interessado em mudar isso. “Faz parte de uma tradição”, completa Érica.


Com três partes da massa devidamente distribuídas em branco, amarelo e vermelho, fica a pergunta: mas por que nessas cores? Resposta simples: com facilidade de moldar e produzir memórias afetivas, é possível personalizar as balas. As que fizemos foram todas com o “M” da Revista Manchete. A letra – feita com a massa amarela, enrolada na massa branca e encapada pela vermelha – forma um espesso cilindro que é esticado até ficar fino para ser cortado, já no formato das balinhas, também chamadas de “rocs”. Você pode assistir a todo o processo acessando o QR Code desta coluna. Ele leva direto para o vídeo que adoça a alma só de ver.

UMA BALA PARA CHAMAR DE NOSSA

Depois de visitar uma fábrica como esta, difícil é não se apaixonar. Seja pelas balas, seja pelas embalagens retrô, quando elas vinham em latinhas ou envoltas em verdadeiras obras de arte do desenhista Daniel Azulay ou de personagens da Disney.

 

Diante de tudo isso, eu diria que essas balas são históricas. Mais do que uma tradição do Rio, as Galo Doce são referências afetivas há quase 50 anos.

 

Fábio Ramalho é jornalista e publicitário, apaixonado por viagens e comportamento carioca, com mais de 30 anos de televisão

NO TRADICIONAL AVIÃOZINHO QUE SOBREVOA A ORLA DO RIO DE JANEIRO, JÁ TEVE PEDIDO DE CASAMENTO, DECLARAÇÃO DE AMOR, COBRANÇA DE DÍVIDA E ATÉ ALERTA DE TRAIÇÃO. O QUE COUBER NA FAIXA É RECADO DADO NA PUBLICIDADE AÉREA, QUE ENCANTA O PÚBLICO DA AREIA.

No Aeroporto de Jacarepaguá, a faixa anunciando a Revista Manchete está pronta para ser içada pelo monomotor

Se você já foi à praia na Cidade Maravilhosa e não viu no céu um aviãozinho monomotor passando com uma faixa presa à cauda, desculpe, mas não foi ao Rio de Janeiro. E não é exagero algum: tão tradicional quanto degustar mate com limão e biscoito Globo na praia, é olhar para o céu e descobrir qual vai ser a propaganda do dia no aviãozinho que passa. “Desde pequena, eu vejo a movimentação dos aviões. Tem dias que ele passa várias vezes, repetidamente”, diz Carolina Oliveira ao lado da amiga Késia Santos, duas moradoras da Zona Norte que vão à praia em Ipanema. “O avião passa na praia e aqui tem sempre gente de todo o Rio de Janeiro”, afirma Késia.

O que talvez pouca gente saiba é como funciona a logística para essa operação publicitária nas alturas. Mesmo quando as badaladas praias da Zona Sul carioca são o destino, tudo começa a mais de 20 km de Copacabana ou Ipanema: no Clube de Aeronáutica, na Barra da Tijuca. É no hangar número 3 que ficam as três aeronaves e o escritório da RIOARnoar, que faz publicidade aérea há mais de 30 anos. “A praia é a audiência mais democrática que existe. Todo mundo vai à praia. Por isso, você consegue falar com qualquer público”, conta Sérgio Alexandre, proprietário da empresa.

Por isso, a comunicação “nas alturas” se popularizou e até ficou mais acessível. “Sempre funciona, para qualquer situação, para qualquer orçamento”, afirma o empresário. Para quem está na outra ponta, o cliente, o aviãozinho faz o caixa levantar voo. “A gente investe em vários formatos de propaganda. Mas o aviãozinho é imediato: a gente anuncia e o público responde na churrascaria, na hora”, comemora Francisco Givanildo, gerente da churrascaria Tourão. E é exatamente assim que funciona. Podemos até estar pensando em feijoada, mas, se a sugestão de um bom churrasco aparece, tudo muda.

Enquanto isso, na praia, o barraqueiro Ricardo Antunes diz que já viu de tudo. Mas o que mais o impressionou foi uma denúncia de traição nos ares. “A mensagem dava um toque no cara no melhor estilo ‘fique de olho na sua namorada’. E ele estava aqui, na minha barraca na hora em que o avião passou”, conta, rindo alto. Mas em 99% das vezes é, de fato, publicidade. “De óticas, aplicativos de relacionamento, churrascaria até jogos e sorteios. Todos sabem o potencial de uma praia lotada”, completa Sérgio a respeito das empresas que contrataram os seus disputados voos. Em tempo: um fim de semana de verão no Rio de Janeiro garante público de aproximadamente 2 milhões de banhistas “do Leme ao Pontal”.

