Saúde Clínica

Retatrutida: UMA NOVA ERA PARA AS CANETAS

Retatrutida

UMA NOVA ERA PARA AS CANETAS

ALÉM DE SACIAR A FOME, O NOVO RECURSO PARA O COMBATE DA OBESIDADE PROMETE AUMENTAR O METABOLISMO E AUXILIAR NA QUEIMA ENERGÉTICA. PORÉM, AINDA ESTÁ EM FASE DE ESTUDOS.

Godzilla. É com esse nome comercial inusitado que possivelmente chegará às farmácias de todo mundo uma nova caneta emagrecedora, revolucionária. Seu composto químico é a retatrutida, que vem prometendo uma ação mais eficaz do que o Mounjaro (tirzepatida). Para entender melhor esse avanço, saiba que o Mounjaro é um duplo agonista, ou seja, ele age nos hormônios GLP-1 e GIP, controlando a glicemia e trazendo saciedade e redução do apetite. Já a retatrutida é um tri-agonista: além de ter efeito sobre o GLP-1 e GIP, também atua no hormônio glucagon. Resultado: vai melhorar a sensibilidade à insulina, trazer saciedade e, para completar, aumentar o metabolismo.

Isso significa que vamos viver uma nova era de canetas emagrecedoras, que atuam tanto na perda da fome quanto no gasto energético. Ou seja, a retatrutida colabora para diminuir a entrada de comida e aumentar a queima do que é ingerido. Surge, assim, como uma opção mais avançada ao Mounjaro, e tudo indica que será uma indicação perfeita para o grupo adequado de pacientes.

Porém, só há um pequeno detalhe que faz toda a diferença: a retatrutida ainda não está no mercado. O novo medicamento não foi liberado para venda porque se encontra na fase 3 de pesquisa. Foi por esse motivo que achamos muito importante falar sobre o assunto nesta edição da Revista Manchete, porque já tem gente por aí vendendo canetas dizendo que se trata de retatrutida. Porém, fuja delas: são falsas e representam um grande perigo.

 

A retatrutida colabora para diminuir a entrada de comida e aumentar a queima do que é ingerido. Surge como uma opção mais avançada ao Mounjaro, e tudo indica que será uma indicação perfeita para o grupo adequado de pacientes.

 

ENTENDA AS FASES DO ESTUDO

Mas por que essa nova caneta ainda não foi liberada? Entenda que, antes de qualquer medicamento chegar às farmácias, ele precisa cumprir um rigoroso caminho científico e regulatório, acompanhado por órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Food and Drug Administration (FDA). Esse processo é dividido em etapas bem definidas. Na fase 1, a molécula é testada em humanos para verificar, principalmente, se é segura. Na fase 2, os pesquisadores passam a observar a eficácia inicial e fazem os primeiros ajustes de dose. Já na fase 3, etapa em que a retatrutida se encontra atualmente, a eficácia definitiva e a segurança são avaliadas em um grupo populacional maior, além de refinar as doses ideais.

A proposta da retatrutida, ao também atuar no receptor do glucagon, é favorecer uma perda de peso com maior preservação de massa muscular e melhor regulação metabólica. Os dados iniciais da fase 3 apontam, justamente, para esse potencial: redução de gordura corporal associada à manutenção de músculo – um fator decisivo para a saúde ao longo do envelhecimento. Porém, só depois da conclusão dessa fase é que um medicamento pode ser submetido às agências reguladoras para análise e liberação.

E mesmo após a aprovação, ainda existe a chamada fase 4, quando o produto já está no mercado e continua sendo monitorado em larga escala, para identificar, por exemplo, a sua segurança e eficácia, confirmando, assim, seus benefícios no uso real. Esse acompanhamento permanente foi fundamental para o melhor entendimento das doses e dos resultados das canetas emagrecedoras mais recentes.

Portanto, segue o alerta: neste momento, não existe retatrutida disponível legalmente para uso clínico. Qualquer produto anunciado com esse nome é, com certeza, irregular. Não ceda à compra, caso algum conhecido lhe ofereça, mesmo dizendo que se trata de um medicamento importado.

 

Neste momento, não existe retatrutida disponível legalmente para uso clínico. Qualquer produto anunciado com esse nome é, com certeza, irregular. Não ceda à compra, caso algum conhecido lhe ofereça.

 

O RISCO REAL DAS “CANETAS ALTERNATIVAS”

Outro aspecto que merece atenção é a forma como a indústria farmacêutica funciona. Quando uma empresa deposita a patente de uma nova molécula, ela torna pública a estrutura do composto. A partir daí, outros fabricantes podem tentar produzir substâncias semelhantes, os chamados análogos. O problema é que, fora do ambiente regulado, não há garantia de que esses produtos tenham a mesma composição, estabilidade, pureza e segurança.

Então, não há análogos da futura caneta disponíveis por aí, embora hoje já circulem relatos de substâncias vendidas como retatrutida. Tenha em mente que, nesses casos, sua origem não é confiável, já que não apresentam rastreabilidade de lote, nem controle adequado de fabricação feito em laboratório. Para piorar, nem sequer é possível afirmar o que realmente existe dentro do frasco. Há registros, inclusive, de misturas de outros medicamentos sendo comercializadas de forma fraudulenta. E a compra de qualquer caneta injetável fora do circuito regulado expõe o paciente a riscos.

Vale reforçar que o uso das canetas exige avaliação clínica completa, análise de exames, investigação de histórico pessoal e familiar e definição individualizada de doses. Existem, inclusive, contraindicações específicas, como determinados tipos de câncer de tireoide, que só podem ser identificadas por um profissional capacitado. Além disso, durante o tratamento, é fundamental acompanhar composição corporal, inflamação, ingestão proteica, função intestinal e possíveis alterações emocionais, como ansiedade e compulsão alimentar. Em muitos casos, a resposta ao medicamento depende, também, de ajustes nutricionais, suplementação e mudanças no estilo de vida.

A retatrutida é, de fato, uma das apostas mais promissoras da nova geração de medicamentos para o tratamento da obesidade. Mas ela ainda não chegou ao mercado. Até que haja liberação oficial, com produção rastreável e fiscalização adequada, a recomendação é clara: desconfie de qualquer oferta. Então, calma! Aguarde as cenas dos próximos capítulos desse avanço científico. E, quando chegarem, a retatrutida deve ser usada do jeito certo: com segurança, critério e orientação profissional.

 

Dra. Ana Cristina Barreira é médica endocrinologista, cardiologista, geriatra, especialista em medicina ortomolecular, diretora científica da Associação Brasileira de Ozonioterapia, professora e palestrante em congressos nacionais e internacionais.  Diretora do Espaço Ana Cristina Barreira Medicina Integrativa Clínica

 

Dr. João Branco é médico endocrinologista, pós-graduado em medicina desportiva e ortomolecular e perito legista. Membro do corpo clínico da clínica HE Performance. Médico responsável pelo tratamento de emagrecimento da artista Jojo Todynho

 

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