PARKINSON
MOVIMENTO TRAZ ESPERANÇA
ESTA DOENÇA NEURODEGENERATIVA IMPÕE DESAFIOS DIÁRIOS, MAS A ATIVIDADE FÍSICA PODE FAZER TODA A DIFERENÇA. RODRIGO MENDES QUE O DIGA! ELE CONVIVE COM A CONDIÇÃO HÁ 17 ANOS E ENCONTROU NOS EXERCÍCIOS UMA FORMA DE MELHORAR A SUA QUALIDADE DE VIDA.
Em 2009, aos 38 anos, o economista carioca Rodrigo Mendes mantinha a boa forma com musculação e cinco quilômetros de corrida na rua. Certa vez, quando faltava um quilômetro para finalizar o exercício, percebeu que um de seus pés começou a travar, virando para dentro. Estranhou, se acalmou e voltou a correr, terminando o treino. Porém, o problema reapareceu em tempos cada vez menores – aos três quilômetros, dois quilômetros… –, e isso o obrigava a parar, já que perdia o comando do movimento dos pés.
Rodrigo buscou um ortopedista, mas os exames nada apontaram de errado. “Resolvi dar um tempo da corrida para ver se melhorava. Mas, depois, comecei a ter um tremorzinho na mão direita, e o meu ortopedista me indicou um neurologista”, lembra. E finalmente veio o diagnóstico: doença de Parkinson. “Foi como uma bomba atômica explodindo na minha cabeça. Eu ainda era muito novo e com um diagnóstico tão difícil.”
Depois da notícia, o economista ficou seis meses em depressão e nem quis mais saber de atividades físicas. Até que, com a melhora do quadro emocional, ele voltou aos poucos a frequentar a academia. “Comecei a me sentir cada vez melhor. Aí passei a ter contato com pessoas que tinham a doença já há muito tempo e estavam bem. Isso me deixou mais animado, porque, com o diagnóstico, eu tinha imaginado que em cinco anos estaria limitado em cima de uma cama”, comenta Rodrigo. Com o retorno aos exercícios, ele recuperou a sua energia e passou a praticar atividades que nem fazia, como natação e ciclismo. “Assim, o meu condicionamento físico ficou melhor do que antes”, revela.
“A prática de exercício físico regular já tem sido comprovada amplamente pela ciência como uma estratégia não medicamentosa fundamental para o tratamento e a prevenção de doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer.”
Mariana Moscovich, neurologista
ALTOS DESAFIOS,
GRANDES MELHORAS
Dez anos após o diagnóstico de Parkinson, uma nova atividade surgiu no radar do economista: o montanhismo. Um ano antes, numa viagem à África do Sul, ele se encantou pelo Monte Kilimanjaro, com seus quase 6 mil metros de altitude. Como qualquer turista, subiu numa maquete da montanha e tirou uma foto. “Nessa hora, pensei em como seria legal subir esse monte de verdade. Voltei para o Brasil com essa ideia martelando na minha cabeça. Convidei um amigo que já fazia montanhas e o meu personal trainer para irem comigo, e eles toparam”, recorda Rodrigo.
Mas será que em nenhum momento passou pela mente do economista que o Parkinson poderia ser uma limitação? “O tempo todo. Eu só parei de pensar nisso quando alcancei o topo e vi que tinha vencido a montanha”, responde. Rodrigo conta que essa vitória lhe trouxe uma explosão de energia tão grande, que ele tomou uma decisão: “A montanha tem que estar na minha vida. Eu quero repetir essa sensação várias vezes”. Por isso, intensificou seus treinos e, atualmente, também é considerado um atleta, já tendo vencido outros dois grandes desafios: o Aconcágua, na Argentina, e o Elbrus, na Rússia. “A montanha, hoje, não tem um papel de hobby para mim. É ela que me permite ter toda essa motivação para continuar brigando contra a doença”, afirma.