REVISTA MANCHETE
NAS ALTURAS

A reação das pessoas é fascinante: não tem quem não preste atenção quando o avião passa. Olhos vidrados no céu! Conversei com crianças, adolescentes e até idosos. Todos sabiam repetir o que tinham visto na faixa. Neste caso, a mensagem escolhida foi clara: “A Revista Manchete está de volta”. Missão cumprida: recado dado sobretudo quando o receptor está de “calças curtas”. Ou melhor: sem calça alguma!

Em um ambiente divertido e aprazível, a mensagem vira chiclete na cabeça. “Eu não sabia que a revista tinha voltado!”, diz o turista Alexandre Martins, de São Paulo, que ficou surpreso. Uma turista argentina fez cara de não entender muito quando expliquei o que foi a potência da Manchete nas décadas de 50 a 90. Mas os cariocas, sem exceção, já sabiam do que a faixa estava falando. “Era uma revista de renome e não era barata. Só as pessoas mais grã-finas liam”, diz o vendedor de mate e biscoito Globo, Isaías Santos, que do alto dos seus 24 anos não viveu essa época. Hoje, a história é outra. Com a digitalização dos conteúdos, a Revista Manchete também pode ser lida gratuitamente no site e nas redes sociais.

À medida que eu andava na areia, mais e mais pessoas notavam o microfone na minha mão, com o “M” da Manchete, e associavam à publicidade recém-vista na faixa. Estava explicado por que estávamos ali. A Revista Manchete está mais viva do que nunca, e o aviãozinho ajudou a divulgar isso. Testamos e comprovamos na prática: o bom aviãozinho da propaganda aérea ainda é uma estrela das praias cariocas.

A reação das pessoas é fascinante: não tem quem não preste atenção quando o avião passa. Olhos vidrados no céu!

“A praia é a audiência mais democrática que existe. Todo mundo vai à praia. Por isso, você consegue falar com qualquer público.”

Sérgio Alexandre, proprietário da RIOARnoar

MISSÃO QUASE IMPOSSÍVEL

A operação para colocar uma faixa amarrada ao monomotor para um voo não é simples. Ao contrário do que eu mesmo pensava, o aviãozinho não decola já com o faixa amarrada na traseira da aeronave. Desse jeito, a faixa seria destruída antes mesmo do voo, só pelo atrito dela com o chão enquanto o avião toma velocidade para decolar. Então, a estratégia é levantar voo primeiro e içar a faixa depois.
A decolagem no Clube de Aeronáutica é feita em uma pista gramada. Já em voo, o piloto segue para uma aproximação no Aeroporto de Jacarepaguá, que fica exatamente ao lado. Na pista asfaltada do aeroporto, é hora de posicionar a faixa no chão de um jeito que o piloto consiga “pescá-la”, sem tocar o trem de pouso no solo. Então, em um rasante sobre a pista, o piloto libera uma corda com um gancho de metal na ponta. Tudo muito parecido a um anzol. O trabalho de atenção e perícia é fazer esse gancho “pescar” o encaixe perfeito da faixa. É uma ação rápida e precisa.


Logo na Aprimeira tentativa, o piloto Lucas Rangel já consegue fisgar a faixa que sobe com o monomotor. “O avião é todo pensado, adaptado e registrado para voos de publicidade. Quanto menos peso na aeronave, melhor”, comenta Lucas. Exatamente por isso, a minha ideia de estar no avião durante o voo infelizmente não decolou. Para você assistir às imagens de como tudo isso acontece, minha sugestão é: na faixa abaixo, aponte a câmera do celular para o QR Code. A Revista Manchete também tem seu lado digital. Está tudo gravado lá!

“O avião é todo pensado, adaptado e registrado para voos de publicidade. Quanto menos peso na aeronave, melhor.”

Lucas Rangel, piloto

 

 

 

Fábio Ramalho é jornalista e publicitário, apaixonado por viagens e comportamento carioca, com mais de 30 anos de televisão.

Cadeg
UMA CASA PORTUGUESA COM CERTEZA!

Mesmo à distância, a gente sabe que está chegando em um cantinho legitimamente português do Rio de Janeiro. E não é nem pelo som das concertinas – instrumento muito parecido com o acordeom, que se popularizou em Portugal. O delicioso aroma de sardinhas na brasa entrega que, no Cadeg, todo sábado tem festa lusitana.

