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Aquaviário: o futuro da mobilidade

AQUAVIÁRIO
O FUTURO DA MOBILIDADE NA BARRA

O QUE HOJE É UM CARTÃO-POSTAL ESQUECIDO ENTRE AVENIDAS E CONDOMÍNIOS, EM BREVE SERÁ ROTA DE MILHARES DE PASSAGEIROS. O CONSÓRCIO LAGUNAR MARÍTIMO VAI IMPLANTAR UM SISTEMA DE BARCOS QUE LIGARÁ BARRA, JACAREPAGUÁ E RECREIO, INTEGRANDO-SE AO METRÔ E AO BRT – E AINDA PRETENDE RECUPERAR O ECOSSISTEMA DAS LAGOAS.

Atrás dos arranha-céus da Barra da Tijuca, há um cenário de rara beleza: canais sinuosos, aves sobrevoando, jacarés deslizando pela água e um sistema de lagoas que conecta Barra, Jacarepaguá e Recreio. É nesse território que ganha forma o Aquaviário – Consórcio Lagunar Marítimo, projeto que promete mudar o transporte na Zona Sudoeste e devolver vida ao chamado “Pantanal Carioca”.

À frente da iniciativa, estão o empresário Sávio Neves e o engenheiro Carlos Favoreto. Sócios na Lagunar Marítima, eles obtiveram a concessão para explorar o transporte público aquaviário do complexo lagunar. “É um privilégio poder aproveitar essa geografia das cinco lagoas. Quando o projeto estiver maduro, queremos transportar 85 mil pessoas por dia, com qualidade, conforto e segurança”, explica Sávio.


O plano inicial prevê oito linhas e 11 estações espalhadas pelas lagoas da Tijuca, de Jacarepaguá, do Camorim e de Marapendi. Mas a demanda local é tanta que a expansão já está sendo calculada. “Devemos aumentar para cerca de 40 pontos, acompanhando o crescimento da população e o surgimento de novos polos de atração”, antecipa Favoreto.

A estimativa de ganho em tempo é impressionante. O trajeto entre o BarraShopping e o Rio das Pedras – sub-bairro de Jacarepaguá –, que hoje pode levar até uma hora e 40 minutos, será feito em cerca de 20 minutos. “Quando eu falo isso, as pessoas duvidam. Mas o projeto é real, o investimento está sendo feito e já é uma realidade”, garante o engenheiro. Essa será uma das primeiras ligações em operação.


O novo sistema não concorre com o que já existe: ele se integra ao metrô, ao BRT e ao futuro VLT, criando um corredor contínuo entre o Jardim Oceânico, a Linha Amarela e bairros cortados pelas lagoas. “O usuário vai poder sair do metrô, embarcar num barco e seguir para casa. O principal eixo de integração será o Jardim Oceânico”, detalha Sávio.

As estações terão bicicletários, estacionamento e ligação com ônibus de condomínio, estimulando a mobilidade sustentável.

Para atender à meta, o consórcio prevê uma frota de cerca de 90 embarcações, a maioria com 42 lugares e algumas com até 94. Embora o edital previsse investimento de R$ 105 milhões, o valor final deve ultrapassar R$ 200 milhões, considerando obras, dragagens e infraestrutura. Além dos dois empresários, uma construtora de grande porte integra a sociedade. “As receitas acessórias, como turismo, eventos e comércio nas estações, serão essenciais para equilibrar esse investimento expressivo”, explica Sávio.

O grupo já trabalha em parceria com engenheiros navais da COPPE-UFRJ e consultores internacionais para definir o tipo de embarcação ideal – catamarã ou monocasco, motor central ou elétrico. Paralelamente, o consórcio estuda soluções para gargalos antigos, como a ponte que liga as lagoas de Jacarepaguá e Camorim, construída nos anos 1980 e hoje insuficiente até para pedestres. A readequação dessa travessia será crucial para ligar o metrô à Cidade do Rock e ao Riocentro.

O cronograma oficial da concessão prevê 36 meses até a operação plena, mas os sócios querem antecipar. “Pelo menos, o trecho BarraShopping-Rio das Pedras e parte da Lagoa da Tijuca deverão começar a funcionar até o fim do ano que vem”, diz Favoreto. A sede do consórcio, na Avenida das Américas, concentra engenheiros e especialistas em operação e meio ambiente. “Já passamos da fase do desafio. Agora é execução. Trabalhamos exaustivamente para que o projeto saia do papel”, afirma Sávio.

O MEIO AMBIENTE
TAMBÉM SAI GANHANDO
A proposta vai além da mobilidade. O Aquaviário traz também uma visão ambiental integrada, considerando o impacto positivo sobre o complexo lagunar, formado por cerca de 12 milhões de m2 de espelho d’água. As lagoas, que ainda sofrem com lixo e esgoto, poderão ganhar nova vitalidade com o aumento da circulação, dragagens pontuais e a presença constante de embarcações. “A partir do momento em que o cidadão começa a usar as lagoas, ele também passa a fiscalizar e cobrar mais cuidados. É um ecossistema vivo, que precisa ser visto e valorizado”, observa Favoreto.

O consórcio pretende adotar embarcações elétricas e híbridas e até turbinas sob os cascos capazes de filtrar e oxigenar a água a cada travessia. Além disso, a empresa já fez a batimetria (mapeamento da topografia subaquática) de toda a área e planeja intervenções que melhorem o fluxo entre Tijuca, Jacarepaguá, Camorim e Marapendi. “Nosso projeto engloba todo o sistema lagunar e contribuirá para o seu reequilíbrio natural”, afirma o engenheiro.

Durante a semana, o foco será o transporte de quem hoje depende de carros e ônibus de condomínio. Nos fins de semana, as linhas também funcionarão para passeios turísticos, fortalecendo o comércio e a gastronomia local. “As pessoas viajam horas para ver paisagens como as que temos aqui. Agora, poderão redescobrir o Rio de Janeiro a partir das águas”, destaca Sávio.

O empresário vislumbra ainda uma cena futurista: moradores saindo de barco de condomínios, como Alphaville ou Rio Mar, e desembarcando diretamente no aeroporto de Jacarepaguá. “É um projeto que une mobilidade, turismo e sustentabilidade. Quanto mais estudamos, mais entendemos o quanto ele pode transformar a vida de quem vive na Zona Sudoeste”, resume.

O Aquaviário, enfim, surge como símbolo de uma nova etapa para a Barra: um bairro que nasceu olhando para o asfalto e agora volta o olhar para suas águas. Um convite à reconexão – com a cidade, com o tempo e com o próprio ambiente em que vivemos.

Marcos Salles é jornalista e presidente da Revista Manchete

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