
Sérgio Duarte
Construir empresas é o seu negócio
Ele transformou uma pequena fábrica de condimentos em um grupo que produz 100 toneladas por dia e ajuda outros empreendedores a também alavancarem seus produtos. Conheça, nesta entrevista, a trajetória deste carioca inovador, que acredita, acima de tudo, no potencial do estado do Rio de Janeiro para ser um grande polo industrial.

Como bom filho de imigrantes portugueses, empreender corria em suas veias. E assim, com apenas 19 anos, Sérgio Duarte se tornou sócio em uma metalúrgica. Aos 24, já casado, decidiu deixar de lado essa sociedade e partir para outra, junto ao sogro, que havia comprado uma empresa bem pequenininha de condimentos, no bairro carioca de Inhaúma, chamada Chinezinho. E lá se vão 38 anos de crescimento incessante, não só para Sérgio, mas também para várias outras marcas que hoje fazem parte do grupo Corrêa Duarte, do qual ele é o presidente. Atualmente, este conglomerado empresarial produz 700 linhas de produtos, em duas fábricas no estado do Rio: uma em Valença, outra em Vassouras, além de manter um escritório na Barra da Tijuca, uma transportadora em São João de Meriti e uma distribuidora em São Paulo.

Aos 62 anos, o empresário traz na bagagem os diplomas de Economia e de um MBA em Gestão de Negócios, além do mérito de ter sido, por quatro anos, vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) – atualmente, se mantém como conselheiro desta instituição. E mais: é presidente do Sindicado das Indústrias de Alimentos do Município do Rio de Janeiro (Siarj) e presidente da Rio Indústria – Associação de Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. Para completar, já recebeu a Medalha Pedro Ernesto, principal homenagem da cidade a quem mais se destaca na sociedade. Nas páginas a seguir, entenda por que Sérgio Duarte é merecedor dessa e de outras homenagens, como ser a capa da Revista Manchete.
Vamos começar nossa conversa matando uma curiosidade… Como surgiu o nome Chinezinho?
Quando fui buscar a origem desse nome, descobri que o primeiro dono da fábrica era um português. E, na época em que foi criada a marca, 52 anos atrás, tinha um jogador do Vasco da Gama chamado Chinezinho, inclusive com a grafia utilizando o “z”, e não o “s”, que seria o certo. Creio que foi uma homenagem a esse jogador.
Como é que está hoje a sua área de atuação? Já não é mais só Chinezinho, não é mesmo?
O grupo cresceu muito. Hoje, a Chinezinho é a principal marca da nossa empresa, o grupo Corrêa Duarte. Mas nós temos várias outras. Atualmente, chegamos a produzir 100 toneladas de produtos por dia, e, como sempre digo, temos que vender 100 toneladas todo dia, senão o estoque não cai.
Por qual motivo você escolheu ir para o interior do estado do Rio de Janeiro? Teve a ver com incentivo fiscal?
Foi em 1999, mais ou menos, que começamos a estudar o assunto. Às vezes, as pessoas confundem muito incentivo imaginando que isso é para o bolso do empresário. Só que uma política de incentivos bem-feita ajuda a empresa a competir. Teve um estudo que a Firjan fez na época, mostrando que a carga tributária do setor industrial era por volta de 44% do PIB dela. Então, de cada R$ 1 que a indústria produzia, R$ 0,44 eram impostos. Em comparação a outros países, por que o Brasil não é competitivo na hora de agregar valor ao produto fabricado? Porque há uma carga tributária como essa. E como brigar com o chinês, que está com zero? Eu não vou conseguir. Por isso, começamos a estudar levar a fábrica para outro lugar do Brasil que tivesse um incentivo mais forte, para poder competir. E, na época, o estado do Rio estava com uma política de incentivos para o interior, e Valença tinha acabado de aderir. Para nós, esse município fez mais sentido por causa da ligação com São Paulo. Então, fomos para o interior pela política de incentivos. E também para ficar perto do mercado consumidor, já que, em Valença, estou a 90 km de Juiz de Fora, a 250 km de São Paulo e a 150 km do Rio. Nós nos posicionamos numa região que concentra praticamente 50% do PIB nacional.
Muita gente fala que, em relação ao setor industrial, o Rio de Janeiro não é competitivo. Concorda?
Não. Nós aqui temos vantagens comparativas. Possuímos mão de obra qualificada, já que contamos com a segunda melhor base de ensino no Brasil, em termos de formação de especialistas e técnicos. Nós temos mercado consumidor, estradas com boa estrutura e portos e aeroportos juntos. O Rio de Janeiro é um hub, e por isso tem vocação industrial, sim. Se você der as condições e as políticas certas, pode transformar o Rio, principalmente o interior do estado. A capital está sempre protegida por seu turismo muito forte. Mas como desenvolver o interior? A indústria é um grande motor para esse desenvolvimento.
Então, o seu mercado de venda hoje está mais concentrado no Rio de Janeiro?