A foto mostra a vista de cima do Cadeg com o maior telhado solar do estado, contendo 5 mil placas fotovoltaicas instaladas.

Se o peixe morre pela boca, minha coluna hoje é para fazer você morrer de vontade de comer um bom bacalhau regado a uma taça de vinho. Uma não… Várias! Posso com tranquilidade relatar que o melhor é deixar o seu veículo em casa e investir no táxi ou no carro de aplicativo. Sabe aquele desenho animado em que o cheirinho bom parece fazer a gente levitar e ir flutuando atrás do sabor? É quase assim quando chegamos ao Cadeg.

O Cantinho das Concertinas é o point de encontro da comunidade portuguesa do Rio, todos os sábados. Porém, também tem os braços abertos a quem nem sequer passou perto da “terrinha”, como chamam os portugueses. Pessoas de todos os estados do Brasil, que nunca saíram do país, já sabem perfeitamente como são os ares de Lisboa só de pisarem no Cadeg! “A gente come primeiro pelo cheirinho da comida. Depois come a comida. E depois ainda vêm os doces portugueses!”, diz o motorista Carlos Santana, que no dia de folga do trabalho levou a sogra e as filhas para as compras, com os dois cachorros juntos. Diversão para a família toda.

 

Ao lado, a carismática florista que se apresenta como “Linda de Bonita”.

E como não se render à criatividade dos vendedores para atrair a clientela? Na loja de comidas nordestinas, então, o apelo é grande. Vem correndo lá de dentro um vendedor com uma cesta de pães de queijo quentinhos, saindo do forno, pedindo que as pessoas o ajudem a “voltar para a terrinha”. E adivinha? É venda na certa e comemoração com palmas e tudo. Na área das flores, sou recebido por uma moça sorridente segurando um vaso de orquídea e uma rosa no cabelo. Ela se apresenta: “Eu sou Linda de Bonita, prazer!”. Na mesma hora você já pensa em qual lugar da sua casa colocaria o vaso de planta. É a arte da venda – mais uma tradição que você encontra aqui no Cadeg.

“Em um dia ruim, recebemos de 13 a 15 mil pessoas e, aos sábados, mais de 50 mil. Então outras marcas estão querendo se consolidar aqui dentro. Estamos com novas propostas e realizando obras de expansão.”

Marcelo Penna, presidente do Cadeg

HISTÓRIA ENTRE FRUTAS E FLORES

Antes de se tornar o Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara, os comerciantes, em sua maioria portugueses e italianos, vendiam suas mercadorias no mercado municipal fluminense, que acabou sendo demolido. As décadas de 1950 e 1960 foram de profundas transformações no Centro do Rio de Janeiro. Com a demolição – para dar lugar ao também já demolido Elevado da Perimetral, entre outras obras –, os antigos comerciantes do local precisaram mudar de endereço. Foi quando, por meio da criação de uma cooperativa, comprar o terreno onde o Cadeg se encontra hoje, em Benfica, bairro da Zona Norte carioca. A inauguração foi em 1962, quando a capital do país já havia sido transferida para Brasília. Assim nasceu o condomínio “Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara”, que este ano completa 63 anos.

Apesar da vocação para frutas, legumes e verduras, o Cadeg deixou brotar novas vocações ao longo dessas seis décadas. Hoje, as flores deram um colorido especial ao mercado, que se tornou o maior entreposto de flores, do produtor direto ao consumidor final. “As pessoas madrugam para comprar flores e não apenas legumes e hortaliças”, diz Marcelo Penna, atual presidente do Cadeg, que toca o local com mão forte, alimentando maiores pretensões – com seus 70 mil metros quadrados de terreno, o Cadeg tem capacidade de construção total para até 286 mil metros quadrados.

Além de ser um dos maiores pontos de venda de bacalhau do Brasil, os empórios vieram com as bebidas e os restaurantes, numa gastronomia que também passa pelo tradicional cardápio nordestino. Confesso que já fugi da festa portuguesa para provar também um cabrito cozido no vinho, que se encontra por lá toda sexta. O local refinou sua gastronomia, fazendo com que cerca de 50 mil pessoas passem ali todos os sábados, por exemplo.
O estacionamento grande, com expansão para vagas de carregamento de veículos elétricos e o maior telhado com placas de energia solar, garante facilidade de acesso por meio das principais avenidas do Rio – a avenida Brasil fica ao lado. Por isso, o Cadeg já planeja inaugurar em outubro o Mercado da Moda, com lojas âncora transformando o mercado em um shopping, além do projeto futuro da criação de um hotel. “O visitante poderá conhecer o Rio de Janeiro tendo o Cadeg como porto de partida”, diz Marcelo.