Com toda a certeza, os exercícios praticados por Rodrigo ajudam a trabalhar o equilíbrio, a coordenação, a força e a mobilidade, além de manterem sua independência e confiança. Para confirmar isso, ouvimos a neurologista Mariana Moscovich: “A prática de exercício físico regular já tem sido comprovada amplamente pela ciência como uma estratégia não medicamentosa fundamental para o tratamento e a prevenção de doenças neurodegenerativas, como Parkinson e Alzheimer. No Parkinson, aprimora o quadro motor, trazendo melhora na rigidez, na lentidão e até mesmo no tremor, assim como mais equilíbrio e fortalecimento da musculatura, prevenindo quedas”.
A médica completa que algumas modalidades, como dança, alongamento e bicicleta, já foram comprovadas cientificamente no controle dos sintomas de Parkinson. “Mas sabemos que a prática regular é fundamental, sendo 150 minutos por semana o ideal, intercalando com atividades que trabalhem equilíbrio, força, alongamento e aeróbico. Porém, lembrando que o exercício físico faz parte do tratamento multidisciplinar da doença, ou seja, deve vir junto com médico, remédios, fisioterapia, fonoaudiologia, nutricionista e psicólogo”, avisa Mariana.
“Faça esporte, mesmo sem vontade. É como se estivesse abrindo uma caixinha de remédio e pegando o comprimido que precisa tomar.”
Rosângela Cuervo, aposentada
“Como a doença afeta muito o controle motor, a gente faz não só o treinamento de musculação, que é mega importante para o ganho de massa muscular, mas também outros esportes que ajudam o cérebro a formar neuroplasticidade.”
João Victor Giordano, personal trainer
DAS MONTANHAS PARA A RAQUETE
Seguindo as recomendações médicas, Rodrigo se dedica a uma série de atividades físicas sob a orientação de seu personal trainer João Victor Giordano. “Como a doença afeta muito o controle motor, a gente faz o treinamento de musculação, que é mega importante para o ganho de massa muscular, e também outros esportes que ajudam o cérebro a formar neuroplasticidade, como pingue-pongue, basquete e chute gol a gol”, comenta João. Além do controle da doença, o treinamento tem como foco o bom desempenho nas montanhas: “Eu e Rodrigo criamos um laço de amizade não só na parte da preparação, mas também no desafio de estar com ele nas montanhas, e juntos já fizemos as três maiores do mundo”, enaltece o personal trainer.
Ainda com o intuito de melhorar a coordenação motora, o reflexo, a concentração e o equilíbrio, Rodrigo também pratica padel – esporte de raquete dinâmico, em dupla, numa quadra fechada, combinando elementos do tênis e squash. Guilherme Prata, responsável pela atividade no clube AABB-Rio, explica a sua importância: “Para pessoas com Parkinson, o padel ajuda na coordenação motora e na capacidade de pensamento, para conseguirem ajustar o corpo para se mover até a bola e rebatê-la. Os esportes de raquete, normalmente, auxiliam muito as pessoas que desenvolvem essa doença”.
E outro exemplo disso é a aposentada Rosângela Cuervo. Quando foi diagnosticada com Parkinson, em 2013, realizava muitos exercícios físicos, como corrida e musculação. “Com a doença, achei que ia ter que parar com tudo. Mas aí tive a minha virada de chave quando senti que o exercício começou a me ajudar mais do que os remédios. Minha neurologista sempre fala que 50% do meu tratamento eu realizo com o esporte”, conta Rosângela. Além de musculação e pilates, ela pratica beach tênis e padel: “Os esportes com raquete me ajudam muito no deslocamento. Ao começar as aulas, passei a me sentir muito bem”.
Rosângela é mais uma vitoriosa na batalha contra a doença. “A minha teoria é que o Parkinson não me tem, eu que tenho Parkinson”, afirma. E ela deixa uma mensagem a quem receber o diagnóstico: “Olha, é difícil, porque não vou dizer que é só tomar o remédio e ficar bem. Seu corpo muda. Mas você tem que ter uma vida feliz, sem ansiedade, sem depressão. E fazer esporte, mesmo sem vontade. É como se estivesse abrindo uma caixinha de remédio e pegando o comprimido que precisa tomar”.
Walter Troncoso é profissional de educação física e empresário






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