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Neguinho da Beija-Flor: novos caminhos para o samba

 

Neguinho da Beija-Flor

NOVOS CAMINHOS PARA O SAMBA

 

FORAM 50 ANOS LEVANTANDO A SAPUCAÍ, AO ANUNCIAR: “OLHA A BEIJA-FLOR AÍ, GENTE!”. E, NO PRÓXIMO CARNAVAL, A VOZ DO PUXADOR DO SAMBA-ENREDO DA ESCOLA DE NILÓPOLIS NÃO SERÁ MAIS OUVIDA. MAS QUEM ACHA QUE NEGUINHO DA BEIJA-FLOR VAI PARAR, ESTÁ MUITO ENGANADO. EM ENTREVISTA EXCLUSIVA À REVISTA MANCHETE, ELE DIVIDE OS BASTIDORES DE SUA TRAJETÓRIA E REVELA OS SEUS NOVOS PROJETOS.

Aos 76 anos, o consagrado intérprete do Carnaval brasileiro inicia uma nova etapa artística, focada em expandir sua contribuição à música brasileira para além da Avenida, mas sem se afastar de sua escola de coração. Após cinco décadas como a voz oficial da Beija-Flor de Nilópolis, Neguinho anunciou que não seguirá mais como intérprete principal da agremiação. A decisão marca o fim de um ciclo vitorioso que ajudou a transformar o desfile da escola em um espetáculo inesquecível para milhões de foliões. Apesar disso, o artista garante: continuará participando dos desfiles da Beija-Flor, mantendo o vínculo afetivo e cultural com a comunidade de Nilópolis, com quem construiu uma relação profunda ao longo dos anos. “Quero que conheçam o meu lado cantor, não apenas o intérprete de Carnaval”, afirmou Neguinho, reforçando sua decisão de investir em novos projetos e explorar outras vertentes da música popular brasileira.

Um dos principais marcos dessa nova fase foi a realização do reality show A Voz do Carnaval, em setembro, que escolheu os novos intérpretes oficiais da Beija-Flor para o Carnaval de 2026. Com produção da AfroReggae Audiovisual e Formata, o programa contou com apenas quatro episódios e foi um sucesso de audiência e repercussão. A grande final aconteceu no dia 25 de setembro, mesma data em que foi escolhido o samba-enredo da escola. Os novos intérpretes, Jessica Martin e Nino, assumem a missão de suceder Neguinho com a responsabilidade de manter viva a força e a emoção do carro de som da azul e branco de Nilópolis.

Enquanto passa o bastão de seu posto à frente da bateria, Neguinho se dedica à sua carreira fonográfica com o lançamento do álbum Empretecendo, em parceria com Xande de Pilares. Com 19 faixas, sendo quatro inéditas, o trabalho é um tributo à negritude, à resistência cultural e ao samba. O álbum tem produção de Xande e Luciano Broa, e conta com participações especiais de artistas consagrados, como Zeca Pagodinho, Teresa Cristina, Ferrugem, Revelação, Andrezinho do Molejo, Pique Novo, Swing e Simpatia, Helinho do Salgueiro, Renato da Rocinha e Vando Oliveira.

Entre os destaques, está a faixa Empretecer, que dá nome ao álbum e reforça o compromisso antirracista dos artistas envolvidos. A canção foi composta por Jonathan Fernandes Vieira, Rodrigo Cavanha, Wilsinho Paz, Serginho Sumaré, Théo Ribeiro, Léo Freire, Felipe Mussili e o próprio Neguinho. Além das inéditas, o álbum também revisita grandes sucessos de sua carreira, como Negra Ângela, Gamação Danada/Bem Melhor que Você, Problema Social e Menino de Pé no Chão, reafirmando sua relevância na história do samba.

Germana Puppin com o cantor no estúdio da Revista Manchete

“Entre as minhas conquistas, considero a maior levar o samba que eu faço para fora do Brasil. ”

 

VIDA EM DOCUMENTÁRIO

E para quem está se “aposentado” do Carnaval, até que a agenda do artista segue bastante agitada. Em novembro, ele chegou a todas as casas com a cinebiografia Neguinho da Beija-Flor – O Soberano na Avenida, produzida pela Afroreggae Audiovisual. Dividido em quatro episódios, o documentário retrata sua trajetória desde a infância humilde, na periferia de Nova Iguaçu, até sua consagração como um dos maiores nomes da música popular brasileira. Disponível na Globoplay, conta com narração do próprio Neguinho e reúne imagens de arquivo e depoimentos de familiares, amigos, artistas e personalidades do samba, revelando camadas inéditas de sua vida e de seu legado. Na ocasião de nossa entrevista (antes da estreia), ele se derreteu sobre o produto: “A direção do Afroreggae me mandou só um pedacinho e eu vi no aeroporto. Já não aguentei. Acho que nem vou aguentar assistir. É muita emoção”.

Luiz Antônio Feliciano Neguinho da Beija-Flor Marcondes nasceu na Casa da Mãe Pobre, em Vila Isabel, e cresceu na Baixada Fluminense. Filho de um padeiro e músico amador e de uma diarista, teve seu primeiro contato com o samba ainda menino. Começou no bloco Leão de Iguaçu e, em 1975, chegou à Beija-Flor. “Me deram a responsabilidade de cantar na Avenida o samba e a Beija-Flor, para a minha felicidade, foi campeão. Pela primeira vez, uma escola considerada de médio porte ganhou das quatro grandes”, lembra. No ano seguinte, estreou como intérprete oficial com o samba Sonhar com Rei Dá Leão, que levou a escola ao título de campeã. A partir dali, sua voz se tornaria símbolo do Carnaval carioca.

Mas a ligação do artista com o samba não se resume a fevereiro. Com mais de 30 discos gravados, Neguinho é autor e intérprete de canções inesquecíveis, como Deusa da Passarela e Negra Ângela. E é dele, também, o hit que faz ferver a arquibancada do Maracanã: O Campeão, principalmente em dia de jogo do Flamengo. Essa música, porém, foi escrita a pedido de um vascaíno. É sério! Para saber dessa história e de muitas outras curiosidades sobre Neguinho da Beija-Flor – como a inspiração que o levou a criar seu grito de guerra para a entrada da escola e o fato ter se casado em plena Sapucaí –, é só assistir a esta entrevista na íntegra, apontando o seu celular para o QR Code ao final da matéria. Para completar as memoráveis contribuições do artista, não se pode esquecer de que ele foi responsável por levar o ritmo brasileiro a palcos internacionais. “Entre as minhas conquistas, considero a maior levar o samba que eu faço para fora do Brasil”, declara, com o orgulho de quem fez da arte uma ponte entre culturas.

No ano passado, Neguinho da Beija-Flor encerrou com honra seu ciclo como intérprete oficial da escola que ajudou a transformar em potência. Mas sua caminhada continua nos palcos, nas rodas de samba, nos discos e nas telas. Seu compromisso com a música brasileira segue firme, agora com novos projetos e com a mesma paixão que o consagrou como um dos maiores nomes da cultura popular do país.

“Quero que conheçam o meu lado cantor, não apenas o intérprete de Carnaval.”

 

Germana Puppin é jornalista, com experiência consolidada na área de telejornalismo. Apaixonada por gastronomia, artes e viagem