 

Além de recomendar que você acesse o QR Code no final desta reportagem para o vídeo passar mais dessas cores e sabores, o melhor mesmo é não se ater ao que conto nesta coluna. Perder-se nos corredores do Cadeg significa garimpar opções de lazer, alimentação e compras.

No futuro próximo, com o polo de moda, o mercado de peixe e o hotel, este complexo vai fazer o Brasil elevar o conceito de Marcado Municipal. O Cadeg está ganhando cada vez mais forma para ser uma referência global. Aliás, a diretoria do Cadeg está em busca de ganhar o título de maior Mercado Municipal do mundo.

O Cadeg funciona 24 horas. Muitos comerciantes compram legumes, verduras, frutas e flores de madrugada

AO SOM DAS CONCERTINAS
A festa portuguesa foi criada pelo proprietário do Cantinho das Concertinas, Carlos Cadavez, falecido em 2022. Hoje, são a filha Natalia e o genro, João, os responsáveis por dar continuidade a esse evento, inclusive mantendo a receita original do famoso bolinho de bacalhau do restaurante.

O PARADOXO DO CADEG
Funcionar 24 horas por dia é uma característica deste mercado, que agrega circulação, mas também cuidados com segurança e deslocamento. O investimento dos empresários locais, aliado ao apoio da prefeitura e do estado com segurança e iluminação ao redor, faz o carioca enxergar, aos poucos, o Cadeg como um centro de entretenimento e não apenas como mercado. Um dos próximos investimentos tem a ver com peixes que vão além do bacalhau. O Cadeg inaugurará o Mercado do Pescado para comercializar tudo o que vem do mar “made in Rio”. Será um mercado dentro do outro.

Fábio Ramalho é jornalista e publicitário, apaixonado por viagens e comportamento carioca, com mais de 30 anos de televisão.

Mureta da Urca: O ponto de encontro carioca

Que tal tomar um chope em uma experiência imersiva, com a garantia de que será algo exclusivamente carioca? Nesse bar a céu aberto, que você vai desvendar nas próximas páginas, não tem mesas, cadeiras, nem garçom, muito menos ar-condicionado. Mas relaxa, porque a brisa no rosto compensa. Seja muito bem-vindo à tradicionalíssima mureta da Urca, na Zona Sul do Rio!


“É a minha primeira vez no Rio de Janeiro e me disseram que, se eu não viesse à mureta da Urca tomar um chope, era o mesmo que não ter vindo à Cidade Maravilhosa”, disse Yuri Nobre, um turista do Ceará que mora em São Paulo, mas que deixou o coração no Rio. Foi paixão à primeira vista. Agora ele já planeja trocar de CEP: quer ter a experiência de morar na Cidade Maravilhosa.

Apesar de a mureta da Urca ter quase 1 km de extensão, com bares e restaurantes ao longo dela, o carioca tem lá suas predileções e elegeu o ponto de concentração. O Bar Urca é, definitivamente, o local disputado, com uma mureta privilegiada, de onde se vê o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor. São finais de tarde de céu alaranjado que surpreendem quem senta nessa mureta.

A dinâmica é essa: você vai até o balcão, pede o chope e já dá um gole. Ali mesmo, na hora, para não derramar no caminho! Vale escolher também um petisco. Empada de frango, pastel de camarão ou bolinho de bacalhau – o que já dá spoiller de onde veio a família que introduziu tudo isso ao cardápio. Depois, é só atravessar a rua, que felizmente não tem tanto movimento, e se sentar ali, na mureta debruçada sobre a Enseada de Botafogo. Isso mesmo: você se senta na pedra e ainda acha maravilhoso. Sabe por quê? Porque o momento “uau” toma conta dos seus olhos, da sua mente e pronto, a mureta vira o sofá mais confortável para a alma.

“Eu sempre vou na empada. Acho que tem tudo a ver com chope e vista da mureta”


disse a carioca Isabela Guimarães, que frequenta o Bar Urca desde criança, ainda levada pelos pais. Psicóloga, ela tem a resposta na ponta da língua quando perguntada sobre o “ritual” de beber na mureta: “É democrático. Todos são iguais quando sentam aqui. Mesa e cadeira? Só se for lá dentro!”, diz ela, sorrindo.  

