MOSTEIRO DE SÃO BENTO
ARTE EM OURO NO CORAÇÃO DO RIO
EM MEIO AO RITMO INTENSO DO CENTRO DA CIDADE, EXISTE UM LUGAR ONDE O TEMPO PARECE SUSPENSO. FUNDADO NO SÉCULO XVI, GUARDA UMA IGREJA BANHADA A OURO, CANTOS GREGORIANOS E UM ESPAÇO QUASE NUNCA REVELADO: A CLAUSURA DOS MONGES. CONSEGUIMOS ATRAVESSAR ESSA FRONTEIRA SILENCIOSA — E CONTAMOS TUDO NESTA MATÉRIA.
Do alto do Morro de São Bento, entre a movimentação urbana e o traçado histórico do Centro do Rio, ergue-se um importante monumento da cultura colonial brasileira: o Mosteiro de São Bento. Fundada em 1590, apenas 25 anos após a criação da cidade, a abadia é testemunha viva da formação histórica, religiosa e artística do país. Os monges beneditinos, que entoam cânticos gregorianos nas missas dominicais, vivem em uma clausura, sem permissão de acesso às mulheres, mas me foi concedida uma exceção e eu detalho minhas impressões nesta matéria.

A rotina silenciosa dessa comunidade monástica é quebrada aos domingos, quando fiéis e turistas disputam lugar para assistir à missa marcada pela liturgia em forma de canto gregoriano. O coro sacro dos monges sublima ainda mais a imagem de uma igreja banhada a ouro – referências dos estilos barroco e rococó luso-brasileiro. “A missa solene atrai muitos fiéis e turistas do Brasil e do mundo inteiro. É uma cerimônia com incenso, órgão e canto gregoriano, que encanta quem vem assistir”, ressalta o monge beneditino Dom Mauro Fragoso.
A arte colonial da igreja é um verdadeiro tesouro decorado por talhas de madeira e obras de arte, algumas esculpidas pelo Mestre Valentim. O chão em pedra, grande parte original, guarda túmulos de pessoas nobres, como informa Dom Hilário de Siqueira, lembrando que, até o século XIX, era comum o sepultamento no interior das igrejas. Há arte por todos os lados: das folhas de acanto, símbolo de imortalidade, às pinturas de óleo sobre madeira do altar, assinadas por Frei Ricardo do Pilar, um artista alemão radicado no Rio. O nome brasileiro é justificado, segundo a doutrina beneditina: “Quando entramos no mosteiro e iniciamos a vida monástica, recebemos um padroeiro onomástico, temos uma mudança de nome, no sentido de começar uma vida nova”, explica Dom Mauro.

Toda a opulência que vemos no interior da igreja contrasta com a sobriedade da fachada ao estilo maneirismo português – o que chamava a atenção, inclusive, de artistas europeus que passaram pela cidade nos séculos passados. A vista dos adros de igrejas era constantemente retratada por Debret e Rugendas. Durante séculos, templos religiosos formavam eixos estruturantes do crescimento urbano brasileiro, e o Mosteiro de São Bento se destacou como um dos maiores empreendimentos do Rio de Janeiro no século XVII. A vista panorâmica da Baía de Guanabara sempre foi um dos principais atrativos. Além da função defensiva, a posição estratégica transformou o mosteiro em um marco visual da cidade.
HISTÓRIA, FÉ E ARTE
O mosteiro foi fundado em 1590 por dois monges vindos da Bahia – Frei Pedro Ferraz e Frei João Porcalho – e integra a Congregação Beneditina do Brasil, que hoje reúne sete mosteiros masculinos e 16 femininos. Inicialmente dedicado à Nossa Senhora da Conceição, passou, em 1602, a ter como padroeira Nossa Senhora do Monserrat, cuja imagem se encontra em destaque no altar-mor.

Em 1596, o mosteiro foi elevado à condição de abadia, consolidando sua importância religiosa e institucional. A atual igreja começou a ser construída em 1633 e foi inaugurada solenemente em 1641. O complexo de 20 mil m2 abriga ainda a faculdade e o Colégio de São Bento, que inicialmente tinha um propósito social, sem cobrança de mensalidades, exclusivamente para meninos.
Os recursos financeiros para a construção do atual prédio do mosteiro vieram da renda obtida pela produção de cana-de-açúcar e pela venda de propriedades que os monges recebiam de doações. O trabalho braçal da construção foi executado pelos escravos, mas os monges também contribuíram com as obras e com a arte. Desde a sua construção, o mosteiro passou por algumas reformas e reconstruções, mas mantém muito da arquitetura original, apesar de ter sofrido um bombardeio durante a invasão francesa em 1711 e, anos depois, passado por um incêndio que destruiu o prédio principal.
DEVOÇÃO DE UMA
VIDA NA CLAUSURA
Uma única grande chave abre todas as portas. Sou convidada a entrar em um local proibido para mulheres: a clausura dos monges. O silêncio dos longos corredores feitos de pedra e cal já demonstra o clima de recolhimento. No regime da vida monástica, o contato com o mundo exterior é restrito, com o propósito de evitar distrações que possam prejudicar a profunda união com Deus por meio de orações e estudos.
Dentro da clausura, onde vivem atualmente cerca de 30 monges, há aposentos que se alternam entre a simplicidade e a exuberância. O refeitório, os corredores e ala da enfermaria são espaços funcionais. Já a Capela das Relíquias impressiona por suas paredes em tom verde, esculpidas em relevo revestido a ouro – uma encomenda do Frei Antônio do Desterro, então bispo do Rio de Janeiro. A sacristia também é um lugar que abriga peças de arte, entre elas, ao centro de um majestoso altar, a principal pintura do Frei Ricardo do Pilar, denominada “Senhor dos Martírios”.
A Casa da Livraria é uma biblioteca com seis salas, que guarda cerca de 14 mil volumes, incluindo obras raras e manuscritos antigos, preservados como verdadeiros tesouros da palavra e do conhecimento. Além dos livros, há peças de museu, como gramofones antigos, animais empalhados, balas de canhão, laboratório de restauração e até um cemitério dos livros. “Esse nome é porque são livros muito antigos e danificados. Alguns têm mais de 40% de perda, mas nós não jogamos fora, porque, além de serem raros, são livros que têm a palavra de Deus”, explica Dom João Evangelista Paiva, coordenador da biblioteca.
Sigo a conhecer os ambientes da clausura e, na escada, me deparo com janelas que mais parecem quadros da bela vista do Rio de Janeiro. Algumas paredes chegam a medir quase três metros de espessura, uma verdadeira fortaleza. Da sacada, tenho ampla visão da Baía de Guanabara, da Praça Mauá, do Museu do Amanhã e da Ponte Rio-Niterói. Para finalizar, um passeio pelo jardim emoldurado pelos arcos do mosteiro, um verdadeiro recanto de paz em meio à natureza, em pleno Centro da cidade. O caminho é sobre as lápides sepulcrais em que os monges são enterrados.
Apesar das transformações urbanas ao seu redor, o Mosteiro de São Bento permanece como um refúgio de espiritualidade e contemplação no coração da metrópole. Além de um patrimônio arquitetônico, o espaço é um elo vivo entre passado e presente, onde arte, fé e silêncio continuam a dialogar com a cidade que cresce ao seu redor – sem jamais apagar a força de suas origens.
Mariana Leão é jornalista, apresentadora, repórter e editora, com passagem pelas emissoras Globo, Record, Rede TV e Band






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