Estamos presentes em 13 estados da federação, mas o nosso forte é o Rio. É onde se concentra a maior parte de volume de mercadoria. A Chinezinho, em nosso estado, é uma marca muito consolidada. Isso está até no nosso slogan: “Toda casa tem”. Se você abrir a sua despensa agora, vai encontrar alguma coisa nossa.
Só que você não tem mais apenas produtos Chinezinho na sua prateleira. Está junto com várias empresas. Explica isso melhor…
Como a Chinezinho começou muito pequena, eu posso falar que sei de todas as dificuldades que um empreendedor passa para construir o seu negócio, para poder entender um pouco de finanças, de contabilidade… Então, dentro dessa experiência, o que percebi? Que existiam grandes ideias, grandes produtos, que não conseguiam ir para frente. Por isso, comecei a buscar esses empresários menores que estavam com alguma dificuldade e ofereci a eles a nossa estrutura, criando uma aceleradora de empresas na nossa holding, na Barra da Tijuca. Já temos quatro empresas sendo aceleradas e mais duas que devem entrar nos próximos meses. Ou seja, os produtos dessas empresas começam a ser produzidos nas nossas fábricas, com toda a assistência. E o empreendedor vem conosco, porque aquele produto é a alma dele, não queremos tirar isso, e sim que ele continue preservando essa vontade de empreender, de fazer alguma coisa diferente. Eu sempre brinco dizendo que toda a parte chata a gente assume. A contabilidade, o financeiro, a parte trabalhista, a estrutura e o transporte ficam com a gente, e o empreendedor fica com a parte que ele mais gosta: criar produto e vender.
Pode dividir com a gente alguns exemplos de empresas que estão acelerando?
Uma delas é o Brownie do Luiz. Nós trouxemos esses sócios, que sempre foram muito fortes em marketing. Com a nossa aceleração, já estamos até exportando para os Estados Unidos. Trouxemos também mais duas empresas, especialistas em fornecer para restaurantes, que eram boas em venda e atendimento ao cliente, e agora o nosso grupo complementa com o que elas precisam. Outros exemplos são o grupo Rão e o TT Burger, e, agora, somos nós que fabricamos os produtos deles.
E qual é o maior desafio que essas empresas enfrentam?
Capital de giro é o maior problema para o empreendedor no início. E você ainda tem a dificuldade com burocracia, que é a parte contábil. É impossível um empresário entender disso, daí ele vai para o contador. Porém, às vezes, nem o contador entende, porque são muitas mudanças na legislação. E quando um erro é pego pela fiscalização, o Estado vem punir o empresário com toda a força, sem dar o princípio da dúvida. E essa punição pode inviabilizar o negócio dele.
Além da sua veia industrial, você acaba tendo também uma veia um pouco social e política, no sentido de ajudar outros empresários a fazerem essa jornada no Rio de Janeiro. E, nesse sentido, fundou a Rio Indústria. Por que que você acha que é importante coexistir politicamente aqui no estado?
A Rio Indústria é uma associação de indústrias do Rio de Janeiro, que existe há cinco anos. Ela busca harmonizar os interesses, ou seja, fazer a interlocução do empresário com o poder público. E a gente também entende que, muitas vezes, o governo tem dificuldade de atender uma empresa. Por isso é que as entidades representativas são importantes, porque fazem com que essa interlocução fique melhor.
De certa forma, a Rio Indústria seria uma concorrente da Firjan?
Não, isso não existe. São entidades que coexistem, tanto é que eu faço parte do conselho da Firjan e sou presidente da Rio Indústria. Em nenhum momento elas se atritam. Muitas vezes, trabalhamos em paralelo, reforçando o pleito e a defesa, e buscando harmonizar os interesses dos setores.
Diante de tantas demandas profissionais, sobra tempo para o lazer?
Olha, o meu hobby é ficar com a minha família. O grande prazer da minha vida realmente é estar com a minha mulher, Laura, com quem estou casado há 39 anos. Ela é minha parceira, que sempre me motivou, me ajudou e me botou para frente. Temos dois filhos, Antônio e Anique, que são os meus amores. E o Antônio me deu, há cinco anos, o meu neto Noah. Todos botafoguenses! Também adoro bater papo com os amigos. E faço atividade física. Caminho e treino na academia. Mas só porque preciso, não é hobby. Nem gosto… Faço porque é importante para a saúde.
Você teria algum recado a dar ao consumidor carioca?
Percebo que nem sempre o carioca e o cidadão fluminense sabem das empresas que têm no Rio de Janeiro. Mas, quando eles pegam um produto da Chinezinho, é importante entender que, hoje, geramos 600 empregos diretos e mais de mil indiretos. Então, quando o consumidor vai ao supermercado e tem o princípio da escolha, seja pela qualidade ou pelo preço, sugiro que dê uma olhada onde ele é fabricado. E eu não estou falando só da Chinezinho, porque há outras grandes empresas no Rio de Janeiro. Ao ver que é produzido aqui e decidir comprar, com esse gesto está gerando emprego e renda ao estado. E só assim vamos ajudar o nosso Rio, gerando oportunidades.
Marcos Salles é jornalista e presidente da Revista Manchete






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