O “lá dentro” a que ela se refere é o segundo andar do Bar Urca, onde fica o restaurante. Por uma escada estreita, em um prédio histórico, você chega a um dos poucos estabelecimentos do Rio que é patrimônio cultural, histórico e turístico do Rio de Janeiro. Repare que o “cultural” vem antes mesmo do “turístico” no título dado pelo governo do estado, que chancela locais tradicionais do Rio. E seria uma covardia não falar do bobó de camarão, que faz valer cada degrau que se sobe.

Podem até existir outros restaurantes e bares na Urca ao longo da mureta, construída na década de 1930, mas foi no trecho em frente ao Bar Urca que a tradição se perpetuou. 

Quem vive essa experiência sai extasiado. Ao contrário do pôr do sol no Arpoador, aqui ninguém bate palmas. Talvez porque, quase sempre, as mãos estejam ocupadas nessa mureta, seja com um chope, seja com uma das delícias que a gente nem tenta resistir. Faltam mãos, mas sobram sorrisos. A mureta é de pedra, mas amolece o coração da gente. Quer conferir? Assista ao vídeo da matéria!

FAMÍLIA GOMES, ORA POIS!

Um bar, várias gerações. O colunista Fábio Ramalho entre Armando Gomes Filho, o patriarca da família; e os filhos Armando Gomes Neto e Rodrigo Gomes, hoje “pilotando” o Bar Urca.

Apesar da alma portuguesa, o Bar Urca começou com alemães, que fundaram a casa nos idos de 1939. O local chegou a sofrer represálias na época da Segunda Guerra Mundial. Mas foi em 1972 que o bar ganhou alma portuguesa, passando para as mãos da família Gomes. O patriarca, Armando Gomes, fez a casa ganhar o estrelato que cada um dos seus petiscos e pratos merecia. A partir daí, o gerenciamento familiar veio em um “efeito dominó”, feito por filhos dos filhos, que segue até hoje. Após ‘seu’ Armando – já falecido e com homenagens por toda a casa –, quem assumiu foi Armando Gomes Filho, hoje com 75 anos. A geração seguinte, adivinhe? Armando Gomes Neto e seu irmão, Rodrigo Gomes. Há quem garanta que, apesar dos mais jovens estarem no comando, ‘seu’ Armando – da geração do meio – mandou instalar uma extensão da linha telefônica do bar em seu apartamento, que fica logo acima, no mesmo edifício. Para falar com o dono, basta discar o ramal 25.

A EMPADA DE QUATRO CAMARÕES

As delícias do Bar Urca na mesa mais democrática: a mureta. Empada de camarão, pastel de camarão e o tradicional bolinho de bacalhau

É exatamente isso, uma fartura só! Quatro camarões, nada mais, nada menos. Então abra bem a boca e saboreie com calma. Certa vez, este colunista aqui se aventurou a quebrar a regra e adicionou mais dois singelos camarões na empada. Nem é preciso dizer que não deu muito certo. A empada ficou com recheio demais, rachou, transbordou e queimou as bordas. Não tinha como um aventureiro inexperiente competir com a técnica cirúrgica de fazer empadas há mais de 50 anos. Ficou o aprendizado: perfeição não mora ao lado do exagero, é vizinha do equilíbrio.

GERAÇÃO Z

A mureta da Urca é para todos os públicos, para todos os gostos e para todas as idades. Mas é inegável que o local tem sido procurado também por muitos jovens. A geração Z, que prefere eventos diurnos, culturais e que acabem mais cedo, está se encontrando cada vez mais por ali. E muitos chegam pelas redes de internet. A social-media cearense Nathalia Régia é carioca de alma. É ela quem está à frente do Instagram da casa, que conversa exatamente com esse público. Os garçons e colaboradores – alguns com mais de 20 anos de casa – entraram na onda dos vídeos rápidos das redes sociais. Bem dirigidos, produzem pérolas que viram meme rápido. Por exemplo, ‘seu’ Humberto Martins – que já se aposentou e voltou para o restaurante –, aos 66 anos, contabiliza quase meio milhão de visualizações em uma publicação feita no perfil do estabelecimento. É hilário assisti-lo tentando se expressar como a geração Z faz. Visite o perfil do Bar Urca (@barurca) para conferir. 

 

 

 

 

Fábio Ramalho é jornalista e publicitário, apaixonado por viagens e comportamento carioca, com mais de 30 anos de televisão.

