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SABE AQUELA BALINHA, TÃO DESPREZADA, QUE EM ALGUNS MOMENTOS ERA O TROCO DA PADARIA? POIS HOJE VAMOS VIAJAR NA HISTÓRIA DE UMA BALA QUE NUNCA FOI TROCO, NEM COADJUVANTE
DE NADA. A GALO DOCE VEM BRILHANDO NO PALADAR DOS CARIOCAS HÁ QUASE 50 ANOS.
As balas tradicionais de açúcar, também conhecidas como “hard candy” ou “bala dura”, sempre foram mais populares entre os europeus, que valorizam a sua produção artesanal. Mas o Rio de Janeiro, na contramão das expectativas, mantém gloriosamente, há 46 anos, uma fábrica de balas que marcou gerações.

O ano era 1979. O português Albino Alves investia no ramo de restaurantes no Rio de Janeiro, quando um grego lhe fez uma proposta diferente: por que não investir também em balas, assumindo a fábrica dele? Negócio fechado, as “Balas Rio” se tornaram a “Galo Doce”, que começou a ganhar forma em Tomás Coelho, Zona Norte do Rio de Janeiro. O galo de Barcelos – aquele galinho que é marca registrada de Portugal – também inspirou o projeto, que se tornaria referência no Brasil na produção de um tipo de bala que, na década de 70, fazia sucesso na Inglaterra.
Da década de 80 para frente, a ideia do seu Albino só cresceu. Eram balas, pirulitos e afins, feitos com uma calda de açúcar quente que, quando esfria, pode ser esticada, enrolada e moldada até endurecer de uma vez por todas. Quase uma massa de modelar de açúcar. O preparo ainda é 100% artesanal, como era feito há quase 50 anos. É por isso que todos os dias Érica Guimarães, neta de seu Albino, prova toda a produção, tacho por tacho, para ter certeza de que o sabor seja sempre o mesmo.

“Meus pais herdaram a fábrica de meus avós. E hoje eu sou a terceira geração da família à frente da Galo Doce”, diz Érica. Atualmente, ela e o marido – Jorge Orlandi, CEO da empresa – tocam a fábrica, já pensando na quarta geração: “Nosso filho, com 14 anos, acompanha as atividades da fábrica e começa a entender cada vez mais do nosso negócio”, comenta Jorge, mostrando orgulhoso um vídeo no celular em que o filho está num encontro com revendedores.
Atualmente, além de ser vendida pelo site da empresa, a bala – que é vegana, sem lactose e sem glúten – também é encontrada em restaurantes, lanchonetes mais gourmetizadas e lojas de conveniência. Apesar de sofisticada, é acessível: por exemplo, um pote de 200 g de bengalinhas doces, que bombam na época do Natal, sai por R$ 45,70. E vale cada centavo: elas podem ser usadas até na árvore – desde que, claro, fiquem dentro do plástico. Sem dúvida, é um enfeite que não dura depois da meia-noite.
COLOCANDO A MÃO NA MASSA
A receita começa com o açúcar diluído em água, dentro de um tacho. A calda, que também leva outros ingredientes para ter mais brilho, ferve até 150°C, ganhando cremosidade e transparência. Depois, já mais fria, ela é aberta sobre uma mesa de mármore e recebe corante alimentar, pronta para virar arte. No dia da minha visita à fábrica, tingimos parte da massa de vermelho, parte de amarelo. Como precisávamos de branco, os funcionários me deram a dica: prender a massa em um gancho na parede e puxar, esticar e aerar até ela ficar branca.
Acreditando ter músculos no braço para isso, me permitiram colocar a mão na massa no processo. Ainda quente e no melhor estilo “puxa”, a massa remete mesmo à infância. Não apenas pelo delicioso perfume de açúcar que sai dela, mas também pelo processo quase rudimentar. E ninguém por ali está interessado em mudar isso. “Faz parte de uma tradição”, completa Érica.

Com três partes da massa devidamente distribuídas em branco, amarelo e vermelho, fica a pergunta: mas por que nessas cores? Resposta simples: com facilidade de moldar e produzir memórias afetivas, é possível personalizar as balas. As que fizemos foram todas com o “M” da Revista Manchete. A letra – feita com a massa amarela, enrolada na massa branca e encapada pela vermelha – forma um espesso cilindro que é esticado até ficar fino para ser cortado, já no formato das balinhas, também chamadas de “rocs”. Você pode assistir a todo o processo acessando o QR Code desta coluna. Ele leva direto para o vídeo que adoça a alma só de ver.

Depois de visitar uma fábrica como esta, difícil é não se apaixonar. Seja pelas balas, seja pelas embalagens retrô, quando elas vinham em latinhas ou envoltas em verdadeiras obras de arte do desenhista Daniel Azulay ou de personagens da Disney.
Diante de tudo isso, eu diria que essas balas são históricas. Mais do que uma tradição do Rio, as Galo Doce são referências afetivas há quase 50 anos.
Fábio Ramalho é jornalista e publicitário, apaixonado por viagens e comportamento carioca, com mais de 30 anos de televisão






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