 

 

https://youtu.be/-nq2fIi0B20

Ele é “coroa”, quase setenta anos de praia, mas tem vitalidade para percorrer todas as areias do Rio de Janeiro diariamente. Do Leme ao Pontal, o famoso da terceira idade é anunciado aos quatro ventos:

A embalagem icônica, de 1975, até hoje estampa pontos turísticos de todo o mundo. Prova de que o biscoito de polvilho já tinha pretensões globais desde que “cariocou”

Apesar de ser tão a cara do Rio de Janeiro, a notícia pode surpreender: o Biscoito Globo não é uma criação carioca. A história começa em 1953 quando três irmãos, Milton, João e Jaime Ponce, fizeram a primeira fornada dos biscoitos em São Paulo. A receita já era a que conhecemos hoje, mas, quanto às vendas, no início foi difícil. Eles chegaram a vender nas ruas do Ipiranga, mas o biscoitinho — e não bolacha — simplesmente não decolava. Foi quando o trouxeram, alguns anos depois, para vender em um congresso eucarístico no Rio de Janeiro. A surpresa? Não sobrou um pacote do abençoado! E, se o biscoito caiu nas graças do carioca, por que não montar a fábrica aqui?

Popular, sim, mas também sofisticado! É isso mesmo: o Globo frequenta, inclusive, ambientes refrigerados, como lojas de aeroportos e cafeterias chiques

Há divergências sobre o ano em que o Biscoito Globo “nasceu” de fato. Se contarmos as tentativas de venda na terra da garoa, serão facilmente mais de 70 anos. O Biscoito Globo ganhou essa marca quando começou a ser feito no Rio, em uma panificadora chamada Globo, que lhe rendeu o nome. Foi aí a grande virada rumo ao sucesso. Hoje, o Biscoito Globo é produzido pela Panificação Mandarino e, apesar de ser um simples biscoito de polvilho, a receita oficial nunca foi revelada.

Colorido sob o sol de 40 graus, Leonardo chama a atenção da clientela

O biscoito não é só comida de praia. Indiretamente, ele alimenta famílias que tiram desses saquinhos de papel celofane cheios de “bixcoito” o seu sustento familiar. Rafael Fernandes, 32 anos, é vendedor e faz a conta rápido: compra todos os dias cerca de 100 saquinhos para revender, direto na fábrica, no centro do Rio. Ele investe 400 reais e volta para casa com o dobro. “Lucro de 100%”, diz o vendedor, ligeiro para fazer mais vendas.

Da mesma forma que é vendido nas praias cariocas, o biscoito é a salvação de quem está preso no engarrafamento com fome. Ambulantes levantam o saquinho entre os carros e logo os vidros se abaixam para o motorista comprar. Popular, sim, mas também sofisticado! É isso mesmo: o Globo frequenta, inclusive, ambientes refrigerados, como lojas de aeroportos e cafeterias chiques.

O colunista Fábio Ramalho com a dupla campeã de vendas da praia

Depois dessa viagem no “Globo” para entender tudo sobre esse famoso biscoito, o clichê que você já estava esperando: com ele, nada melhor que o mate tradicionalíssimo também nas praias cariocas. Eu preciso terminar este texto fazendo um brinde que você verá no vídeo pelo QR Code abaixo: a dupla Biscoito Globo e Mate Leão foi reconhecida como patrimônio cultural carioca em 2012.

A fábrica do biscoito mais famoso do Rio

Polvilho, ovos, leite, gordura e nada de fermento. A máquina mexe a massa até dar o ponto. Os grandes tabuleiros são desenhados com rosquinhas alvas, que ganham volume e crocância após 15 minutinhos, em média, no forno. Aquela receitinha tradicional é fabricada hoje em larga escala. Um processo industrial, mas que ainda preserva características caseiras.

Com o aumento da demanda, a parte de empacotamento teve que se modernizar. Os saquinhos de papel, antes embalados à mão, passaram a ser lacrados por máquina. Com a estampa do Pão de Açúcar, das torres Eiffel, de Pisa e de Belém, a clássica embalagem já é o próprio marketing da marca.

Os mais novos aprendem com os funcionários antigos, que há décadas batem ponto na discreta fábrica do Globo, atualmente localizada rua do Senado, no Centro do Rio de Janeiro. Na porta, fila de ambulantes para comprar os fardos do biscoito que, indiretamente sustenta muitas famílias e é a cara do Rio.